
Mesmo com sinais de que a oferta global de grãos poderia aliviar cotações, a escalada de tensões no cenário internacional alterou o humor dos mercados e puxou para cima os preços de importantes commodities agrícolas. O resultado foi uma sequência de altas em bolsas de referência, com reflexos diretos sobre custos de alimentos, logística e combustíveis — fatores que influenciam a inflação e, por consequência, o orçamento das famílias.
De acordo com a analista sênior de grãos do Rabobank, Marcela Marini, a leitura tradicional de oferta e demanda indicava espaço para recuo nos preços, especialmente no caso da soja. Porém, a instabilidade geopolítica foi tão intensa que o desempenho seguiu na direção contrária. Na avaliação dela, sem esse fator, a oleaginosa poderia estar mais barata, respondendo ao quadro de produção elevada. O Brasil, por exemplo, registra safra recorde, mas a demanda chinesa não cresce no mesmo ritmo da oferta.
O principal destaque de valorização na bolsa de Chicago foi o trigo, que encerrou o período com alta de 8,5%, com média de US$ 6,0275 por bushel. Segundo o analista Élcio Bento, da Safras & Mercado, um dos motores do avanço foi a expectativa de redução da área plantada nos Estados Unidos, elemento que tende a restringir a oferta futura e sustentar preços.
A projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aponta que os produtores norte-americanos devem semear 17,6 milhões de hectares de trigo na safra 2026/27. Se confirmada, será a menor área desde 1919. Na temporada anterior, a área havia sido de 18,33 milhões de hectares.
Além do fator agrícola, o conflito no Oriente Médio também influenciou o trigo ao elevar o risco logístico em rotas estratégicas do comércio internacional. Bento observou que o mercado reagiu com mais intensidade após o grupo armado Houthis, do Iêmen, sinalizar que pode entrar no confronto em apoio ao Irã e ameaçar a circulação de mercadorias pelo Canal de Suez.
“Isso eleva o custo logístico do trigo que vem da Europa, Rússia e Ucrânia. Por outro lado, favorece grandes produtores que usam rotas diferentes, como Argentina e Austrália, além dos Estados Unidos, que podem ver aumento da demanda e preços mais firmes.”
— Élcio Bento, Safras & Mercado
Menor área plantada prevista nos EUA para 2026/27
Risco logístico associado ao Canal de Suez
Potencial redirecionamento de demanda para fornecedores com rotas alternativas
O milho também registrou desempenho positivo em Chicago. Os contratos futuros subiram 5,7%, com média de US$ 4,6435 por bushel. A analista Marcela Marini atribuiu o movimento à demanda firme pelo milho dos Estados Unidos, com embarques recordes e aumento do consumo para produção de biocombustíveis.
Esse conjunto de fatores reforça a sensibilidade do mercado de grãos a choques externos: mesmo quando a oferta agrícola dá sinais de melhora, a combinação de exportações aquecidas e mudanças na política energética pode pressionar preços — o que tende a afetar custos ao longo da cadeia alimentar, incluindo ração animal, carnes e derivados.
Na bolsa de Nova York, a forte valorização do petróleo teve efeito direto sobre o açúcar, que subiu 8,1%, para 14,93 centavos de dólar por libra-peso. O encarecimento do petróleo tende a aumentar a competitividade do etanol em relação à gasolina no Brasil, o que pode levar as usinas a direcionarem maior volume de cana para o biocombustível. Com isso, o mercado passa a precificar uma possível redução na oferta de açúcar do país, maior produtor e exportador global.
Para Marcelo Filho, analista de inteligência de mercado da StoneX, a permanência do petróleo em um patamar elevado e a falta de sinais claros de cessar-fogo ampliam a percepção de que a gasolina pode ficar mais cara, favorecendo o etanol e influenciando as decisões industriais.
“A consolidação do petróleo acima dos US$ 100 e os poucos sinais de que teremos cessar-fogo geram uma consciência cada vez maior no mercado de que a gasolina ficará mais cara. Enquanto isso, o etanol se consolida com um mix de produção cada vez mais favorável em relação ao açúcar.”
— Marcelo Filho, StoneX
Petróleo mais caro pressiona preços de combustíveis
Etanol ganha competitividade no Brasil
Usinas ajustam o mix para produzir mais biocombustível
Menor oferta de açúcar pode elevar cotações internacionais
O algodão também avançou na esteira do petróleo. Os contratos da pluma acumularam alta de 6%, com média de 68,29 centavos de dólar por libra-peso. A lógica é que, quando o petróleo sobe, os custos de produção de tecidos sintéticos tendem a aumentar, abrindo espaço para maior demanda por fibras naturais, como o algodão.
Esse movimento reforça a interconexão entre energia e produtos agrícolas: oscilações no mercado de petróleo podem alterar preços relativos na indústria têxtil e influenciar expectativas de consumo e demanda global.
Ainda em Nova York, os preços do suco de laranja concentrado e congelado avançaram 3,4%, com média de US$ 1,8243 por libra-peso. Já o café arábica encerrou o período com alta de 1,2%, cotado em US$ 2,9419 por libra-peso.
Produto Bolsa Variação Preço médio Trigo Chicago +8,5% US$ 6,0275/bushel Milho Chicago +5,7% US$ 4,6435/bushel Açúcar Nova York +8,1% 14,93 c/lb-peso Algodão Nova York +6% 68,29 c/lb-peso Suco de laranja (FCOJ) Nova York +3,4% US$ 1,8243/lb-peso Café arábica Nova York +1,2% US$ 2,9419/lb-peso
O comportamento recente reforça que a formação de preços de commodities não depende apenas de colheitas e estoques. Riscos geopolíticos, custos logísticos e movimentos no petróleo podem se sobrepor aos fundamentos agrícolas e redefinir expectativas em poucas semanas. Para consumidores, empresas e gestores públicos, o cenário sugere atenção redobrada a fatores externos que impactam alimentos, energia e cadeias de abastecimento.
Destaque: Mesmo com a safra recorde no Brasil e sinais de oferta favorável, a instabilidade geopolítica sustentou altas e aumentou a volatilidade, com impactos em trigo, milho, açúcar e algodão.

