
Brasil e China: Diversificação de exportações, tecnologia e energias limpas moldam o comércio bilateral
A relação Brasil-China permanece sólida, com a China sendo o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. Em 2025, o comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões, recorde histórico, com alta de 8,2% ante o ano anterior.
Brasil e China ampliam parceria comercial e colocam sustentabilidade e inovação no centro das negociações
Brasil e China mantêm uma relação econômica estratégica e, segundo especialistas, a tendência é de maior aproximação em 2026, impulsionada por interesses comuns em comércio sustentável, transição energética e inovação. Ao mesmo tempo, o Brasil segue com um desafio central: diversificar a pauta de exportações para o mercado chinês, ainda fortemente concentrada em commodities.
O tema foi debatido durante o Summit Valor Brazil-China 2026, realizado em 25 de março em Xangai, em um painel que reuniu autoridades e analistas para discutir como a relação bilateral se reposiciona em um cenário global de mudanças nas cadeias de valor, exigências ambientais e disputas geopolíticas.
Exportações do Brasil seguem concentradas em poucos produtos
O embaixador do Brasil na China, Marcos Galvão, destacou que a pauta exportadora brasileira para o país asiático permanece altamente concentrada. Segundo ele, 75% das exportações estão reunidas em três itens: soja, petróleo e minério de ferro.
Galvão comparou a evolução do comércio entre 2019 e 2024 e chamou atenção para a diferença de dinamismo entre os dois países. Enquanto a lista de produtos exportados pela China ao Brasil mudou completamente ao longo do período, a do Brasil para a China sofreu poucas alterações — com o milho como uma das exceções.
“Se fizermos uma comparação do comércio entre os dois países entre 2019 e 2024, nenhum dos dez produtos exportados pela China em 2019 se mantinha cinco anos depois. Já no caso do Brasil, só três mudaram, sendo que um deles foi o milho.”
O que o Brasil vende para a China e o que a China vende ao Brasil
Além de soja, petróleo e minério de ferro, o Brasil exporta para a China produtos como carnes desossadas de bovino congeladas e pasta química de madeira. Do outro lado, a China envia ao Brasil principalmente veículos elétricos, placas fotovoltaicas, sulfato de amônio, além de artigos de menor valor agregado e fertilizantes e minerais químicos com nitrogênio e fósforo.
Fluxo comercial Principais itens citados Observação Brasil → China Soja, petróleo, minério de ferro, carne bovina congelada, pasta química de madeira Alta concentração em commodities China → Brasil Veículos elétricos, placas fotovoltaicas, sulfato de amônio, fertilizantes e minerais químicos Maior presença de produtos industriais e tecnológicos
Comércio Brasil-China bate recorde e reforça peso da relação bilateral
Em 2025, o intercâmbio comercial entre os dois países alcançou um novo recorde histórico. O fluxo total (soma de exportações e importações) chegou a US$ 171 bilhões, registrando aumento de 8,2% em relação ao ano anterior. O resultado reforça o papel da China como maior parceiro comercial do Brasil, posição ocupada desde 2009.
Para Galvão, a próxima etapa passa por transformar o país em uma base mais competitiva de produção e exportação. A avaliação é de que o Brasil precisa ir além do papel de fornecedor de matérias-primas e avançar na geração de valor industrial.
“O Brasil precisa se tornar uma plataforma de exportação de produtos manufaturados. E não apenas de commodities.”
O embaixador também defendeu que investimentos chineses no Brasil não devem se limitar ao consumo interno, mas apoiar estratégias voltadas à exportação e ao aumento da complexidade econômica.
Sustentabilidade e clima entram no centro da agenda econômica
Apesar dos desafios de diversificação, especialistas apontam que Brasil e China demonstram crescente alinhamento em uma agenda de comércio sustentável. A discussão inclui temas como rastreabilidade, uso eficiente de recursos, descarbonização e o impacto da transição energética sobre as cadeias de produção e transporte.
A ex-ministra do Meio Ambiente e conselheira do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, Izabella Teixeira, argumentou que a economia global depende diretamente da natureza e que a agenda climática precisa ser vista como estruturante, e não periférica.
“Todas as cadeias de valor dependem da natureza. É necessário acabar com a visão antiga, limitada à preservação, e começar a perceber a dependência que o mundo tem dos recursos naturais.”
Izabella também chamou atenção para a liderança chinesa em tecnologias ligadas à transição energética. Para ela, a China tem papel decisivo no avanço de setores como mobilidade elétrica e energias renováveis, e a tendência é de expansão da demanda por energia limpa em escala global.
Transição energética como fator de reconfiguração do comércio
Tecnologia como diferencial competitivo e geopolítico
Natureza e clima como elementos centrais nas cadeias de valor
Plano quinquenal chinês prioriza inovação, inteligência artificial e energias limpas
O debate também abordou o novo ciclo de planejamento econômico da China. Xu Tianqi, vice-diretor do departamento de estudos regionais do Instituto Chongyang e de estudos financeiros da Universidade Renmin, destacou que o 15º plano quinquenal, aprovado em março pela Assembleia Nacional Popular, estabelece diretrizes até 2030 com foco em autossuficiência tecnológica, inovação e investimentos robustos em energia limpa.
Entre as prioridades, estão iniciativas orientadas por inteligência artificial, transição energética e metas sociais, incluindo a redução das desigualdades. Tianqi afirmou ainda que o planejamento reforça uma visão de desenvolvimento que busca equilibrar dimensões materiais e valores sociais.
“Não queremos a cultura ruim do materialismo.”
Segundo ele, a necessidade de alinhamento da humanidade com a natureza é uma pauta relevante e, na avaliação apresentada no painel, contrasta com estratégias adotadas pelos Estados Unidos. Tianqi defendeu a busca por um cenário internacional mais estável e pacífico.
Cooperação pode avançar em novas áreas, incluindo saúde e ciência
Outro ponto destacado foi a ampliação do diálogo para setores além do agronegócio. Fang Li, representante-chefe do escritório de Pequim do World Resources Institute, avaliou que a realização da COP30 no Brasil em 2025 marcou uma etapa em que a questão climática passa a ocupar o centro das conversas sobre comércio bilateral.
Para ela, parcerias institucionais e trocas de conhecimento entre os dois países contribuem para acelerar soluções, ao mesmo tempo em que abrem espaço para novas frentes de cooperação. Entre os exemplos citados, está a possibilidade de avanço em áreas como medicina, sugerindo um movimento gradual de saída de um comércio concentrado em poucos itens.
“Começamos a sair do trading limitado à carne e à soja.”
O que esperar para 2026: mais integração e pressão por diversificação
A expectativa sinalizada por especialistas é de que 2026 seja marcado por maior integração Brasil-China, com pressão crescente por cadeias produtivas mais sustentáveis e por uma pauta comercial mais diversificada. Nesse contexto, setores associados à energia limpa, tecnologia, inovação e saúde ganham protagonismo, ao lado dos tradicionais embarques do agronegócio.
O desafio para o Brasil é transformar o aumento do volume comercial em oportunidade para elevar valor agregado, ampliar investimentos produtivos e reforçar competitividade em um cenário internacional em rápida mudança.




