
A escalada do conflito no Oriente Médio já se reflete no comércio exterior do Brasil com os países árabes do Golfo. Dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira indicam que as exportações brasileiras para o bloco do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) recuaram com força em março, em meio a restrições logísticas e aumento do risco nas rotas marítimas.
O CCG reúne Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã — mercados estratégicos para produtos do agronegócio e também para itens minerais. No mês, as vendas brasileiras ao bloco somaram US$ 537,11 milhões, uma queda de 31,47% na comparação anual.
Apesar do baque no mês mais intenso do conflito, o acumulado do primeiro trimestre segue no campo positivo. Entre janeiro e março, as exportações do Brasil ao CCG cresceram 8,14%, totalizando US$ 2,41 bilhões. Considerando o conjunto de 22 países árabes, que inclui nações do Levante e do norte da África, a alta no período foi de 3,90%, para US$ 5,13 bilhões.
O fechamento do Estreito de Ormuz interrompeu uma trajetória de alta e tende a elevar custos e riscos na entrega de alimentos, com reflexos diretos na segurança alimentar da região.
Segundo a entidade, a interrupção e a instabilidade no Estreito de Ormuz — rota crítica para o acesso a portos do Golfo — afetaram embarques e fretes, freando a recuperação observada nos primeiros meses do ano. O impacto ainda não anula o desempenho agregado do trimestre, mas pode se intensificar se o conflito se prolongar e continuar restringindo o fluxo de navios.
O agronegócio representa cerca de 75% das exportações brasileiras ao Golfo, o que torna o setor especialmente exposto a choques geopolíticos e gargalos de transporte. Em março, as vendas agropecuárias ao CCG caíram 25,38%. Mesmo assim, no trimestre o setor ainda acumula alta de 6,8%, alcançando US$ 1,44 bilhão.
A pauta do agro mostrou comportamentos distintos entre os itens. O frango, principal produto do Brasil para o bloco, teve queda de 13,80% em março, com vendas de US$ 185,50 milhões. No acumulado do trimestre, a retração é bem menor, de 2,32%, com US$ 619,12 milhões.
O açúcar, segundo item mais relevante, apresentou forte recuo em março: 43,37%, para US$ 54,07 milhões. No entanto, no ano o produto ainda avança 26,41%, somando US$ 363,11 milhões no trimestre.
Já a carne bovina foi um destaque em sentido contrário, com alta de 23,87% em março, para US$ 47,75 milhões. No acumulado trimestral, o crescimento chega a 65,29%, totalizando US$ 194,56 milhões.
O item mais atingido foi o milho, que praticamente deixou de ser embarcado ao CCG em março, com queda de 99,96%, para US$ 0,03 milhão. No acumulado do trimestre, a redução ainda aparece como limitada, de 5,8%, para US$ 61,22 milhões.
O café apresentou desempenho positivo no mês, com alta de 34,24% em março, para US$ 9,97 milhões, e avanço de 64,3% no trimestre, somando US$ 49,58 milhões.
Indicador Resultado Período Exportações totais ao CCG -31,47% (US$ 537,11 milhões) Março (anual) Exportações totais ao CCG +8,14% (US$ 2,41 bilhões) 1º trimestre Exportações do agro ao CCG -25,38% Março Exportações do agro ao CCG +6,8% (US$ 1,44 bilhão) 1º trimestre Exportações aos 22 países árabes +3,90% (US$ 5,13 bilhões) 1º trimestre
Outro efeito do contexto geopolítico aparece do lado das importações. As compras brasileiras de fertilizantes provenientes do CCG recuaram 51,35% no primeiro trimestre. A região responde por cerca de 10% dos fertilizantes importados pelo agronegócio brasileiro, o que amplia a preocupação com custos, oferta e planejamento da próxima safra.
A avaliação é que o tema se torna sensível também para os países do Golfo, que dependem do Brasil como fornecedor relevante de alimentos. Com a logística pressionada, cresce o risco de sobretaxas, atrasos e encarecimento do frete, impactando preços ao consumidor e programas de abastecimento.
A região do Golfo é um destino central do mercado de alimentos halal, que envolve produtos e processos compatíveis com as normas da lei islâmica. O conceito abrange não apenas o tipo de alimento, mas também abate, armazenamento e transporte, exigindo controle e rastreabilidade ao longo de toda a cadeia.
Com uma população majoritariamente muçulmana no Golfo, a segurança alimentar ganha ainda mais relevância quando rotas marítimas estratégicas são afetadas. Em um cenário de instabilidade, empresas e certificadoras reforçam a prioridade de manter os fluxos de exportação, mesmo com custos mais altos associados ao risco.
Relatórios de mercado apontam que a demanda global por alimentos halal se sustenta tanto pelo crescimento da população muçulmana — estimada em mais de 1,9 bilhão de pessoas — quanto pela expansão do consumo fora do público religioso, impulsionada por percepções de qualidade, segurança e rastreabilidade.
Persistência do risco logístico no Estreito de Ormuz e reflexo direto em fretes e prazos.
Possível intensificação das quedas nas exportações, caso o conflito se prolongue.
Rearranjo de embarques e priorização de itens essenciais para abastecimento alimentar.
Pressão sobre insumos, com queda nas importações de fertilizantes e potencial efeito sobre custos no campo.
Rastreabilidade e conformidade halal como fatores competitivos para manter mercados no Golfo.
No ano anterior, o Brasil exportou US$ 21,3 bilhões em produtos para países árabes, com destaque para açúcar, carnes, milho e minério de ferro. O desempenho mostra a relevância estratégica da região para o agronegócio brasileiro e reforça por que a instabilidade atual é acompanhada de perto por empresas, tradings, operadores logísticos e autoridades.
No curto prazo, a avaliação de mercado é que o trimestre ainda se mantém no azul, mas março funcionou como um sinal de alerta: se a instabilidade na rota marítima persistir, os custos devem permanecer elevados e a capacidade de entrega pode continuar sob pressão — com impacto potencial tanto para exportadores brasileiros quanto para a segurança alimentar dos países importadores.

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