
A inadimplência entre empresas brasileiras atingiu um novo recorde em abril de 2026, com 9 milhões de CNPJs negativados. Os dados, levantados pela Serasa Experian, indicam que o número de companhias que não conseguiram honrar compromissos em dia aumentou em 1,5 milhão na comparação com abril do ano anterior, quando havia 7,5 milhões de empresas inadimplentes.
O resultado representa o maior patamar da série histórica iniciada em janeiro de 2016 e reforça a avaliação de que o ambiente de negócios segue pressionado, mesmo com o início do ciclo de afrouxamento monetário. A expectativa, segundo a análise da Serasa Experian, é de que os números permaneçam elevados no curto prazo e possam registrar novos picos ao longo de 2026.
Para a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, a combinação de juros ainda altos e desaceleração da atividade econômica segue reduzindo a capacidade de recomposição de caixa das companhias, especialmente entre micro, pequenas e médias empresas.
“O ambiente de juros altos, aliado à desaceleração da atividade econômica, mesmo que mais moderada do que se esperava inicialmente, pressiona o faturamento das empresas e reduz a capacidade de recomposição de caixa.”
Mesmo após duas reduções consecutivas de 0,25 ponto, a taxa básica de juros permanece em 14,5% ao ano. Na prática, esse patamar encarece o crédito, limita o acesso a capital de giro e torna mais difícil o financiamento da operação diária — um fator que afeta diretamente a estabilidade financeira das empresas e, por consequência, o emprego e a renda.
Por que isso importa?
A inadimplência empresarial costuma ser um indicador sensível das condições econômicas. Quando empresas atrasam pagamentos, aumentam os riscos para cadeias de fornecimento, crédito e investimentos, com potencial de impactar produção, serviços e consumo.
Além do aumento no número de empresas negativadas, o total de dívidas em atraso também atingiu um novo pico: R$ 220,9 bilhões em abril. Em média, cada empresa inadimplente acumula 7,1 contas sem pagamento.
Dívida média por CNPJ: R$ 24.665,91
Ticket médio por conta: R$ 3.468,99
Média de contas negativadas por empresa: 7,1
O aperto financeiro não se restringe às pequenas empresas. Um levantamento de uma consultoria especializada em reestruturação de dívidas mostrou que, entre 282 empresas com ações listadas em bolsa, 24% já não conseguem gerar caixa suficiente para cobrir os juros da própria dívida.
Outros indicadores reforçam o estresse financeiro:
23% das empresas com alavancagem entre 3x e 6x (dívida líquida/EBITDA anual)
24% com alavancagem acima de 6x
Na divisão por setores, o segmento de serviços concentrou a maior fatia das empresas negativadas em abril de 2026, com 55,6%. Em seguida vieram comércio (32,4%), indústria (8,1%) e o setor primário (0,9%).
Setor Participação entre empresas inadimplentes Serviços 55,6% Comércio 32,4% Indústria 8,1% Setor primário 0,9%
Ao olhar a origem das dívidas, a maior participação ficou em serviços (31,7%), seguida por bancos e cartões (19,4%). Depois aparecem cooperativas (8,6%), utilities (7,0%) e telefonia (5,7%).
Na avaliação de Abdelmalack, a composição indica que parte relevante da inadimplência está ligada à sustentação do capital de giro e da própria operação. Em um cenário de crédito mais restrito, empresas recorrem a diferentes instrumentos de financiamento, mas enfrentam dificuldade para administrar o passivo quando pendências se acumulam — o que tende a prolongar o processo de regularização financeira.
Regionalmente, o Sudeste concentrou o maior volume de empresas inadimplentes em abril de 2026. O destaque ficou para São Paulo, seguido por Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na sequência, aparecem Paraná e Rio Grande do Sul.
Estado Empresas inadimplentes (abril/2026) São Paulo 3.076.064 Minas Gerais 881.652 Rio de Janeiro 864.722 Paraná 588.935 Rio Grande do Sul 518.195
A concentração acompanha o peso econômico e a maior densidade empresarial dessas regiões, que reúnem parte expressiva da atividade produtiva e do setor de serviços no país.
Entre as empresas inadimplentes, as micro e pequenas seguem como maioria e também bateram recorde: 8,5 milhões de CNPJs negativados em abril, o maior nível desde o início da série histórica. Esse grupo concentrou 57,6 milhões de dívidas, totalizando R$ 191,8 bilhões.
Média de contas negativadas: 6,8 por empresa
Dívida média: R$ 22.503,39
Ticket médio: R$ 3.328,73
A economista destaca que micro e pequenas empresas tendem a ser mais vulneráveis em um cenário de crédito seletivo e linhas de curto prazo mais caras. Com menor margem de negociação e maior dependência de capital de giro, esse grupo enfrenta obstáculos adicionais para estabilizar o fluxo de caixa, o que contribui para a permanência da inadimplência em níveis elevados.
O Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian contabiliza o número de empresas brasileiras que têm ao menos um compromisso financeiro vencido e cujo não pagamento foi formalmente comunicado pelo credor. A apuração considera as notificações registradas até o último dia do mês de referência.
Com o cenário de juros ainda altos e ritmo econômico mais fraco, especialistas avaliam que a inadimplência pode continuar pressionando empresas e cadeias produtivas, exigindo atenção redobrada à gestão financeira, renegociação de passivos e planejamento de caixa.
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