
SÃO NICOLAU — Às vésperas da abertura da Expoagro, principal vitrine agroindustrial da Argentina, lideranças empresariais e executivos do setor levaram uma mensagem central: o país precisa acelerar a atividade econômica e melhorar condições estruturais para restaurar competitividade em um cenário internacional instável e de desafios internos.
O encontro, realizado como tradicional “prévia” da feira — que celebra 20 anos — reuniu representantes da indústria, do agronegócio e autoridades. Em meio a um clima de expectativa, o diagnóstico foi compartilhado: sem ambiente macroeconômico estável, infraestrutura adequada e acesso a crédito, a retomada tende a ser lenta.
Em declarações durante o evento, o vice-presidente da União Industrial da Argentina (UIA), David Uriburu, ressaltou que a crise geopolítica e as tensões comerciais globais elevam a complexidade para países exportadores e importadores de insumos.
“Na Argentina, temos um problema de atividade”, alertou Uriburu, ao relacionar o desempenho econômico local à capacidade de competir de forma sustentada.
Segundo ele, a indústria argentina tem capacidade produtiva e técnica para entregar qualidade, manter empregos e qualificar trabalhadores, mas enfrenta restrições fora do ambiente fabril. O ponto central, afirmou, está nas condições macroeconômicas e regulatórias, além de fatores como carga tributária, infraestrutura insuficiente e custos trabalhistas elevados.
Uriburu defendeu que, com correções nesses desequilíbrios, as empresas podem competir em melhores condições. Para ele, o problema não se limita ao debate sobre importações, mas ao tema mais amplo da competitividade sistêmica.
Foco para competitividade: atividade econômica, regras claras, infraestrutura, tributação equilibrada, custo de produção e acesso a crédito.
De acordo com Uriburu, o setor mantém conversas com autoridades para influenciar mudanças que destravem a produção. Ele avaliou que, após um primeiro período de ajustes no plano macroeconômico, o próximo passo é atuar em medidas microeconômicas que viabilizem reativação e investimentos.
Outro ponto enfatizado foi o financiamento. Para os empresários, a oferta de crédito é essencial para ampliar produção, modernizar plantas e sustentar cadeias de fornecedores. Sem esse suporte, a retomada tende a ocorrer de forma fragmentada.
Tributação elevada e complexidade regulatória;
Infraestrutura precária que encarece logística;
Custo trabalhista e incerteza sobre regras;
Baixo acesso a crédito e demora na execução de financiamentos;
Volatilidade que reduz previsibilidade para investimento.
Pelo setor de máquinas agrícolas, Sérgio Fernández, presidente da John Deere, descreveu um panorama de cautela. Segundo ele, a combinação de um ambiente global marcado por conflitos e incertezas, com um mercado doméstico lento, mantém o setor em compasso de espera.
“Tudo está muito lento e estamos esperando para ver o que acontece, principalmente com financiamento”, afirmou.
Fernández disse que o país vive uma fase de decisões postergadas, com sinais de lentidão no varejo e na liberação de empréstimos. Ainda assim, apontou a Expoagro como um espaço relevante para impulsionar negócios e medir o apetite por investimentos, sobretudo quando há instrumentos financeiros disponíveis.
O executivo também destacou a trajetória industrial da empresa no país, com décadas de produção local, atravessando diferentes ciclos econômicos e políticos. Sobre uma maior abertura às importações, reconheceu que o aumento da concorrência impõe desafios adicionais, mas avaliou que companhias com estratégia e estrutura podem se adaptar.
Para ele, entretanto, permanece um problema recorrente: a falta de previsibilidade. “A volatilidade não é amiga das ações futuras”, indicou, ao explicar que incertezas reduzem planejamento e investimentos de longo prazo.
Na frente exportadora, Luis Zubizarreta, dirigente da Câmara Argentina de Biocombustíveis (Carbio), também apontou expectativas moderadas diante de um cenário internacional turbulento. Segundo ele, guerras e tensões comerciais ampliam incertezas sobre mercados e regras de acesso, ao mesmo tempo em que o ambiente interno continua desafiador.
Apesar disso, Zubizarreta citou um fator positivo: a melhora climática e a possibilidade de uma colheita recorde, o que tende a sustentar oferta de matérias-primas e gerar estímulos para segmentos conectados ao campo.
O dirigente afirmou ainda que o setor acompanha sinais de política econômica ligados a tributos sobre exportação, interpretando que mudanças podem ocorrer de forma gradual, mas indicariam direção.
Zubizarreta mencionou preocupações com obstáculos regulatórios e comerciais, incluindo a possibilidade de o biodiesel de soja enfrentar restrições em mercados externos, o que o setor considera uma medida complexa e inaceitável.
A leitura predominante entre os participantes do encontro é que a Expoagro, ao reunir indústria, produtores e fornecedores, funciona como termômetro do nível de confiança e da disposição para investir. Em um ambiente de incertezas, as discussões convergiram para três pilares:
Mais atividade econômica para sustentar produção e emprego;
Crédito e financiamento para destravar compras e modernização;
Previsibilidade regulatória e macroeconômica para orientar decisões.
Com o setor agroindustrial buscando preservar competitividade e ampliar capacidade de resposta a choques internacionais, as lideranças indicaram que a agenda de reformas e melhorias estruturais será determinante para o ritmo de retomada. O recado, às vésperas da feira, foi direto: sem condições equilibradas “fora da fábrica”, não há produtividade que sustente a disputa global.
Tema Mensagem do setor Competitividade A indústria afirma ser eficiente internamente, mas sofre com custos e gargalos externos. Atividade econômica Acelerar a economia é visto como essencial para recuperar dinamismo e emprego. Crédito Financiamento é apontado como chave para reativar compras, produção e investimento. Previsibilidade Volatilidade desestimula planejamento e decisões de longo prazo. Exportações e regulação Há preocupação com barreiras e restrições externas, especialmente para biocombustíveis.

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