A escalada das tensões no Estreito de Ormuz, por onde circula uma parcela relevante do petróleo mundial, voltou a expor um risco direto para o Brasil: a fragilidade no abastecimento e no preço dos fertilizantes. A instabilidade geopolítica na região impacta a energia usada na produção de nitrogenados e, em um país fortemente dependente de importações, tende a se traduzir em aumento de custos e incerteza para a cadeia produtiva.
O tema ganhou força porque o Brasil, apesar de ser uma potência agrícola, mantém uma base considerada vulnerável no fornecimento de insumos. O país importa mais de 80% dos fertilizantes que consome, ficando exposto a choques externos como conflitos, sanções e restrições comerciais. Em 2025, o volume importado atingiu recorde de 45,5 milhões de toneladas, reforçando que a dependência não diminuiu — ao contrário, se intensificou.
Especialistas apontam que reduzir a dependência de fertilizantes importados deve ser tratado como prioridade estratégica. A discussão vai além de posicionamentos políticos: trata-se de um imperativo econômico para sustentar competitividade, previsibilidade de custos e estabilidade de oferta em um setor essencial para a economia.
O Brasil já dispõe de diagnósticos e diretrizes, como as previstas no Plano Nacional de Fertilizantes, mas a avaliação é de que a implementação avança lentamente. Enquanto isso, o cenário internacional se torna mais instável e menos previsível, aumentando a pressão sobre o planejamento do produtor e sobre toda a cadeia de suprimentos.
A crise não cria o problema, apenas o torna mais visível — e escancara o custo da inação.
O caminho para maior resiliência passa por um conjunto de ações que, em geral, se organizam em três frentes: diversificação de fornecedores, produção doméstica e eficiência no uso. Nenhuma delas, isoladamente, resolve o problema, mas o conjunto pode reduzir a exposição do país a choques externos.
A atual concentração de origens — com forte presença de países do Golfo, além de Rússia, Belarus e China — tende a aumentar riscos em momentos de instabilidade. A alternativa defendida é ampliar relações comerciais com mercados como Marrocos e Canadá e estruturar contratos de longo prazo que reforcem garantias de fornecimento.
Mesmo com diversificação, a dependência continuará elevada sem um avanço consistente da produção interna. Um dos pontos centrais é retomar a indústria nacional, especialmente de fertilizantes nitrogenados com base em gás natural. Há, contudo, um descompasso entre urgência e execução: investimentos e projetos relevantes têm prazos longos para entrar em operação.
Um exemplo é a previsão de operação de uma unidade industrial no Mato Grosso do Sul apenas para o fim da década, o que evidencia o desafio de transformar planos em entregas no curto e médio prazo — períodos em que o produtor sente os efeitos de volatilidade de preços e riscos logísticos.
Entre as alternativas de implementação mais rápida, destaca-se o ganho de eficiência no uso de fertilizantes por meio de agricultura de precisão, manejo sítio-específico e uso intensivo de dados. A lógica é abandonar recomendações “médias” e passar a tratar a variabilidade dentro do talhão, ajustando doses e momentos de aplicação.
Nesse campo, o Brasil tem uma vantagem competitiva: a expansão dos bioinsumos. Soluções como fixação biológica de nitrogênio e microrganismos que ajudam a mobilizar fósforo podem reduzir a necessidade de fertilizantes em diferentes cadeias produtivas, mantendo produtividade e contribuindo para sustentabilidade.
Em determinadas culturas, ganhos de eficiência podem representar reduções de 10% a 20% no uso de fertilizantes. O impacto é direto: menor necessidade de importação, menor exposição a oscilações externas e redução do custo total de produção.
No caso do potássio, o debate vai além de capacidade técnica ou disponibilidade de reservas. Projetos estratégicos enfrentam paralisações ligadas a insegurança jurídica e a conflitos socioambientais. A avaliação é de que, sem um modelo de governança capaz de conciliar exploração mineral, regras claras e direitos territoriais, o país seguirá dependente mesmo tendo potencial para produzir mais.
Em destaque: ampliar produção interna exige não só investimento, mas segurança regulatória e um arranjo institucional que viabilize projetos com previsibilidade.
Outro componente que pesa no bolso do produtor é a logística. O custo do fertilizante não está apenas no preço internacional do produto, mas também na distribuição dentro do país. Gargalos em portos, ferrovias e armazenagem elevam custos e prejudicam competitividade, especialmente em regiões mais distantes dos principais pontos de entrada.
Investimentos em corredores logísticos, integração multimodal e melhoria de infraestrutura são apontados como essenciais para reduzir ineficiências e tornar o sistema mais robusto diante de oscilações externas.
No cenário internacional, cresce a percepção de que fertilizantes devem ser tratados como insumo estratégico. Para um país em que o agronegócio tem peso relevante na economia e nas exportações, a segurança de abastecimento precisa ganhar espaço na agenda externa, com acordos e parcerias que reduzam exposição a choques.
A instabilidade no Estreito de Ormuz funciona como um alerta: a dependência brasileira de fertilizantes importados é um fator de risco concreto, com potencial de pressionar custos, reduzir previsibilidade e afetar competitividade. A meta, segundo análises do setor, não é necessariamente a autossuficiência, mas a resiliência — a capacidade de enfrentar turbulências sem comprometer a produção.
Frente de ação Objetivo Efeito esperado Diversificação de fornecedores Reduzir concentração e risco geopolítico Mais previsibilidade e menor exposição a choques Produção nacional Diminuir dependência estrutural Maior segurança de abastecimento no médio/longo prazo Eficiência e bioinsumos Usar melhor o que já é aplicado Redução potencial de 10% a 20% em algumas culturas
Mais volatilidade de preços tende a exigir planejamento e gestão de risco.
Tecnologia e dados ganham papel central para reduzir desperdícios sem perder produtividade.
Infraestrutura logística torna-se decisiva para competitividade regional.
Política industrial e governança definem o ritmo da redução da dependência externa.

