
Agronegócio registra recorde histórico de pedidos de recuperação judicial em 2025; inadimplência avança, crédito fica mais restrito e BB lança mutirão de renegociação
Um levantamento da Serasa Experian mostra que 2025 teve o maior número de solicitações de recuperação judicial no agronegócio, com 1.990 pedidos, alta de 56,4% em relação a 2024 (1.272). O total envolve produtores rurais pessoa física, pessoa jurídica e empresas da cadeia, indicando uma tendência de inadimplência crescente nos últimos anos (2023 teve 534 pedidos). Entre os fatores estão a queda e a estabilização dos preços das commodities, custos elevados de fertilizantes durante o conflito Russia-Ucrânia e incertezas geopolíticas no Oriente Médio, além de possíveis usos de pedidos de recuperação para postergação de dívidas. A crise afeta o crédito rural: no BB, a inadimplência saiu de 0,94% para acima de 5%, restringindo crédito público e privado e elevando exigências de garantias, com maiores restrições a instrumentos como LCA, CPR e FIAGRO. Juros altos ampliam a cautela na assunção de novos financiamentos, ainda que altas recentes de preços dos grãos possam trazer alívio no curto prazo. Paralelamente, o BB abriu campanha de renegociação de dívidas com descontos de até 90% dentro do Mutirão Nacional de Negociação e Orientação Financeira da Febraban, válido até 31 de março (CNN, 9/3/26).
Recuperação judicial no agronegócio atinge recorde e pressiona crédito; Banco do Brasil lança mutirão de renegociação
O agronegócio brasileiro entrou em 2025 com um sinal de alerta: o número de solicitações de recuperação judicial atingiu o maior patamar já registrado, refletindo o aperto nas margens, o encarecimento do financiamento e a instabilidade do mercado. Um levantamento da Serasa Experian contabilizou 1.990 pedidos no ano passado, alta de 56,4% em comparação com 2024, quando foram registradas 1.272 solicitações.
O dado reúne três frentes da cadeia produtiva: produtores rurais pessoa física, produtores rurais pessoa jurídica e empresas ligadas ao agro. A evolução recente mostra uma tendência de agravamento: em 2023, haviam sido contabilizados 534 pedidos, número bem inferior ao patamar atual.
Por que os pedidos de recuperação judicial cresceram
Analistas apontam que o cenário é resultado de um conjunto de fatores que se sobrepuseram nos últimos ciclos. Após um período de preços elevados, houve queda e posterior estabilização das commodities, ao mesmo tempo em que muitos produtores estavam altamente alavancados — isto é, com dívidas e financiamentos estruturados contando com receitas maiores.
Além disso, o setor enfrentou custos elevados de insumos, com destaque para fertilizantes, em um contexto de turbulência internacional. O aumento das despesas coincidiu com a redução dos preços recebidos por parte da produção, comprimindo ainda mais as margens e reduzindo a capacidade de pagamento em algumas regiões e cadeias.
O ambiente global segue adicionando incerteza. Conflitos no exterior podem influenciar tanto as cotações de commodities quanto os custos de produção, o que tende a dificultar o planejamento financeiro no campo. Em paralelo, há avaliações no mercado de que uma parcela dos pedidos pode estar sendo utilizada como estratégia para postergar dívidas, inclusive por agentes que não estariam em situação financeira crítica.
Resumo dos fatores de pressão (2023–2025)
Oscilação das commodities após fase de preços mais fortes;
Endividamento elevado em parte dos produtores e empresas;
Insumos mais caros, especialmente fertilizantes, afetando custos;
Juros altos e maior cautela na tomada de crédito;
Incertezas internacionais impactando preços e despesas;
Uso da recuperação judicial como mecanismo de reorganização e, em alguns casos, de postergação de obrigações.
Efeito dominó: inadimplência altera a oferta de crédito rural
A escalada da inadimplência no agro tem repercussões diretas no crédito rural e nas condições de financiamento. O Banco do Brasil, principal instituição financeira no segmento, registrou aumento expressivo na taxa de inadimplência: o indicador saltou de 0,94% para mais de 5%, conforme divulgado no último balanço do banco.
Na prática, o avanço do risco faz com que o mercado se torne mais seletivo. As condições ficam mais restritivas para todos — inclusive para quem mantém pagamentos em dia. Isso pode significar recursos mais limitados, exigências maiores de garantias e revisão de critérios para concessão.
Empresas que atuam no financiamento e na estruturação de instrumentos ligados ao agro também passaram a impor mais restrições, o que tende a dificultar o acesso ao crédito público e privado. Mecanismos usados no setor, como LCA, CPR e FIAGRO, são afetados pelo aumento da percepção de risco e pelo ambiente de juros mais altos.
Com juros elevados e maior incerteza, produtores ficam mais cautelosos ao assumir novos financiamentos, enquanto credores endurecem critérios diante do aumento do risco.
Embora uma recente valorização nos preços de grãos possa oferecer algum alívio para parte do setor, o cenário para a próxima safra ainda é descrito como incerto. O equilíbrio entre custos de produção, preços de venda e condições de financiamento deve continuar determinando a capacidade de recuperação de produtores e empresas.
Tabela: evolução dos pedidos de recuperação judicial no agro
Ano Pedidos registrados Observação 2023 534 Base de comparação do salto recente 2024 1.272 Aumento relevante frente a 2023 2025 1.990 Recorde histórico, alta de 56,4% vs. 2024
Banco do Brasil abre campanha de renegociação com descontos
Em meio ao aumento da inadimplência e ao ambiente de juros restritivos, o Banco do Brasil lançou uma nova campanha de renegociação de dívidas. Segundo a instituição, os descontos podem chegar a 90%, variando de acordo com o perfil e a situação de cada cliente.
A renegociação é realizada pelos canais de atendimento do banco. O gerente executivo da Unidade de Cobrança e Reestruturação de Ativos, Daniel Brum, afirmou que não há necessidade de envio de documentos para iniciar o processo. Caso a renegociação não esteja disponível automaticamente, a orientação é buscar atendimento personalizado na agência de relacionamento.
A iniciativa integra o Mutirão Nacional de Negociação e Orientação Financeira, promovido pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos). O programa segue em andamento até 31 de março.
O que observar antes de renegociar
Entenda o fluxo de caixa: projete receitas e despesas para evitar novo desequilíbrio.
Compare condições: avalie prazos, descontos e custo total do acordo.
Priorize dívidas mais caras: foque nas que têm maiores encargos e impacto no crédito.
Evite novos compromissos sem previsibilidade de receita.
A combinação entre recorde de recuperações judiciais, aumento de inadimplência e endurecimento do crédito reforça um momento de atenção para o agronegócio. Para o setor, o desafio é reconstruir previsibilidade financeira em um ambiente ainda volátil, equilibrando produção, custos, preços e acesso a financiamento.




