
A inadimplência no crédito rural voltou a avançar e alcançou um novo recorde entre produtores rurais pessoas físicas em fevereiro, segundo dados das Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas pelo Banco Central. O índice chegou a 7,4% nas operações com mais de 90 dias de atraso, reforçando a pressão financeira enfrentada pelo campo e ampliando a atenção do mercado sobre as condições de financiamento no agronegócio.
Na comparação anual, a alta é expressiva: no mesmo mês do ano anterior, o indicador era de 2,9%, evidenciando a aceleração recente dos atrasos. O avanço também ocorreu em relação a janeiro, quando a inadimplência estava em 7,1%. Antes do salto observado a partir de 2024, o maior patamar registrado para a categoria havia sido 3,3%, em outubro de 2017.
O Banco Central aponta que o recorde entre pessoas físicas é impulsionado principalmente pelas operações com taxas de mercado. Nessa modalidade, a inadimplência atingiu 13,8% em fevereiro, nível inédito na série histórica iniciada em 2011. No mesmo mês do ano anterior, esse percentual era de 4,7%.
Já nas linhas com juros controlados, o atraso também aumentou, subindo para 2,8%, ante 1,4% na comparação anual. Apesar do crescimento, esse patamar não representa recorde: em 2017 e 2018, o índice chegou a 3%.
O aumento da inadimplência revela um ambiente mais desafiador para o financiamento no campo, sobretudo nas operações com taxas livres, onde o atraso superou dois dígitos.
No segmento de pessoas jurídicas, a inadimplência também subiu, mas permaneceu em níveis bem inferiores aos observados entre pessoas físicas. Em fevereiro, o índice geral chegou a 0,7%. Nas operações com taxas de mercado, o percentual foi de 0,8%. Já nos financiamentos com juros controlados, houve recuo, de 0,4% para 0,3%.
Apesar do aumento da inadimplência, o volume total de recursos direcionados aplicados em operações de crédito rural segue elevado. Em fevereiro, o saldo para pessoas físicas somou R$ 572,9 bilhões, sendo:
R$ 332,1 bilhões em operações a taxas controladas;
R$ 240,8 bilhões em operações a juros de mercado.
Para pessoas jurídicas, o saldo registrado foi de R$ 114,6 bilhões, conforme os dados oficiais.
Indicador Pessoas físicas Pessoas jurídicas Inadimplência total (> 90 dias) 7,4% 0,7% Taxas de mercado 13,8% 0,8% Juros controlados 2,8% 0,3%
Outro ponto destacado pelo Banco Central é a desaceleração nas concessões de crédito rural no período. Em fevereiro, foram liberados R$ 9,7 bilhões em operações para pessoas físicas. Em janeiro, o desembolso foi de R$ 10 bilhões, e em dezembro, de R$ 18,3 bilhões.
Na comparação anual, a redução é ainda mais acentuada: em fevereiro do ano anterior, as concessões haviam alcançado R$ 11,6 bilhões em operações a taxas livres e reguladas. O movimento pode refletir maior cautela do sistema financeiro diante do aumento dos atrasos, além de mudanças no apetite ao risco e no custo do dinheiro.
Considerando o acumulado do Plano Safra 25/26, de julho do ano anterior até fevereiro, o Banco Central contabiliza R$ 152,2 bilhões em concessões de crédito rural para pessoas físicas. Segundo o levantamento, mais de dois terços desse total foi direcionado a linhas com taxas controladas.
A taxa média de juros no período ficou em 11,7% ao ano, com quedas mensais. Em fevereiro, ao considerar apenas o mês, a taxa apontada foi de 10,2% ao ano.
Nas operações com taxas de mercado, a redução foi mais intensa ao longo do ano-safra: o custo começou em 16,8% ao ano, em julho, e recuou para 12,4% ao ano em fevereiro.
Já nas linhas de juros regulados, a trajetória também foi de queda, saindo de 10% ao ano para 8,6% ao ano, considerando todas as linhas e públicos.
O recorde de inadimplência em crédito rural entre pessoas físicas reforça um cenário de maior pressão sobre o caixa do produtor e pode trazer efeitos em cadeia, como:
Maior rigor na concessão de novos financiamentos, especialmente nas linhas com taxas de mercado;
Reprecificação do risco e exigência de garantias mais robustas;
Impactos no custeio e investimento da atividade agropecuária, com reflexos em produtividade e planejamento;
Pressão sobre renegociações e demanda por instrumentos de gestão de risco financeiro.
Com o crédito rural sendo peça central para custeio e investimento no agronegócio, a evolução dos atrasos e do volume de concessões tende a seguir no radar de produtores, instituições financeiras e formuladores de políticas, especialmente diante da diferença crescente entre o desempenho das linhas com juros controlados e aquelas com taxas de mercado.

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