
Agro em Queda de 30% no Volume de Negócios
O agronegócio brasileiro inicia 2026 com cautela, pressionado por preços de grãos, juros altos e valorização do real, além de incertezas eleitorais. Grandes feiras não divulgaram previsões de faturamento pela primeira vez (Tecnoshow e Agrishow) e a Expodireto optou por não publicar dados desde 2025.
Feiras do agro começam 2026 com cautela e queda nos negócios; Tecnoshow recua cerca de 30%
Rio Verde (GO) — As principais feiras agrícolas do país iniciaram 2026 em ritmo mais moderado, refletindo um ambiente de incerteza econômica e política que tem levado produtores e empresas a adotarem cautela na hora de fechar compras e investimentos. O resultado aparece tanto na diminuição de anúncios oficiais de faturamento quanto na retração efetiva de negócios em eventos de grande porte, como a Tecnoshow, em Rio Verde (GO), que registrou queda em torno de 30% no volume de comercialização em relação a edições anteriores.
Entre os fatores que pressionam o setor estão a combinação de preços mais baixos de grãos (especialmente soja e milho), taxas de juros elevadas, valorização do real e maior dificuldade de acesso a crédito. Soma-se a isso um cenário de polarização eleitoral, que aumenta a percepção de risco e tende a adiar decisões de investimento no campo — movimento percebido desde o último quadrimestre do ano passado.
Silêncio sobre previsões e freio nas compras
Um sinal do novo clima nas feiras agrícolas foi a decisão de algumas organizações de não divulgarem projeções de faturamento antes da abertura dos eventos. As duas feiras com maiores faturamentos recentes no país — Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), e Tecnoshow, em Rio Verde (GO) — deixaram, pela primeira vez, de informar expectativas financeiras para 2026. A Expodireto, realizada em Não-Me-Toque (RS), também já vinha evitando divulgar números de negócios desde 2025.
Na avaliação de lideranças e executivos do setor, a cautela se conecta diretamente ao custo do dinheiro no Brasil. Com juros altos, o produtor tende a ser mais seletivo, priorizando o essencial e postergando a renovação de máquinas e equipamentos quando não há retorno claro no curto prazo.
“Não vamos incentivar ninguém também a sair comprando coisa que não é do dia a dia.”
Dourivan Cruvinel de Souza, presidente-executivo da cooperativa organizadora da Tecnoshow
Indústria de máquinas prevê retração e aponta queda recente no faturamento
O esfriamento nos investimentos em máquinas e implementos aparece também nas estimativas de entidades setoriais. A Abimaq projeta que o faturamento do setor em 2026 possa ter redução de 8% em comparação ao ano anterior, com viés de baixa. Segundo a entidade, nos últimos seis meses o faturamento recuou 7% ante o mesmo período do ano anterior, e apenas em janeiro houve queda de 15,6%.
Além do contexto macroeconômico, o setor relata inadimplência e dificuldade de obter crédito, fatores que impactam diretamente a decisão de compra em feiras, tradicionalmente vistas como vitrine de lançamentos e ambiente de fechamento rápido de pedidos.
Tecnoshow: menos visitantes e queda no volume de comercialização
Realizada na última semana em Rio Verde, a Tecnoshow começou sem cerimônia oficial de abertura e sem previsão financeira divulgada. Ao final do evento, a organização informou que a retração no volume de negócios ficou em torno de 30% em comparação com as edições anteriores. No ano passado, a feira havia alcançado cerca de 10 bilhões em intenções de negócios.
O público também encolheu: o evento reuniu 120 mil pessoas, cerca de 20 mil a menos do que no ano anterior, mantendo ainda assim grande relevância para o Centro-Oeste. Segundo a organização, participaram 700 expositores, incluindo um bloco de marcas do setor automotivo e a presença crescente de soluções ligadas a veículos elétricos.
“O ano está sendo desafiador, com cenário de incertezas e custos elevados.”
