
A construção de Brasília, idealizada por Juscelino Kubitschek, marcou não apenas a interiorização política do país, mas também o início de um novo ciclo migratório que impactaria diretamente o campo. A necessidade de abastecer a nova capital abriu espaço para a chegada de produtores rurais, muitos deles vindos do Sul do Brasil, com experiência em organização agrícola e produção de alimentos.
Entre esses pioneiros está o produtor Valdemar Valentim Sense, natural de Putinga (RS), que chegou ao Distrito Federal em 1977, ainda jovem, acompanhando um movimento incentivado pelo próprio governo local.
“O secretário de Agricultura da época queria desenvolver a região para produção de grãos e convidou produtores do Sul. Meu pai fazia parte de uma cooperativa em Encantado, e foi assim que começamos essa história”, relembra.
A chegada não foi imediata nem simples. A família veio aos poucos, em um processo típico de migração rural. “Um dos meus irmãos veio primeiro, depois outro, e eu cheguei em 1984, depois de me formar em agronomia. Quando chegamos aqui, praticamente não tinha nada. Era tudo cerrado.”
O projeto que trouxe esses produtores fazia parte do Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF), iniciativa que buscava estruturar uma base agrícola capaz de sustentar a nova capital.
Na prática, isso significou começar do zero.
“Não tinha asfalto, não tinha energia elétrica, era tudo estrada de chão. A gente teve que desbravar o cerrado”, conta Valdemar. As dificuldades eram parte do cotidiano: distância entre propriedades, falta de insumos e ausência de infraestrutura básica.
Apesar disso, o apoio institucional foi determinante. “Teve muita ajuda da Secretaria da Agricultura, da Embrapa, da Emater. Foi uma reforma agrária que deu certo”, afirma.
A presença de produtores gaúchos foi decisiva nesse processo. Segundo ele, foram eles que deram o pontapé inicial na agricultura da região. “Nós, do Rio Grande do Sul, fomos pioneiros. A partir daqui, o gaúcho foi subindo: foi para o norte de Goiás, depois Bahia, Tocantins, Maranhão.”
Ainda nos primeiros anos, a organização coletiva se mostrou essencial. Em 1978, foi fundada a cooperativa que daria suporte aos produtores locais, fortalecendo a produção e criando uma base sólida para o crescimento.
Ao longo das décadas, o entorno do Distrito Federal se transformou em uma das regiões mais produtivas do país, com destaque para culturas como soja, milho, feijão e trigo irrigado, além de hortifrúti.
Hoje, segundo Valdemar, a agricultura local é altamente tecnificada e reconhecida nacionalmente. “O DF e entorno são conhecidos pelas altas produtividades. Aqui dá para plantar praticamente tudo, desde que tenha água.”
Ainda assim, desafios persistem. Um dos principais é a questão fundiária. “Cerca de 80% das áreas pertencem ao governo. A gente não tem escritura, trabalha com contrato. Isso gera uma insegurança grande para o futuro.”
Se Brasília representa o início da ocupação agrícola no Centro-Oeste, o Tocantins simboliza uma fase mais recente, e igualmente desafiadora, da expansão.
Criado em 1988, o estado foi por muito tempo visto como uma região de difícil aproveitamento agrícola. A mudança veio com tecnologia, infraestrutura e, novamente, com a chegada de produtores experientes.
A história de Clair Antonio Socbzak, o Fifo, ajuda a entender essa nova fase. Natural de Erechim (RS), ele construiu uma carreira que percorre diferentes fronteiras agrícolas do país até chegar ao Tocantins, em 2002.
Com décadas de atuação no setor, incluindo passagem por concessionárias ligadas à New Holland, ele acompanhou de perto a transformação do Cerrado.
Ao chegar ao estado, encontrou um cenário ainda instável. “Teve um período, ali por 2004, 2005, que teve uma quebradeira. Muita gente que veio acabou não se dando bem”, relembra.
A principal dificuldade, segundo ele, era estrutural. “Faltava armazenagem, faltava estrutura.”
Com o passar dos anos, o cenário mudou. A melhoria da logística e o avanço tecnológico transformaram o Tocantins em uma nova fronteira promissora.
“O valor da terra ainda é mais barato e hoje tem facilidade de escoamento. A ferrovia ajudou muito”, explica.
Esse novo contexto tem atraído produtores de diversas regiões, inclusive de estados já consolidados. “Tem muita gente migrando do Mato Grosso para o Tocantins.”
A tecnologia também redefiniu o perfil da produção. “Hoje os produtores trabalham com alto nível tecnológico. Está chegando uma geração mais nova, e aí a tecnologia impera.”
Atualmente, o Tocantins se destaca pela diversidade produtiva. “Aqui se produz de tudo: arroz, frutas, melancia, abacaxi”, afirma Fifo, destacando regiões como Lagoa da Confusão e Formoso do Araguaia.
O estado, que antes era visto como desafio, hoje se consolida como uma das áreas mais promissoras do agronegócio brasileiro.
A ligação entre Brasília e Tocantins revela um padrão claro: o avanço do agro brasileiro é resultado de um movimento contínuo de migração, adaptação e investimento.
Se no Distrito Federal os gaúchos ajudaram a construir a base agrícola que sustentou a capital, no Tocantins participaram da abertura de uma nova fronteira produtiva, ampliando ainda mais o mapa do agronegócio nacional.
As histórias de Valdemar Sense e Clair Socbzak mostram que, mais do que deslocamento geográfico, esse processo é marcado por visão de futuro, capacidade de adaptação e construção coletiva.
É esse espírito que define, até hoje, os verdadeiros bandeirantes do agro brasileiro.

