
O desembolso de crédito rural pelas linhas tradicionais do Plano Safra 2025/26 registrou queda de quase 13% entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, na comparação com o mesmo intervalo da safra anterior. No período, pequenos, médios e grandes produtores acessaram R$ 227,4 bilhões, abaixo dos R$ 260,3 bilhões observados nos oito primeiros meses do ciclo 2024/25.
A retração ocorre em um contexto de cautela do setor diante do custo financeiro, com impacto especialmente relevante sobre operações de longo prazo. O recuo mais expressivo foi visto em investimentos, modalidade diretamente associada à modernização de máquinas, infraestrutura e tecnologia no campo.
A queda nas concessões foi mais acentuada nas operações de investimentos, com recuo de quase 22%, de R$ 72 bilhões para R$ 56,2 bilhões. Já o desembolso para custeio caiu 13,6%, totalizando R$ 125,9 bilhões. Em comercialização, a redução foi de quase 19%, para R$ 21,7 bilhões.
A única linha com avanço foi a de industrialização, que cresceu 50%, alcançando R$ 23,4 bilhões. O volume total de contratos também recuou: houve queda de 3%, para 1,5 milhão.
Finalidade Desembolso (jul/25 a fev/26) Variação vs. safra anterior Custeio R$ 125,9 bilhões -13,6% Investimentos R$ 56,2 bilhões -22% Comercialização R$ 21,7 bilhões -19% Industrialização R$ 23,4 bilhões +50%
Em nota, o Ministério da Agricultura destacou que a contratação de crédito via Cédula de Produto Rural (CPR) cresceu 39% no mesmo recorte, somando R$ 163,4 bilhões. Esses números não aparecem na consulta tradicional do sistema do Banco Central, mas também se referem a operações feitas por instituições financeiras com recursos direcionados.
De acordo com a Pasta, esses financiamentos via CPR são realizados majoritariamente para custeio. O ministério passou a considerar o volume contratado como base de comparação do Plano Safra, apontando que a contratação antecede o desembolso efetivo. Nesse tipo de operação, ainda pode haver valores contratados que não se converteram em recursos efetivamente concedidos pelos bancos, como ocorre com parte do montante ainda pendente.
Leitura do governo: o desempenho para médios e grandes produtores é sustentado pelo avanço das CPRs, enquanto as linhas tradicionais recuam em quase todas as modalidades, com exceção da industrialização.
Considerando o recorte adotado pela Pasta, as contratações para médios e grandes produtores teriam avançado 7%, para R$ 354,4 bilhões. Nesse cálculo, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) não entra. Pelos dados de concessões do Banco Central, o Pronaf aparece com estabilidade no período, acima de R$ 46,3 bilhões.
Ainda assim, o movimento de alta para médios e grandes produtores é explicado pelo aumento das CPRs, já que as linhas tradicionais recuam em quase todas as finalidades. O ponto de maior preocupação segue sendo o investimento, que reflete decisões de longo prazo sobre produtividade, mecanização e eficiência.
Segundo o Ministério da Agricultura, a queda nos investimentos expressa a prudência do setor diante das taxas de juros atuais, em um cenário que considera a perspectiva de redução da Selic no fim de 2026.
Os principais programas de investimento acumularam queda na comparação com a safra 2024/25. O Moderfrota liderou as retrações, recuando 49%, de R$ 6,85 bilhões para R$ 3,48 bilhões. O Proirriga registrou redução de 48% e o Inovagro caiu 33%.
O Pronamp, voltado ao médio produtor, teve queda de 34%, passando de R$ 5,49 bilhões para R$ 3,65 bilhões. Já o Prodecoop apresentou a menor variação negativa, com redução de 3%.
Moderfrota: -49%
Proirriga: -48%
Pronamp: -34%
Inovagro: -33%
Prodecoop: -3%
No recorte para médios e grandes produtores, sem considerar o Pronaf, o Ministério da Agricultura informou que as fontes controladas totalizaram R$ 98,8 bilhões entre julho de 2025 e fevereiro de 2026. O destaque foi a aplicação de LCA na modalidade controlada, que saltou 4.038%, para R$ 25,7 bilhões, atribuída a mudanças regulatórias que ampliaram o uso do instrumento.
Ainda nas fontes controladas, os recursos obrigatórios cresceram 5%, para R$ 36,0 bilhões. A poupança rural controlada caiu 26%, para R$ 10,6 bilhões, e os fundos constitucionais recuaram 7%, para R$ 13,1 bilhões.
Já as fontes livres somaram R$ 80,7 bilhões, com redução de 24%. A LCA livre caiu 36%, para R$ 41,1 bilhões, enquanto a poupança rural livre cresceu 28%, chegando a R$ 35,2 bilhões. O BNDES Livre registrou queda de 18%, totalizando R$ 3,8 bilhões.
Do total de R$ 113,4 bilhões programados para linhas de crédito rural para médios e grandes produtores com equalização do Tesouro Nacional no Plano Safra 2025/26, 61% ainda permanece disponível. Entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, foram concedidos R$ 44,1 bilhões, com maior concentração em operações de custeio (R$ 27,7 bilhões).
As linhas de investimentos seguem com o maior saldo proporcional: dos R$ 49,5 bilhões previstos, apenas R$ 16,2 bilhões foram liberados até fevereiro, o que indica que 67% do valor ainda pode ser acessado.

O primeiro trimestre trouxe sinais mistos para o agronegócio brasileiro. Dados do Valor Data sobre 18 empresas mostram piora de resultados: 11 registraram queda de receita líquida; 15 tiveram lucro, mas entre as lucrativas, 9 viram queda no lucro. A margem EBITDA permaneceu positiva para 14 companhias, porém metade ficou abaixo do patamar de um ano antes. O frete continua a pressionar custos e preços recebidos pelos produtores, com analistas destacando o desconto aplicado pelas tradings com base no custo do frete e do combustível.

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O Plano Safra 2026/27 deve ser anunciado na terça-feira (30) com recursos estimados entre R$ 600 bilhões e R$ 650 bilhões, frente aos R$ 594,4 bilhões da safra atual. O tamanho do programa já não é o único parâmetro: entidades do agronegócio exigem juros menores e crédito efetivo na ponta. Pede-se maior subvenção real, além de foco em custeio, seguro rural e armazenagem.

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