Antônio Chavaglia, presidente do conselho de administração da cooperativa organizadora
Apesar do resultado mais fraco no fechamento de negócios, a mensagem institucional foi de que o produtor segue buscando informação e soluções para decisões mais seguras, especialmente diante de custos financeiros mais elevados.
Agrishow e Expodireto seguem tendência de evitar projeções
Na Agrishow, prevista para ocorrer entre o fim de abril e o início de maio em Ribeirão Preto, a organização apresentou novidades, mas optou por não antecipar estimativas de negócios. Em 2025, a feira havia registrado resultado recorde, o que reforça a expectativa de que os números deste ano dependam do comportamento do mercado ao longo dos dias do evento.
A Expodireto, por sua vez, já havia deixado de divulgar dados de negócios anteriormente, em uma estratégia para evitar disputa de números entre eventos agrícolas. O movimento reforça uma mudança de postura: em vez de priorizar recordes, as feiras tendem a enfatizar conteúdo técnico, lançamentos e relacionamento, em um cenário de decisões mais lentas.
Show Rural Coopavel contraria tendência e anuncia recorde
Entre as grandes feiras, a que divulgou balanço foi a Show Rural Coopavel, em Cascavel (PR), que anunciou 7,5 bilhões em intenções de negócios, recorde histórico do evento. Ainda assim, dados setoriais indicaram que, para parte das empresas de máquinas que responderam a pesquisas, as intenções de compras na feira apresentaram queda.
Mesmo com freio, feiras exibem inovação: biotecnologia e manejo de pragas
O ambiente de cautela não eliminou a presença de novidades tecnológicas. Empresas de biotecnologia e defensivos apresentaram soluções voltadas a desafios recorrentes no campo. Entre os temas que ganharam destaque estão o manejo de ferrugem asiática na soja e estratégias mais seletivas para o controle de lagarta-do-cartucho, uma das pragas de maior impacto em sistemas produtivos.
Controle de doenças: soluções voltadas à ferrugem asiática, considerada uma das piores ameaças à soja.
Manejo de pragas: tecnologias que atuam na interrupção do ciclo reprodutivo de pragas e buscam preservar inimigos naturais.
Eficiência e sustentabilidade: maior atenção a soluções que equilibram produtividade e impacto ambiental.
Logística também entra no radar: ferrovia e diversificação de cargas
A feira também atraiu negócios fora do eixo tradicional de máquinas e insumos. A logística ferroviária, por exemplo, foi apresentada como alternativa para ampliar competitividade no escoamento de grãos e no transporte de insumos. No Centro-Oeste, o foco está na diversificação de cargas, com movimentação não apenas de grãos, mas também de fertilizantes, combustíveis e outros produtos.
O terminal ferroviário de Rio Verde, associado à dinâmica regional de produção, tem capacidade para movimentar até 11 milhões de toneladas por ano, evidenciando a importância da infraestrutura para reduzir custos e melhorar a previsibilidade em cadeias que dependem de grandes volumes.
Resumo do cenário: o que está pesando nas decisões em 2026
Fator Efeito no agro e nas feiras Juros altos Crédito mais caro, decisões de compra adiadas e maior seletividade em investimentos. Valorização do real Pressão sobre margens e ajustes na competitividade, com impacto no planejamento financeiro. Preços de soja e milho Receita potencial menor, o que reduz apetite para compra de máquinas e tecnologias de maior valor. Inadimplência e crédito restrito Acesso mais difícil a financiamento e maior prudência de fabricantes e instituições. Incerteza política Produtores e empresas tendem a postergar decisões até haver maior previsibilidade.
Perspectiva: o início de 2026 reforça que as feiras agrícolas seguem centrais para difusão de tecnologia e geração de oportunidades, mas com um novo comportamento: menos euforia, mais análise. Em um cenário de crédito caro e margens apertadas, a tendência é que o produtor rural avance com investimentos prioritários, enquanto empresas ajustam estratégias para sustentar demanda e oferecer soluções com retorno mais evidente.
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