
Durante décadas, o arroz ocupou lugar central na alimentação do brasileiro. Presente diariamente nas refeições e tradicionalmente acompanhado do feijão, o grão sempre foi símbolo de segurança alimentar e base da dieta nacional. No entanto, mudanças nos hábitos de consumo, a pressão sobre os preços e o desequilíbrio entre produção e demanda têm imposto novos desafios à cadeia produtiva, especialmente nos principais polos arrozeiros do país: Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Nos últimos anos, o setor tem enfrentado um cenário marcado pela queda na rentabilidade, excesso de oferta e retração no consumo interno. O resultado é um ambiente de incerteza que afeta desde os produtores rurais até as indústrias de beneficiamento.
Segundo Walmir Rampinelli, presidente do Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina (SindArroz-SC), o momento é particularmente delicado para toda a cadeia produtiva.
“A cadeia produtiva do arroz de Santa Catarina vem passando por momentos desafiadores desde 2025. O custo de produção atualmente está mais alto que o valor de venda da saca de arroz. O produtor sente as dificuldades e o faturamento das indústrias também está bastante reduzido”, afirma.

De acordo com Rampinelli, os impactos vão além das propriedades rurais e das indústrias. Municípios que dependem da atividade também sofrem com a desaceleração econômica.
“Tanto a cadeia produtiva quanto os municípios produtores estão sentindo a redução na circulação de capital”, destaca
Além das dificuldades econômicas, a cadeia do arroz enfrenta um fenômeno mais profundo: a transformação dos hábitos alimentares da população brasileira.
O consumo tradicional do arroz nas refeições domésticas tem sido gradualmente substituído por alimentos prontos, refeições rápidas e serviços de delivery, tendência especialmente forte entre os mais jovens.
Para Rampinelli, esse comportamento ajuda a explicar a perda de protagonismo do grão na alimentação cotidiana.
“Os jovens estão apresentando mudanças de hábito. As entregas de lanches prontos via delivery têm ganhado mais espaço e acabam substituindo alimentos que precisam de preparo, como o arroz e o feijão”, explica.
Segundo ele, essa mudança está ligada também a transformações na dinâmica familiar.
“As famílias deixaram de ter o ‘tempo de mesa’, aquele momento de reunir-se para consumir alimentos preparados em casa. Muitas vezes opta-se por produtos prontos, que nem sempre são tão saudáveis quanto a alimentação tradicional”, observa.
Ao mesmo tempo em que o consumo interno apresenta sinais de retração, a produção segue elevada. Esse desequilíbrio entre oferta e demanda tem pressionado os preços pagos ao produtor.
“Hoje há excesso de oferta no mercado interno, e isso naturalmente pressiona os preços”, afirma Rampinelli.
Esse cenário dificulta o escoamento da produção e gera acúmulo de estoque.
“As indústrias estão vendendo menos e os produtores acabam tendo dificuldade para dar vazão ao produto. O arroz fica represado por conta da crise”, explica.
Para o dirigente, o setor precisa buscar um equilíbrio entre produção, consumo interno e exportações.
“O ideal seria equilibrar produção e consumo, mantendo também uma margem de segurança alimentar e capacidade de exportação. Com esse equilíbrio, os impactos seriam menores.”
A queda na rentabilidade também afeta diretamente os investimentos na cadeia produtiva. Nos últimos anos, produtores e indústrias vinham ampliando investimentos em tecnologia e modernização, movimento que agora foi interrompido.
“As indústrias estavam investindo em novas máquinas e tecnologias de beneficiamento. Os produtores também vinham adquirindo tratores, drones e colheitadeiras. Mas, com a crise, esses investimentos praticamente pararam”, afirma Rampinelli.
Segundo ele, o setor vivia um ciclo de modernização que acabou sendo interrompido.
“Nós estávamos em uma onda crescente de aperfeiçoamento, buscando maior produtividade e melhor qualidade do produto. Infelizmente, a crise nos obrigou a estancar esse movimento.”