O governo do Paraguai decidiu tornar obrigatória a incorporação de etanol com 50% de origem na cana-de-açúcar na gasolina, posição que posiciona o país como nova fronteira de expansão da cana na América do Sul. A regra atual vinha com 30% de etanol, produzido principalmente a partir da cana, que passou a ter prioridade na matriz energética, diminuindo o papel relativo do milho.

O texto aborda a escalada do uso de biomassa para atender usinas térmicas ligadas às agroindústrias, impulsionada pelos investimentos em usinas de etanol de milho em Mato Grosso. A demanda aquém da oferta de biomassa já levou ao uso até de florestas nativas, mas há um movimento público-privado para restringir isso: o Ministério Público de Mato Grosso conseguiu que o governo estadual se comprometa a proibir o uso de floresta nativa para energia até 2035, o que deve acelerar o plantio de eucaliptos, que demoram seis a sete anos para maturar.

Preço e vantagem: o etanol hidratado permanece economicamente mais vantajoso que a gasolina em boa parte do país, com média de preço de 63,7% da gasolina (60,7% em São Paulo) na última semana de maio; para boa parte da frota flex, o rendimento fica em torno de 70% da gasolina (chegando a 75% em modelos mais recentes).

A empresa processou 17,9 milhões de toneladas de cana na safra, 12% abaixo da anterior, e concentrou a produção de açúcar para mitigar o menor esmagamento, com preços fixados próximo de 18 centavos de dólar por libra-peso. Como resultado, o lucro líquido caiu 62%, para 137 milhões de reais, a receita líquida recuou 16%, para 5,7 bilhões, e o EBITDA caiu 29%, para 1,3 bilhão; ainda assim, o desempenho figura entre os três melhores da história da companhia. Em contraste, a Tereos global encerrou a safra com prejuízo de 590 milhões (unit europeia mais afetada). A venda da Usina Andrade à Viralcool ajudou o resultado brasileiro, já que a unidade tem foco em etanol, enquanto o grupo é mais voltado ao açúcar e está em uma região com forte competição por cana. O executivo Santoul aponta a....

A Organização Marítima Internacional (OMI) estabeleceu o padrão de pegada de carbono para o etanol de milho brasileiro em 20,8 g CO2e por MJ, aplicado ao biocombustível produzido na segunda safra. Esse valor contrasta com a intensidade média atual do transporte marítimo, de 93,3 g CO2e por MJ, sinalizando um marco importante enquanto a OMI elabora regulamentações para combustíveis de baixo carbono. Executivos da indústria afirmam que o marco posiciona o etanol de milho brasileiro e sul-americano como combustível viável para a descarbonização do setor de navegação. A produção de etanol de milho no Brasil cresceu de cerca de....