
O agronegócio brasileiro entrou em 2025 com um sinal de alerta: o número de solicitações de recuperação judicial atingiu o maior patamar já registrado, refletindo o aperto nas margens, o encarecimento do financiamento e a instabilidade do mercado. Um levantamento da Serasa Experian contabilizou 1.990 pedidos no ano passado, alta de 56,4% em comparação com 2024, quando foram registradas 1.272 solicitações.
O dado reúne três frentes da cadeia produtiva: produtores rurais pessoa física, produtores rurais pessoa jurídica e empresas ligadas ao agro. A evolução recente mostra uma tendência de agravamento: em 2023, haviam sido contabilizados 534 pedidos, número bem inferior ao patamar atual.
Analistas apontam que o cenário é resultado de um conjunto de fatores que se sobrepuseram nos últimos ciclos. Após um período de preços elevados, houve queda e posterior estabilização das commodities, ao mesmo tempo em que muitos produtores estavam altamente alavancados — isto é, com dívidas e financiamentos estruturados contando com receitas maiores.
Além disso, o setor enfrentou custos elevados de insumos, com destaque para fertilizantes, em um contexto de turbulência internacional. O aumento das despesas coincidiu com a redução dos preços recebidos por parte da produção, comprimindo ainda mais as margens e reduzindo a capacidade de pagamento em algumas regiões e cadeias.
O ambiente global segue adicionando incerteza. Conflitos no exterior podem influenciar tanto as cotações de commodities quanto os custos de produção, o que tende a dificultar o planejamento financeiro no campo. Em paralelo, há avaliações no mercado de que uma parcela dos pedidos pode estar sendo utilizada como estratégia para postergar dívidas, inclusive por agentes que não estariam em situação financeira crítica.
Oscilação das commodities após fase de preços mais fortes;
Endividamento elevado em parte dos produtores e empresas;
Insumos mais caros, especialmente fertilizantes, afetando custos;
Juros altos e maior cautela na tomada de crédito;
Incertezas internacionais impactando preços e despesas;
Uso da recuperação judicial como mecanismo de reorganização e, em alguns casos, de postergação de obrigações.
A escalada da inadimplência no agro tem repercussões diretas no crédito rural e nas condições de financiamento. O Banco do Brasil, principal instituição financeira no segmento, registrou aumento expressivo na taxa de inadimplência: o indicador saltou de 0,94% para mais de 5%, conforme divulgado no último balanço do banco.
Na prática, o avanço do risco faz com que o mercado se torne mais seletivo. As condições ficam mais restritivas para todos — inclusive para quem mantém pagamentos em dia. Isso pode significar recursos mais limitados, exigências maiores de garantias e revisão de critérios para concessão.
Empresas que atuam no financiamento e na estruturação de instrumentos ligados ao agro também passaram a impor mais restrições, o que tende a dificultar o acesso ao crédito público e privado. Mecanismos usados no setor, como LCA, CPR e FIAGRO, são afetados pelo aumento da percepção de risco e pelo ambiente de juros mais altos.
Com juros elevados e maior incerteza, produtores ficam mais cautelosos ao assumir novos financiamentos, enquanto credores endurecem critérios diante do aumento do risco.
Embora uma recente valorização nos preços de grãos possa oferecer algum alívio para parte do setor, o cenário para a próxima safra ainda é descrito como incerto. O equilíbrio entre custos de produção, preços de venda e condições de financiamento deve continuar determinando a capacidade de recuperação de produtores e empresas.
Ano Pedidos registrados Observação 2023 534 Base de comparação do salto recente 2024 1.272 Aumento relevante frente a 2023 2025 1.990 Recorde histórico, alta de 56,4% vs. 2024
Em meio ao aumento da inadimplência e ao ambiente de juros restritivos, o Banco do Brasil lançou uma nova campanha de renegociação de dívidas. Segundo a instituição, os descontos podem chegar a 90%, variando de acordo com o perfil e a situação de cada cliente.
A renegociação é realizada pelos canais de atendimento do banco. O gerente executivo da Unidade de Cobrança e Reestruturação de Ativos, Daniel Brum, afirmou que não há necessidade de envio de documentos para iniciar o processo. Caso a renegociação não esteja disponível automaticamente, a orientação é buscar atendimento personalizado na agência de relacionamento.
A iniciativa integra o Mutirão Nacional de Negociação e Orientação Financeira, promovido pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos). O programa segue em andamento até 31 de março.
Entenda o fluxo de caixa: projete receitas e despesas para evitar novo desequilíbrio.
Compare condições: avalie prazos, descontos e custo total do acordo.
Priorize dívidas mais caras: foque nas que têm maiores encargos e impacto no crédito.
Evite novos compromissos sem previsibilidade de receita.
A combinação entre recorde de recuperações judiciais, aumento de inadimplência e endurecimento do crédito reforça um momento de atenção para o agronegócio. Para o setor, o desafio é reconstruir previsibilidade financeira em um ambiente ainda volátil, equilibrando produção, custos, preços e acesso a financiamento.

O primeiro trimestre trouxe sinais mistos para o agronegócio brasileiro. Dados do Valor Data sobre 18 empresas mostram piora de resultados: 11 registraram queda de receita líquida; 15 tiveram lucro, mas entre as lucrativas, 9 viram queda no lucro. A margem EBITDA permaneceu positiva para 14 companhias, porém metade ficou abaixo do patamar de um ano antes. O frete continua a pressionar custos e preços recebidos pelos produtores, com analistas destacando o desconto aplicado pelas tradings com base no custo do frete e do combustível.

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