
Minas Gerais: queda de 21,9% no VBP da pecuária leiteira entre 2025 e 2026, com exportações de carne bovina para China, Países Baixos e Filipinas em destaque
O estado líder na produção de leite prevê queda de 21,9% no VBP da pecuária leiteira de 2025 para 2026, de R$ 18,1 bilhões para cerca de R$ 14,1 bilhões (78% das perdas da pecuária local). Em contrapartida, os criadores de bovinos devem registrar aproximadamente R$ 19 bilhões de receita bruta neste ano, +5% frente a 2025, consolidando o terceiro ano de resultados positivos. A recuperação de preços foi impulsionada pela reacomodação de embarques para Países Baixos, Filipinas e China, após a retirada de tarifas dos EUA.
Minas Gerais deve registrar forte queda no valor do leite em 2026, enquanto pecuária de corte sustenta alta
Minas Gerais, líder nacional na produção de leite e responsável por quase um quarto do volume captado no país, deve enfrentar um recuo expressivo no Valor Bruto da Produção (VBP) da pecuária leiteira na passagem de 2025 para 2026. A estimativa é de queda de 21,9%, com o VBP encolhendo de R$ 18,1 bilhões para cerca de R$ 14,1 bilhões. A perda, próxima de R$ 3,9 bilhões, representa 78% de toda a redução esperada para a pecuária do Estado como um todo.
O cenário contrasta com a pecuária de corte, que segue em trajetória mais favorável. Para 2026, criadores de bovinos devem alcançar receita bruta na faixa de R$ 19 bilhões, crescimento de 5% em relação a 2025 e terceiro ano consecutivo de resultados positivos.
Carne bovina: exportações e ajuste de mercados ajudaram a recompor preços
Na avaliação do secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado, Thales Almeida Fernandes, a tendência inicial de queda nos preços, observada no ano anterior, foi revertida após uma reacomodação dos embarques para outros destinos internacionais. Entre os mercados citados estão Países Baixos e Filipinas, além da China, que concentrou 60% das exportações de carne bovina em 2025.
Segundo ele, a retirada de tarifas por parte dos Estados Unidos reforçou a reação de preços no setor. No mercado interno, Fernandes destaca um fator que influencia a dinâmica de oferta: o aumento do abate de fêmeas, movimento que pode comprometer a reposição de bezerros e reduzir a oferta futura de animais.
Ponto de atenção: o avanço no abate de fêmeas tende a pressionar a reposição do rebanho e pode impactar a disponibilidade de animais nos ciclos seguintes, com efeitos sobre preços e planejamento produtivo.
Entre janeiro e setembro do ano anterior, os abates de fêmeas cresceram 22,6% em relação ao mesmo período de 2024, somando 1,267 milhão de cabeças — cerca de 44,4% do abate total. No mesmo intervalo, o abate de machos recuou 14,3%, resultando em queda de 0,8% no abate total no Estado, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Leite: volumes sobem, mas preços e margens pressionam o produtor
Apesar da perspectiva de queda no VBP, os dados mais recentes do IBGE indicam que houve alta de 4,3% nos volumes de leite industrializados nos primeiros nove meses de 2025, totalizando perto de 4,8 bilhões de litros. No Brasil, o crescimento no mesmo período foi maior, com avanço de 11,06%.
Para a pesquisadora Natália Salaro Grigol, da área de leite do Cepea, o setor iniciou 2026 sob impacto do que ocorreu em 2025, quando os preços caíram com força e derrubaram margens. Entre dezembro do ano anterior e o mesmo mês do ano retrasado, os preços recuaram 25,79%, contrariando expectativas do mercado, que projetava continuidade da rentabilidade observada em 2024.
Até o fim de março do ano anterior, o preço pago ao produtor ainda subia quase 21% na comparação com o mesmo período de 2024. Na sequência, porém, o mercado perdeu sustentação e as cotações recebidas pelos produtores em Minas Gerais caíram quase 31% entre março e dezembro.
O que pesou na virada do mercado
Produção em alta, ampliando a oferta.
Importações que não recuaram como se esperava.
Demanda incapaz de absorver integralmente o aumento do volume disponível.
