
O mercado de trigo no Sul do Brasil voltou a ganhar tração nas últimas semanas, com recuperação dos preços e maior atuação dos moinhos na busca por abastecimento. O movimento é sustentado principalmente pela oferta limitada de grãos de melhor qualidade, em um cenário que ainda reflete dificuldades de originação e impactos vindos do mercado externo.
Apesar de as negociações seguirem pontuais no curto prazo, cresce o interesse por contratos futuros, indicando mudança de tendência e tentativa de planejamento diante de um ambiente de preços mais firmes. A avaliação predominante no setor é que o mercado passou a precificar a escassez de trigo com padrão superior, o que tende a manter prêmios elevados para lotes com boa performance para panificação.
No Rio Grande do Sul, a recuperação foi mais evidente. Moinhos voltaram a ampliar as ofertas e passaram a pagar valores mais altos conforme o prazo de entrega, reforçando a percepção de que a fase de preços deprimidos ficou para trás. Negociações com entrega em maio já sinalizam um mercado mais sustentado.
A leitura do setor é que lotes superiores — ainda disponíveis em menor volume — devem ser os mais disputados e, consequentemente, os mais valorizados. Do lado do produtor, os preços também reagiram, com indicações de valorização em praças acompanhadas de demanda mais aquecida.
Resumo do RS: alta nos preços e maior disputa por trigo de melhor qualidade, com sinalizações mais firmes para entregas futuras.
Em Santa Catarina, o mercado segue fortemente dependente do trigo vindo do Rio Grande do Sul. A elevação recente dos preços foi puxada, em grande parte, pelo aumento do custo do frete, que encarece a chegada do cereal e pressiona as negociações no estado.
Esse ambiente já se refletiu na cadeia industrial: o mercado registrou reajustes médios nas farinhas, aceitos pelos compradores em meio ao encarecimento do insumo e à dificuldade de originar trigo com padrão elevado.
A oferta de trigo branqueador continua limitada, com prêmios elevados. Ao mesmo tempo, parte dos lotes disponíveis não atinge o padrão exigido para panificação, o que reforça a seletividade dos moinhos e sustenta diferenciações de preço por qualidade.
No Paraná, os preços seguem firmes, mas o volume de negócios perdeu velocidade. A indústria continua ativa na busca por trigo de melhor qualidade, com preferência por entregas a partir de abril. Já do lado do campo, a atenção do produtor se concentra na colheita e no andamento de outras culturas, reduzindo a disponibilidade para fechar negócios no curto prazo.
A combinação de demanda ativa com oferta restrita mantém o mercado sustentado, mesmo com menor movimentação. O resultado é um ambiente em que o trigo de qualidade tem maior poder de barganha e tende a capturar as altas.
Abaixo, um quadro-resumo com as faixas de preços citadas no mercado regional, variando conforme qualidade, logística e prazos de entrega:
Estado Cenário Tendência Rio Grande do Sul Alta com maior demanda dos moinhos e escassez de qualidade Valorização com firmeza em prazos futuros Santa Catarina Dependência do trigo gaúcho e impacto do frete Repasses na indústria e prêmios para trigo branqueador Paraná Firmeza com menor ritmo de negócios e foco do produtor em outras culturas Mercado sustentado, com seletividade por qualidade
No cenário externo, a demanda por trigo de qualidade permanece aquecida, ajudando a sustentar os preços no Brasil. A oferta regional também é influenciada por limitações de qualidade em países fornecedores, o que reforça a disputa por lotes com maior teor de proteína e desempenho tecnológico superior.
Esse ambiente internacional contribui para a manutenção da tendência de alta no mercado doméstico, principalmente quando a indústria precisa garantir padrão para produção de farinhas voltadas à panificação e derivados.
Competitividade e qualidade orientam a compra dos moinhos.
Prêmios sobem quando a oferta de trigo superior diminui.
Logística e frete amplificam movimentos de preço entre estados.
Além do movimento de preços no curto prazo, o setor acompanha com atenção as projeções de plantio. No Paraná, segundo maior produtor nacional, a área de trigo prevista para 2026 deve cair e atingir o menor patamar desde o início dos anos 2000, sinalizando uma retração histórica. Com menor área e expectativa de produtividade mais baixa, a produção também tende a recuar na próxima safra.
A redução pode afetar o abastecimento do país e intensificar a necessidade de importações. O Brasil, tradicionalmente, depende do mercado externo para suprir parte relevante do consumo interno, e a Argentina segue como um fornecedor central para a indústria moageira.
A principal explicação está na competição com culturas mais rentáveis. O milho segunda safra vem ocupando áreas que antes eram destinadas ao trigo, especialmente em regiões onde o retorno econômico do cereal de inverno se tornou menos atrativo. Mesmo em zonas tradicionais, outras alternativas agrícolas também avançam, alterando o perfil produtivo.
Em destaque: a mudança na matriz de plantio no Paraná indica uma tendência estrutural, com culturas de maior rentabilidade avançando sobre o trigo.
No curto prazo, a combinação de oferta restrita, demanda ativa e dificuldades para originar trigo com qualidade superior sugere manutenção do viés de alta. A indústria tende a seguir seletiva, pagando mais por lotes que atendam às especificações técnicas, enquanto volumes com padrão inferior podem enfrentar maior resistência ou descontos.
Para o mercado, a mensagem é clara: o Sul do Brasil entra em um novo momento, em que a qualidade do grão e os custos de logística passam a ser determinantes na formação de preços, com efeitos diretos sobre a cadeia de farinhas e derivados.

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