Erosão extensa, compactação e baixa cobertura vegetal são os principais problemas encontrados em lavouras de agricultores familiares no Rio Grande do Sul acompanhados pela Operação Terra Forte, programa estadual executado em campo por técnicos da Emater/RS-Ascar. A iniciativa, conduzida pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Rural, tem como meta recuperar áreas produtivas por meio de práticas sustentáveis, com foco em saúde do solo, adaptação climática e resiliência das lavouras.
O objetivo é recuperar solos por meio de práticas sustentáveis, com incentivo individual de até R$ 30 mil por produtor (R$ 300 milhões no total). As avaliações, em três camadas (0-10 cm, 10-20 cm e 20-40 cm), revelaram erosão em cerca de 80% das áreas, além de acidez e baixa cobertura superficial. A etapa inicial foca em diagnósticos e na elaboração de planos customizados, com calagem onde necessário, planos de cobertura, terraceamento e outras ações previstas nas linhas tecnológicas (plantio direto, recuperação de pastagens, sistemas irrigados, agroflorestas, entre outros). Ao longo de dois anos, as propriedades serão acompanhadas para cumprir os planos com qualidade técnica.
Na seção Bioinsumos, a CropLife Brasil indica que o uso de bioinsumos na agricultura brasileira alcançou 194 milhões de hectares no ano anterior, com 28% de crescimento, mas o Rio Grande do Sul usa apenas 4% de suas lavouras. O texto destaca microrganismos como Bradyrhizobium, Azospirillum, Bacillus e Trichoderma, que promovem fixação de nitrogênio, solubilização de fósforo, melhoria do sistema radicular e resistência à seca, entre outros benefícios. O Plano ABC+ RS visa aumentar o uso de bioinsumos em 1 milhão de hectares até 2030, reduzindo dependência de fertilizantes químicos e impactos ambientais. Contudo, a adoção ainda é baixa no RS, devido a necessidade de orientação técnica adequada para o manejo desses produtos. etapa, quase 5 mil propriedades já receberam visitas técnicas e diagnóstico detalhado. Ao final do programa, a expectativa é beneficiar 15 mil agricultores, com incentivo individual de até R$ 30 mil para implantação de ações de recuperação, totalizando R$ 300 milhões em investimentos públicos. Após a fase atual, o projeto prevê mais duas etapas para atender os demais produtores.
Segundo o extensionista Ronaldo Carbonari, da Emater/RS-Ascar, o Terra Forte foi desenhado para lidar com a complexidade real do campo, priorizando um planejamento personalizado. O trabalho começa pela identificação e avaliação de cada gleba dentro da propriedade. Em vez de uma única coleta, são realizadas amostragens em três camadas de solo, permitindo enxergar limitações até 40 centímetros de profundidade, além de registrar sinais de erosão e compactação.
A proposta é que a recuperação seja feita com precisão: onde há necessidade de calagem, ela é recomendada; onde a erosão é crítica, entram estratégias como cobertura do solo e terraceamento. A expectativa é que as melhorias implantadas pelos participantes também sirvam como referência para propriedades vizinhas, ampliando os efeitos do programa no território.
Os diagnósticos iniciais confirmaram um quadro preocupante: a erosão esteve ausente em apenas 20% a 22% das superfícies analisadas. Em outras palavras, aproximadamente quatro em cada cinco áreas apresentam algum grau do problema. Para Carbonari, os números reforçam o que já vinha sendo apontado por pesquisas acadêmicas, mas agora com comprovação direta em milhares de lavouras.
O impacto da erosão vai além da perda de solo: ela reduz a capacidade de infiltração de água, acelera o empobrecimento da camada superficial e compromete a produtividade ao longo do tempo. Em um contexto de estiagens sucessivas no Estado, recuperar o solo é visto como um passo essencial para sustentar a produção.
Outro ponto crítico é a acidez do solo, associada à presença de alumínio tóxico para as plantas. O programa busca “construir o perfil do solo” para permitir que as raízes avancem com mais facilidade em profundidade, aumentando a capacidade das culturas de acessar água em períodos de déficit hídrico.
As análises em camadas indicaram restrições relevantes à penetração das raízes:
Camada avaliada Principais resultados 0 a 10 cm Apenas 17% das amostras sem restrição; mais de 80% com problemas de acidez 10 a 20 cm 74% das amostras com restrições 20 a 40 cm 40% das amostras com problemas de acidez
Para os técnicos, o cenário reforça que a correção da acidez segue sendo um desafio estrutural no Rio Grande do Sul. A calagem — aplicação de calcário para reduzir a acidez e diminuir a toxicidade do alumínio — é uma das medidas centrais por favorecer a absorção de nutrientes e a formação de um ambiente mais equilibrado para o desenvolvimento das plantas.
A falta de proteção da superfície também apareceu como gargalo importante. Em cerca de 30% das lavouras avaliadas, a cobertura do solo ficou abaixo de 30%, deixando a terra exposta tanto à força das chuvas quanto à perda rápida de umidade em períodos secos.
A situação considerada ideal — mais de 90% do solo coberto por palha — foi observada em apenas 9% das áreas. Para os especialistas, ampliar a cobertura é decisivo para reduzir erosão, melhorar a infiltração, diminuir a evaporação e criar condições mais estáveis de temperatura e umidade.
Resumo do diagnóstico: erosão e baixa cobertura são comuns, enquanto a acidez afeta camadas profundas e limita a raiz — combinação que reduz a produtividade e piora a resposta das culturas à estiagem.