A live de lançamento do estudo “Agricultura Irrigada no Brasil: Impactos e Perspectivas Estratégicas”, organizada pelo STAC/USP e pela ABIMAQ, discutiu o papel da irrigação no fortalecimento do agronegócio brasileiro. Com participação de Joaquim Bento, Giovani Wiliam Gianeti e Cristiano Del Nero, o evento abordou contribuições socioeconômicas, desafios de infraestrutura, gestão da água e o potencial de expansão da atividade. Entre os dados apresentados, um estudo da USP de 2019 estimou uma área adicional irrigável de 55,8 milhões de hectares no país, considerando águas superficiais e subterrâneas.
O programa Terra Forte, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Rural e executado pela Emater/RS-Ascar, avalia solos de quase 5 mil agricultores familiares com previsão de alcançar 15 mil beneficiados na primeira etapa e mais dois próximos lotes para os outros 10 mil.

A cadeia produtiva do arroz no Brasil enfrenta um momento desafiador, marcado por queda no consumo, excesso de oferta e aumento dos custos de produção, o que tem reduzido a rentabilidade de produtores e indústrias. Além dos fatores econômicos, mudanças nos hábitos alimentares, especialmente entre os jovens, têm diminuído o consumo tradicional do grão. Diante desse cenário, o setor busca soluções como diversificação de produtos, campanhas de incentivo ao consumo e maior planejamento entre produção, mercado interno e exportações para recuperar competitividade e garantir sustentabilidade no longo prazo.

A reportagem faz parte da série mensal Os Bandeirantes do Agro Brasileiro, que revela as histórias de famílias e produtores que abriram fronteiras e moldaram o agronegócio no país. Nesta edição, o foco está em Santa Catarina e Paraná, os primeiros destinos da migração sulista que redefiniu o mapa agrícola brasileiro.

A agricultura brasileira entra em 2026 em posição estratégica no mercado global, mantendo forte demanda por grãos como soja e milho. No entanto, o setor enfrenta desafios crescentes, como a irregularidade climática, a volatilidade do mercado internacional e novas exigências ambientais para acesso a mercados. Nesse cenário, tecnologia, gestão eficiente da água e práticas sustentáveis tornam-se fundamentais para manter a produtividade e a competitividade do agro brasileiro.