
Em meio à pressão sobre os preços dos combustíveis e à preocupação com o abastecimento no campo, entidades ligadas ao agronegócio e ao setor de biocombustíveis voltaram a defender a elevação dos mandatos de mistura de biodiesel no diesel e de etanol na gasolina como forma de reduzir a dependência do Brasil de importações. O tema ganhou força diante de um cenário internacional de guerra que elevou a volatilidade do petróleo e ampliou o risco de oscilações no fornecimento.
A Associação Brasileira dos Produtores de Soja solicitou ao governo federal que avance no cronograma de aumento da mistura obrigatória, atualmente em 15% de biodiesel no diesel e 27% de etanol na gasolina. A entidade sustenta que ampliar a participação de biocombustíveis pode diminuir a exposição do país a choques externos e, ao mesmo tempo, reforçar a segurança energética em um momento crítico para a logística agrícola.
O Conselho Nacional de Política Energética tem reunião prevista para esta quinta-feira, mas, até o momento, não há indicação de que a alteração dos mandatos de mistura esteja incluída para votação. Ainda assim, o assunto vem sendo tratado por diferentes atores do setor produtivo, com pedidos formais e debates sobre prazos, viabilidade técnica e impacto no mercado.
Dias antes, a Confederação da Agricultura e Pecuária havia solicitado que o teor de biodiesel no diesel subisse diretamente de 15% para 17%. A iniciativa ocorreu em paralelo a relatos de dificuldades pontuais de fornecimento e aumento de custos, especialmente durante um período decisivo para a colheita e o plantio no país.
A preocupação central do setor é evitar interrupções no fornecimento de diesel em plena colheita de soja e no avanço do cultivo do milho de segunda safra, quando máquinas e transporte dependem fortemente do combustível.
Em nota, a entidade dos produtores de soja afirmou que a instabilidade no abastecimento e nos preços pode gerar efeitos diretos sobre a operação no campo. Segundo a avaliação apresentada, o problema não se limita ao custo do diesel: ele se espalha por toda a cadeia, elevando despesas de produção, encarecendo o transporte de mercadorias e ampliando o risco de inflação de alimentos.
A entidade também alertou para a possibilidade de práticas oportunistas por parte de fornecedores em um ambiente de escassez, com reajustes considerados abusivos. Na leitura do setor, a combinação de frete mais caro, insumos pressionados e eventual dificuldade de abastecimento pode causar perdas operacionais e comprometer parte da produção, inclusive com risco de volumes não colhidos.
Apesar das preocupações relatadas por produtores, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis informou, no fim de semana, que o fornecimento de combustível está normal. Ainda assim, há registros de queixas regionais, com maior destaque para o Rio Grande do Sul, envolvendo falta pontual ou encarecimento do diesel associado à alta internacional do petróleo.
Ponto-chave para o setor: o Brasil exporta petróleo bruto, mas segue dependente de importações de diesel e gasolina, o que aumenta a vulnerabilidade a crises externas e à volatilidade de preços.
Para os produtores rurais, a alternativa de curto prazo passa por aumentar a presença de biocombustíveis na matriz. A proposta é que o avanço no mandato de biodiesel reduza a necessidade de diesel importado, enquanto a ampliação do uso do etanol contribua para diminuir a demanda por gasolina de fora do país.
O argumento também envolve a aplicação do etanol além do abastecimento de veículos leves, com defesa de maior utilização no transporte de cargas e em máquinas agrícolas, como forma de ampliar a resiliência energética do setor produtivo.
Enquanto o agronegócio pressiona por aumento de mistura, o setor de biocombustíveis reforça que existe capacidade interna suficiente para atender o mercado e critica a ideia de abrir espaço para importação de biodiesel. A avaliação de representantes da indústria é que a medida seria incoerente, especialmente em um contexto em que se busca reduzir dependência externa.
O presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil afirmou que a cadeia defende o aumento da mistura e considera que, para elevar a adição para 16%, não haveria necessidade de novos testes técnicos neste momento. Ainda assim, ressaltou que o setor não quer que decisões governamentais sejam interpretadas como oportunismo diante do cenário internacional.
Segundo o dirigente, o setor estaria disposto a acelerar e até bancar testes conduzidos pelo governo para validar percentuais mais altos de mistura, caso essa seja uma condição para avançar no cronograma. Na visão apresentada, a elevação para 16% poderia ser implementada de forma imediata sem causar problemas operacionais.
Embora parte do setor sustente que a elevação para 16% seria segura, há fontes que defendem que qualquer aumento exige avaliação de viabilidade técnica. Nesse cenário, surgem duas possibilidades debatidas: aprovar o avanço como medida excepcional por causa do contexto internacional ou realizar ensaios rápidos que permitam validar o novo percentual sem atrasar a decisão.
Além da associação de produtores de biocombustíveis, outras entidades do segmento já se posicionaram contra a importação de biodiesel. O argumento central é que o Brasil possui capacidade produtiva instalada suficiente e, segundo o setor, opera com ociosidade, o que reduziria qualquer justificativa técnica para importar o produto pronto.
Essas organizações alertam que uma abertura para importação poderia gerar impactos negativos sobre a previsibilidade regulatória, comprometer investimentos já realizados e criar insegurança jurídica para a cadeia produtiva. Também destacam que a principal matéria-prima do biodiesel são os óleos vegetais, que já podem ser importados livremente, tornando menos racional importar biodiesel acabado.
O debate sobre o mandato de biodiesel e etanol ocorre em um ponto sensível do calendário agrícola, quando o consumo de diesel aumenta para sustentar colheita, preparo de solo e logística de escoamento. Para o setor rural, a prioridade é assegurar combustível a preços previsíveis, evitando que uma crise de abastecimento se transforme em perdas de produtividade.
Para a indústria de biocombustíveis, a prioridade é garantir regras claras e estímulos que permitam elevar a participação de renováveis sem romper a lógica de investimentos. Nesse contexto, a discussão envolve não apenas o percentual de mistura, mas também o risco de decisões que alterem rapidamente o equilíbrio do mercado, como a possibilidade de importação em larga escala.
Produtores de soja pedem avanço no aumento da mistura de biodiesel e etanol para reduzir importações.
Mandatos atuais: 15% de biodiesel no diesel e 27% de etanol na gasolina.
Relatos regionais apontam encarecimento e possíveis faltas pontuais de diesel, apesar de a agência reguladora indicar normalidade no abastecimento.
Setor de biodiesel defende aumento para 16% sem necessidade de testes, mas há divergências sobre exigências técnicas.
Importação de biodiesel enfrenta resistência de entidades, que alegam capacidade ociosa e riscos regulatórios.
Tema Situação atual Propostas/pressões Mandato de biodiesel no diesel 15% Elevação para 16% ou 17%, com debate sobre testes e timing Mandato de etanol na gasolina 27% Aumento do percentual para reduzir dependência de importação Importação de biodiesel Em discussão regulatória Setor industrial se posiciona contra, citando capacidade ociosa e riscos à previsibilidade
Com a reunião do conselho prevista, o mercado acompanha os próximos passos do governo e a possibilidade de decisões que afetem tanto o abastecimento quanto os custos de produção agrícola. No centro da discussão, permanece a busca por um equilíbrio entre segurança energética, estabilidade de preços, capacidade produtiva nacional e regras regulatórias que deem previsibilidade à cadeia de combustíveis.

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