Para o presidente do SindArroz-SC, os desafios atuais têm origem tanto em fatores conjunturais quanto estruturais.
“A crise é conjuntural, mas também revela um problema estrutural na rizicultura. O mundo inteiro plantou e colheu mais arroz, mas faltou planejamento”, afirma.
Rampinelli defende uma atuação mais coordenada entre entidades do setor e o poder público para equilibrar produção e mercado.
“Precisamos de um planejamento de longo prazo que envolva o governo federal, entidades representativas e a CONAB. O objetivo deve ser equilibrar produção, consumo interno e exportações. Com isso, teríamos maior estabilidade de preços e previsibilidade para o setor.”
Diante da mudança nos hábitos alimentares, a indústria tem buscado novas estratégias para valorizar o produto e estimular o consumo.
Uma das iniciativas é a campanha nacional “Arroz Combina”, promovida pela Associação Brasileira da Indústria de Arroz (Abiarroz), que busca reforçar os benefícios nutricionais do grão.
“O objetivo da campanha é mostrar, principalmente aos jovens, os valores nutritivos e os benefícios de consumir arroz”, explica Rampinelli.
Segundo ele, mudar hábitos alimentares exige tempo e persistência.
“Os hábitos de uma geração não mudam de uma hora para outra. Primeiro, é preciso conscientizar o público sobre os benefícios do alimento.”
Outra estratégia discutida dentro do setor é ampliar o portfólio de produtos derivados do arroz, agregando valor à cadeia produtiva.
Entre as possibilidades estão biscoitos de arroz, bebidas vegetais, farinhas e outras aplicações alimentícias.
“Precisamos dar uma nova visibilidade ao arroz, utilizando o produto para diferentes finalidades. Biscoitos, leite de arroz e versões mais elaboradas podem ampliar o mercado”, afirma Rampinelli.
Ele também destaca a importância de adaptar o produto às preferências do consumidor contemporâneo.
“É preciso oferecer variedades, versões temperadas, produtos mais práticos ou com menor tempo de preparo.”
Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram grande parte da produção nacional de arroz irrigado. Apesar da proximidade geográfica e da importância econômica da atividade nos dois estados, Rampinelli afirma que o relacionamento entre as cadeias produtivas é de cooperação.
“Nós mantemos uma relação cordial. Há troca de experiências, compartilhamento de informações e reuniões frequentes para discutir desafios e buscar soluções conjuntas.”
Segundo ele, essa cooperação é fundamental para fortalecer a competitividade do setor.
Para enfrentar o atual momento, o setor também busca apoio institucional e políticas públicas voltadas à valorização da produção regional.
Em Santa Catarina, iniciativas do governo estadual já começam a ser discutidas.
Entre elas estão programas de incentivo à produção e a inclusão do arroz catarinense em compras institucionais.
“Estamos trabalhando com o governo do estado em programas que incentivem a utilização do arroz produzido em Santa Catarina, inclusive na merenda escolar e em instituições públicas”, afirma Rampinelli.
Além disso, o setor pretende ampliar o diálogo com o governo federal para discutir estratégias de longo prazo para a rizicultura.
Apesar das dificuldades atuais, o presidente do SindArroz-SC acredita que o arroz continuará sendo um alimento importante na dieta brasileira. No entanto, o setor precisará se adaptar às novas tendências de consumo.
“O arroz vai voltar a ocupar o lugar que merece na mesa do brasileiro, mas também precisamos acompanhar as preferências do consumidor”, afirma.
Segundo ele, inovação e diversificação serão fundamentais para o futuro da cadeia produtiva.
“Precisamos entender o que o consumidor busca, seja um arroz mais prático, um produto com valor agregado ou novas formas de consumo. A partir disso, investir em tecnologia e inovação.”
Para que isso aconteça, no entanto, a prioridade imediata é superar o atual período de instabilidade.
“Precisamos recuperar a rentabilidade do setor. Somente com resultados positivos será possível voltar a investir em pesquisa, tecnologia e desenvolvimento.”


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