Grigol também aponta um componente estrutural que reforça a pressão sobre o setor: o país teria perdido parte de sua autossuficiência no abastecimento de leite. Na média dos dez anos encerrados em 2022, as importações de lácteos representavam cerca de 5% da produção formal; desde 2023, essa relação teria dobrado para 10%.
Reestruturação e tecnologia aceleram a concentração na pecuária leiteira
Nos últimos cinco anos, o segmento registrou evolução mais intensa do pacote tecnológico aplicado à produção leiteira, combinada a um processo de reestruturação da base produtiva. O movimento é descrito como especialmente visível em Minas Gerais e amplia a heterogeneidade do setor: com margens mais estreitas, pequenos e até médios produtores tendem a deixar a atividade, enquanto propriedades com maior escala e gestão mais profissional buscam reduzir custos unitários.
Entre as estratégias associadas a esse avanço estão o uso de tecnologia, melhorias em nutrição, manejo reprodutivo e maior foco em eficiência e qualidade do leite.
Indicador Dado VBP do leite em MG (2025 → 2026) Queda estimada de 21,9% (de R$ 18,1 bi para ~R$ 14,1 bi) Receita bruta da pecuária de corte (2026) ~R$ 19 bi (alta de 5%) Leite industrializado (9M 2025) ~4,8 bilhões de litros (+4,3% em MG) Importações x produção formal De ~5% (média até 2022) para ~10% desde 2023
Um sinal do avanço tecnológico, mesmo em ambiente de preços mais pressionados, aparece no mercado de genética. A pesquisadora lembra que as vendas de sêmen para a pecuária leiteira cresceram no ano anterior, com alta próxima de dois dígitos. Levantamento da Asbia em parceria com o Cepea indica que, entre os primeiros nove meses de 2025 e o mesmo período de 2024, as vendas subiram 9,4%, alcançando 4,93 milhões de doses.
Na ponta: produção com genética e manejo melhora desempenho em fazenda mineira
Em Diamantina, o produtor de queijos Ewerton Sebastião de Almeida adotou técnicas de inseminação artificial em tempo fixo, combinadas com sêmen sexado, para elevar o potencial genético do rebanho. O resultado tem sido produção média de 20,8 litros por vaca/dia.
No ano anterior, ele investiu na renovação do plantel — atualmente com 35 vacas girolando — e alterou o sistema de criação, adotando semiconfinamento. A dieta inclui silagem de milho produzida na propriedade, além de ração e sal de melhor qualidade, com impactos em sanidade, qualidade da produção e taxas de prenhez.
Com 12 vacas em ordenha, a produção diária de leite cresceu de 150 para 250 litros entre 2024 e 2025, viabilizando a fabricação de 30 peças de queijo de aproximadamente 1 quilo por dia.
Indústria aposta em inovação e produtos funcionais para crescer até 2030
No segmento industrial, a Verde Campo — controlada pelo grupo suíço Emmi Group por meio de sua subsidiária brasileira Laticínios Porto Alegre — redefiniu seu planejamento estratégico e mira dobrar de tamanho até 2030, segundo o CEO Fábio Ferreira.
A empresa avançou com um processo de reposicionamento de marca, reorganizou o portfólio e lançou três novas linhas. Entre as novidades estão iogurtes tradicionais com menor teor de açúcar e uso de açúcar orgânico, uma linha com leite A2 — associado a digestão mais fácil — e uma manteiga gourmet fermentada sem lactose.
Instalada há 26 anos na região de Lavras, no sul mineiro, a Verde Campo construiu sua estratégia com foco em diferenciação e produtos lácteos voltados à saúde. A companhia foi pioneira ao lançar, em 2010, uma marca livre de lactose no mercado nacional, e posteriormente ampliou a presença em categorias como iogurtes e bebidas proteicas. Segundo Ferreira, a indústria opera com parque fabril tecnológico e trabalha exclusivamente com leite fresco, captando mensalmente 4 milhões de litros de 108 fornecedores em um raio de 80 a 100 quilômetros da planta.
Para o consumidor, o movimento reforça a tendência de maior oferta de produtos lácteos funcionais e com apelo de saúde, enquanto, no campo, o setor segue dividido entre a pressão de custos e preços e a busca por eficiência baseada em escala, genética e manejo.




