
Alta de 50% no querosene de aviação (QAV) e 67,5% na gasolina da aviação agrícola.
A guerra entre Irã e EUA está reverberando no agronegócio brasileiro, elevando os custos da aviação agrícola. Um estudo do Sindag aponta alta de quase 50% no querosene de aviação e 67,5% na gasolina de aviação, com a gasolina subindo de R$ 8,36 para R$ 13,99 e o QAV de R$ 5,58 para R$ 8,46.
Guerra entre Irã e Estados Unidos eleva combustível de aviação agrícola e pressiona custos no campo
Os efeitos do conflito entre Irã e Estados Unidos já chegam ao agronegócio e estão provocando uma forte alta nos combustíveis usados pela aviação agrícola. Um estudo do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) aponta que os preços do querosene de aviação e da gasolina de aviação dispararam, ampliando a pressão sobre empresas aeroagrícolas e aumentando a perspectiva de repasse de custos aos produtores rurais.
De acordo com a pesquisa, realizada com 30 empresas distribuídas em diferentes regiões do Brasil, a gasolina de aviação registrou elevação expressiva, enquanto o querosene de aviação (QAV) também avançou com força. O movimento acompanha a instabilidade no mercado internacional de energia, influenciado por riscos geopolíticos e pela volatilidade do petróleo e seus derivados.
Combustíveis sobem e encarecem operações aéreas no agronegócio
O levantamento do Sindag mostra que o preço médio da gasolina de aviação passou de R$ 8,36 para R$ 13,99, uma alta de 67,5%. Já o querosene de aviação subiu de R$ 5,58 para R$ 8,46, avanço próximo de 50%. Esses percentuais impactam diretamente um dos principais componentes do custo operacional do setor: o combustível.
Combustível Preço anterior (R$/litro) Preço atual (R$/litro) Variação Gasolina de aviação R$ 8,36 R$ 13,99 +67,5% Querosene de aviação (QAV) R$ 5,58 R$ 8,46 ~+50%
O estudo indica que existe um alívio parcial porque cerca de 20% da frota opera com etanol, combustível que apresentou variação bem menor no período: 6,9%. Ainda assim, o impacto geral permanece elevado, já que a maior parte das aeronaves depende de combustíveis fósseis, mais sensíveis às oscilações globais de preço.
Cláudio Júnior Oliveira, economista e diretor operacional do Sindag, afirma que a alta dos combustíveis representa, em média, um aumento de 25% nos custos operacionais diretamente ligados ao combustível.
Possível repasse no preço dos serviços e aumento de pressão no produtor
Segundo Oliveira, o cenário atual exige atenção porque a tendência é de pressão adicional sobre as contas do setor. Ele aponta que a recomendação técnica é de um repasse mínimo de 10% nos preços dos serviços, considerando a recente alta acumulada da inflação da aviação agrícola, além da instabilidade econômica e geopolítica.
O executivo destaca que a inflação específica do segmento foi impulsionada, principalmente, pela elevação do heating oil, um derivado do petróleo utilizado na composição de combustíveis associados às operações aéreas no campo. Com o mercado internacional ainda tenso, o setor avalia que os próximos meses podem manter a mesma dinâmica de custos elevados, reduzindo previsibilidade e dificultando planejamento operacional.
Minas Gerais: frota cresce, mas alta do combustível pode reduzir capacidade de atendimento
O levantamento também reforça a relevância da aviação agrícola em Minas Gerais, onde a atividade segue em expansão. No ano passado, o estado registrou uma frota de 109 aeronaves, crescimento de aproximadamente 4% em relação ao ano anterior. Esse volume representa um potencial de atendimento de cerca de 5,4 milhões de hectares por ano.
Para o Sindag, esse número ajuda a dimensionar o tamanho do impacto: qualquer aumento relevante no custo operacional tende a afetar a capacidade de prestação de serviço, especialmente em regiões com forte participação no agronegócio. A consequência pode ser uma combinação perigosa de redução de aplicações e atrasos, prejudicando o controle fitossanitário.
Risco para produtividade e cadeia produtiva: culturas mais sensíveis
Com o combustível mais caro, cresce o risco de que aplicações sejam postergadas ou reduzidas, o que pode comprometer a produtividade, elevar perdas no campo e afetar diferentes elos da cadeia. Em Minas Gerais, entre as culturas citadas como mais sensíveis estão:
Café
Milho
Soja
Feijão
Florestas plantadas
Cana-de-açúcar
Algodão
O Sindag avalia que algumas dessas culturas apresentam alta dependência da aplicação aérea por fatores como altura das plantas, escala das áreas e necessidade de resposta rápida no manejo de pragas e doenças. Em determinadas situações, a aviação agrícola pode ser a alternativa operacional mais viável para manter o controle fitossanitário dentro de uma janela crítica.
Em destaque: culturas como cana, florestas, algodão e café tendem a sentir mais o impacto, pois exigem aplicação rápida e, em muitos casos, em condições em que não há alternativa com a mesma eficiência operacional.
No caso do algodão, o controle de pragas demanda agilidade, e atrasos podem elevar perdas e aumentar o custo final da produção. Já em áreas de cana-de-açúcar e florestas comerciais, há cenários em que limitações de acesso e escala tornam a operação terrestre difícil ou inviável, reforçando o papel estratégico da aviação agrícola.
Impacto pode chegar ao preço dos alimentos e às exportações brasileiras
Além de pressionar diretamente o produtor, o aumento de custos na aviação agrícola pode ter reflexos no mercado como um todo. Segundo Oliveira, o movimento pode afetar o preço dos alimentos e, por consequência, a própria balança comercial brasileira, já que o serviço atende grandes polos produtivos do país.
O argumento é que a aviação agrícola está conectada a cadeias de grande peso econômico. No ano passado, os 10 principais produtos agropecuários brasileiros concentraram mais de 40% das exportações. Entre eles, estão soja, milho, açúcar, café, celulose e algodão. Além disso, setores como o de carnes bovina e de frango dependem de insumos como soja e milho na ração animal, o que amplia o alcance indireto de qualquer pressão de custo no campo.
Com a permanência da instabilidade internacional, empresas e produtores acompanham de perto o comportamento do mercado de energia. O setor avalia que o desafio, neste momento, é manter a previsibilidade operacional e evitar que a alta dos combustíveis se converta em gargalos de aplicação, perdas de produtividade e aumento generalizado de custos ao longo da cadeia do agronegócio.