Com os diagnósticos em andamento, a etapa seguinte será a elaboração de planos customizados para enfrentar os problemas identificados em cada área. A implantação das soluções deve ocorrer ao longo dos próximos dois anos, com acompanhamento para assegurar o cumprimento e a qualidade técnica das práticas adotadas.
Entre as estratégias previstas, estão as chamadas linhas tecnológicas, que incluem:
Sistemas de plantio direto com foco em palhada e conservação
Recuperação e renovação de pastagens
Sistemas irrigados quando aplicável
Sistemas integrados de produção
Florestas plantadas e práticas associadas
Parte dessas ações dialoga com metas do Plano ABC+, política nacional voltada à agropecuária de baixa emissão e ao aumento da sustentabilidade produtiva, incluindo práticas de conservação e uso de tecnologias que fortaleçam a adaptação às mudanças climáticas.
Paralelamente ao esforço de recuperação física e química do solo, especialistas apontam que o uso de bioinsumos pode acelerar melhorias e reduzir custos em sistemas bem manejados. Um levantamento da CropLife Brasil registrou aplicação de produtos biológicos em 194 milhões de hectares no país, com avanço de 28% em relação a 2024 e movimentação de R$ 6,2 bilhões.
A distribuição apontada pelo estudo foi:
Inoculantes (40%)
Bioinseticidas (24%)
Bionematicidas (23%)
Biofungicidas (13%)
Apesar do avanço nacional, o Rio Grande do Sul aparece com uso em apenas 4% das lavouras, abaixo de estados como Mato Grosso, São Paulo, Goiás e Minas Gerais. Para técnicos e pesquisadores, isso representa um contrassenso, já que bioinsumos podem contribuir para a saúde do solo, a tolerância ao estresse hídrico e o aproveitamento de nutrientes.
O engenheiro-agrônomo Marcelo Biassusi, da Emater/RS-Ascar, lembra que bioinsumos estão ligados ao próprio surgimento da agricultura e que, na natureza, microrganismos atuam em comunidade, não de forma isolada. Na região das raízes, há intensa troca: a planta libera compostos que alimentam microrganismos, e eles ajudam a disponibilizar minerais essenciais, como fosfatos, além de influenciar a estrutura do solo.
Alguns fungos, por exemplo, produzem substâncias que favorecem a agregação das partículas, melhorando permeabilidade e infiltração de água. Em conjunto com a matéria orgânica, esses processos funcionam como um “tampão” contra variações bruscas de temperatura e pH, além de auxiliar a planta a enfrentar condições adversas.
Solubilização e disponibilização de nutrientes no entorno da raiz
Estímulo ao crescimento radicular, ampliando acesso a água
Melhor estrutura do solo, com agregação e maior infiltração
Proteção e indução de defesa contra doenças e estresses
Potencial redução de adubação e de custos em algumas situações
Especialistas alertam, porém, que o efeito depende de manejo adequado: por se tratar de material biológico, há cuidados de aplicação e necessidade de ambiente favorável, como menor incidência direta de sol no solo e presença de matéria orgânica e palhada — pontos alinhados ao plantio direto e ao aumento de cobertura.
No âmbito do Plano ABC+ no Estado, o engenheiro florestal Jackson Brilhante, da Seapi, afirma que a meta é ampliar o uso de bioinsumos em 1 milhão de hectares até 2030, com destaque para promotores de crescimento e microrganismos associados à fixação biológica de nitrogênio. Segundo ele, ao reduzir a necessidade de fertilizantes, a tecnologia pode trazer economia e contribuir para menor emissão de gases de efeito estufa, além de aumentar a resistência das lavouras em períodos de estiagem.
Ainda assim, a adoção no RS segue aquém do esperado. Entre os fatores, estão dúvidas sobre resultados e falhas de orientação técnica sobre o momento e a forma correta de aplicação — um ponto que reforça a importância de assistência contínua no campo.
Pesquisas acadêmicas também reforçam o impacto direto de determinados microrganismos no desempenho das lavouras. O professor Thomas Martin, da UFSM, destaca o papel do Bradyrhizobium na fixação biológica do nitrogênio na soja, reduzindo a necessidade de fertilizantes nitrogenados. Ele aponta que, na safra nacional, 85% da área recebeu esse microrganismo, enquanto no RS o índice ficou em 61%, influenciado por uma crença equivocada de que inoculações passadas seriam suficientes.
Martin também cita ganhos associados a microrganismos promotores de crescimento e tolerância ao estresse hídrico, como Azospirillum brasilense e Bacillus aryabhattai, além de outras espécies com funções múltiplas, incluindo proteção de raízes e contribuição no aproveitamento de fósforo.
Ao consolidar diagnósticos detalhados e orientar intervenções de forma customizada, o Terra Forte busca transformar a recuperação do solo em uma estratégia de longo prazo para a agricultura familiar gaúcha. A combinação entre correção química, manejo físico (como redução de compactação e controle de erosão) e proteção permanente do solo tende a elevar a capacidade de retenção e infiltração de água, melhorar o desenvolvimento radicular e reduzir perdas em eventos climáticos extremos.
Para os executores do programa, a mensagem central é clara: investir em saúde do solo deixou de ser apenas uma recomendação técnica e passou a ser uma condição para manter produtividade, reduzir riscos e ampliar a resiliência das lavouras frente às novas pressões climáticas.
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