O solo europeu está a ser consumido mais depressa do que a natureza consegue regenerar. Segundo Eurostat, os ODS 6 (Água Potável e Saneamento) e 15 (Proteger a Vida Terrestre) são os que recuam na União Europeia, devido ao modelo de uso, ocupação e gestão do solo, com impermeabilização e expansão urbana. Entre 2018 e 2021, a ocupação líquida de terras em áreas urbanas aumentou cerca de 32%, e a área de solo selado atingiu 252,1 m2 por habitante em 2021, colocando a UE fora da trajetória de neutralidade de terras até 2050. A agropecuária intensiva agrava o quadro: as remoções líquidas de carbono caíram 39,7% entre 2009 e 2024; populações de aves em zonas agrícolas recuaram 41,2% e borboletas de pastagem 47,4% (1990-2024); apenas 27% das espécies e 15% dos habitats avaliados estão em bom estado. A erosão hídrica afeta....

Em Dallas, durante a Copa do Mundo, surge uma discussão sobre qual carne bovina é superior, Argentina ou Texas (EUA). O Texas lidera a produção de carne bovina nos EUA; os EUA ocupam a segunda posição mundial, atrás do Brasil, enquanto a Argentina aparece em sexto. No lado argentino...

Em termos de exportação, no dia 18 de junho o arroz vietnamita com 5% de grãos quebrados foi cotado entre US$ 405-415 por tonelada, ligeiramente abaixo dos US$ 415-420 da semana anterior. Internacionalmente, Índia e Tailândia veem altas de preços impulsionadas por flutuações cambiais e preocupações climáticas: arroz parboilizado 5% de grãos quebrados na Índia em US$ 337-342/ton e arroz branco 5% a US$ 343-349/ton; arroz tailandês 5% quebrado entre...

A União Europeia ainda não definiu uma data para reabilitar a exportação de carne brasileira, dizendo que depende de fatores como o tempo necessário para implementar novas medidas legislativas e controles, bem como dos ciclos de produção de cada cadeia, para garantir que os animais de origem não tenham recebido antimicrobianos. A diretora Eva Zamora Escribano, da DG Sante, afirmou que é impossível prever a data, e a Comissão Europeia ressaltou que a reabilitação depende desses dois elementos. Enquanto isso, o Brasil não poderá exportar carne para a UE a partir de 3 de setembro, até demonstrar conformidade com as exigências europeias. O ciclo de vida é destacado como essencial para assegurar que os animais de onde se originam os produtos não receberam antimicrobianos, já que o abate precoce atual é de....

O artigo analisa a combinação de fatores que já colocam o agronegócio brasileiro sob pressão e o surgimento de um novo tema: a possibilidade de a China reduzir suas compras do Brasil. O cenário de margens decrescentes, juros elevados, barreiras comerciais, fertilizantes mais caros, inadimplência e o risco do “Super El Niño” se soma à dúvida sobre o tamanho da dependência chinesa de commodities brasileiras. A China sinalizou, em seu....