
Expoagro 20 anos: setor agroindustrial argentino debate crédito, macroeconomia e melhoria da competitividade
Resumo: A Expoagro YPF Agro, que celebra 20 anos, reuniu empresários, autoridades e líderes do agro em Buenos Aires para debater a situação econômica da Argentina e a necessidade de mais atividade para melhorar a competitividade. Entre os presentes estiveram Maurício Macri e Axel Kicilloff. O debate destacou que, embora a indústria tenha capacidade de competir, enfrenta entraves macroeconômicos como carga tributária elevada, infraestrutura deficiente e custos trabalhistas, além da necessidade de acesso a crédito e financiamento. Sérgio Fernández, da John Deere, comentou sobre um cenário global incerto e a lentidão no financiamento, ressaltando a Expoagro como oportunidade para instrumentos financeiros. Luis Zubizarreta, da CARBIO, mostrou otimismo moderado diante de uma possível safra recorde, mas alertou para riscos regulatórios e comerciais, como a possível inclusão do biodiesel de soja na lista negra da Europa. No conjunto, o setor pediu equilíbrio macroeconômico, mais crédito e previsibilidade para manter a indústria e o campo competitivos.
Expoagro na Argentina: empresários pedem mais atividade econômica e previsibilidade para recuperar competitividade
SÃO NICOLAU — Às vésperas da abertura da Expoagro, principal vitrine agroindustrial da Argentina, lideranças empresariais e executivos do setor levaram uma mensagem central: o país precisa acelerar a atividade econômica e melhorar condições estruturais para restaurar competitividade em um cenário internacional instável e de desafios internos.
O encontro, realizado como tradicional “prévia” da feira — que celebra 20 anos — reuniu representantes da indústria, do agronegócio e autoridades. Em meio a um clima de expectativa, o diagnóstico foi compartilhado: sem ambiente macroeconômico estável, infraestrutura adequada e acesso a crédito, a retomada tende a ser lenta.
Contexto internacional e gargalos internos ampliam pressão sobre a competitividade
Em declarações durante o evento, o vice-presidente da União Industrial da Argentina (UIA), David Uriburu, ressaltou que a crise geopolítica e as tensões comerciais globais elevam a complexidade para países exportadores e importadores de insumos.
“Na Argentina, temos um problema de atividade”, alertou Uriburu, ao relacionar o desempenho econômico local à capacidade de competir de forma sustentada.
Segundo ele, a indústria argentina tem capacidade produtiva e técnica para entregar qualidade, manter empregos e qualificar trabalhadores, mas enfrenta restrições fora do ambiente fabril. O ponto central, afirmou, está nas condições macroeconômicas e regulatórias, além de fatores como carga tributária, infraestrutura insuficiente e custos trabalhistas elevados.
Uriburu defendeu que, com correções nesses desequilíbrios, as empresas podem competir em melhores condições. Para ele, o problema não se limita ao debate sobre importações, mas ao tema mais amplo da competitividade sistêmica.
Foco para competitividade: atividade econômica, regras claras, infraestrutura, tributação equilibrada, custo de produção e acesso a crédito.
Empresários destacam diálogo com o governo e necessidade de avançar no “micro”
De acordo com Uriburu, o setor mantém conversas com autoridades para influenciar mudanças que destravem a produção. Ele avaliou que, após um primeiro período de ajustes no plano macroeconômico, o próximo passo é atuar em medidas microeconômicas que viabilizem reativação e investimentos.
Outro ponto enfatizado foi o financiamento. Para os empresários, a oferta de crédito é essencial para ampliar produção, modernizar plantas e sustentar cadeias de fornecedores. Sem esse suporte, a retomada tende a ocorrer de forma fragmentada.
Pontos citados como entraves estruturais
Tributação elevada e complexidade regulatória;
Infraestrutura precária que encarece logística;
Custo trabalhista e incerteza sobre regras;
Baixo acesso a crédito e demora na execução de financiamentos;
Volatilidade que reduz previsibilidade para investimento.
Máquinas agrícolas: indústria “expectante” e com desempenho baixo
Pelo setor de máquinas agrícolas, Sérgio Fernández, presidente da John Deere, descreveu um panorama de cautela. Segundo ele, a combinação de um ambiente global marcado por conflitos e incertezas, com um mercado doméstico lento, mantém o setor em compasso de espera.
“Tudo está muito lento e estamos esperando para ver o que acontece, principalmente com financiamento”, afirmou.
Fernández disse que o país vive uma fase de decisões postergadas, com sinais de lentidão no varejo e na liberação de empréstimos. Ainda assim, apontou a Expoagro como um espaço relevante para impulsionar negócios e medir o apetite por investimentos, sobretudo quando há instrumentos financeiros disponíveis.
O executivo também destacou a trajetória industrial da empresa no país, com décadas de produção local, atravessando diferentes ciclos econômicos e políticos. Sobre uma maior abertura às importações, reconheceu que o aumento da concorrência impõe desafios adicionais, mas avaliou que companhias com estratégia e estrutura podem se adaptar.
Para ele, entretanto, permanece um problema recorrente: a falta de previsibilidade. “A volatilidade não é amiga das ações futuras”, indicou, ao explicar que incertezas reduzem planejamento e investimentos de longo prazo.
Agroindústria exportadora: colheita pode favorecer, mas há risco regulatório
Na frente exportadora, Luis Zubizarreta, dirigente da Câmara Argentina de Biocombustíveis (Carbio), também apontou expectativas moderadas diante de um cenário internacional turbulento. Segundo ele, guerras e tensões comerciais ampliam incertezas sobre mercados e regras de acesso, ao mesmo tempo em que o ambiente interno continua desafiador.
Apesar disso, Zubizarreta citou um fator positivo: a melhora climática e a possibilidade de uma colheita recorde, o que tende a sustentar oferta de matérias-primas e gerar estímulos para segmentos conectados ao campo.
O dirigente afirmou ainda que o setor acompanha sinais de política econômica ligados a tributos sobre exportação, interpretando que mudanças podem ocorrer de forma gradual, mas indicariam direção.
Alerta do setor
Zubizarreta mencionou preocupações com obstáculos regulatórios e comerciais, incluindo a possibilidade de o biodiesel de soja enfrentar restrições em mercados externos, o que o setor considera uma medida complexa e inaceitável.
O que a Expoagro sinaliza para 2026: atividade, crédito e regras claras
A leitura predominante entre os participantes do encontro é que a Expoagro, ao reunir indústria, produtores e fornecedores, funciona como termômetro do nível de confiança e da disposição para investir. Em um ambiente de incertezas, as discussões convergiram para três pilares:
Mais atividade econômica para sustentar produção e emprego;
Crédito e financiamento para destravar compras e modernização;
Previsibilidade regulatória e macroeconômica para orientar decisões.
Com o setor agroindustrial buscando preservar competitividade e ampliar capacidade de resposta a choques internacionais, as lideranças indicaram que a agenda de reformas e melhorias estruturais será determinante para o ritmo de retomada. O recado, às vésperas da feira, foi direto: sem condições equilibradas “fora da fábrica”, não há produtividade que sustente a disputa global.
Resumo dos principais pontos
Tema Mensagem do setor Competitividade A indústria afirma ser eficiente internamente, mas sofre com custos e gargalos externos. Atividade econômica Acelerar a economia é visto como essencial para recuperar dinamismo e emprego. Crédito Financiamento é apontado como chave para reativar compras, produção e investimento. Previsibilidade Volatilidade desestimula planejamento e decisões de longo prazo. Exportações e regulação Há preocupação com barreiras e restrições externas, especialmente para biocombustíveis.




