
Motoristas que transportam a safra de soja enfrentaram longas horas — e até dias — de espera na região do porto de Miritituba, no Pará, em condições descritas como precárias, com falta de acesso a água potável, banheiro e locais adequados para descanso.
Caminhoneiros responsáveis por escoar a safra de soja de 2026 relataram uma rotina de desgaste físico, risco sanitário e prejuízo financeiro ao tentar chegar ao porto de Miritituba, no Pará — um dos principais pontos de embarque do Arco Norte, que recebe grãos vindos, sobretudo, do Mato Grosso. No fim de fevereiro, a fila de caminhões chegou a 45 km, avançando pela BR-163 e transformando a rodovia em área de espera.
“A situação era precária. Banho era no igarapé, banheiro era o mato. Não tem o que fazer”, relatou o caminhoneiro Álvaro José Dancini, que permaneceu dois dias na fila. Segundo ele, a falta de estrutura básica torna o período de espera ainda mais difícil, especialmente para quem precisa permanecer dentro do veículo por longos intervalos.
O motorista Jefferson Bezerra contou que ficou 40 horas parado na estrada e, depois, mais 12 horas aguardando já dentro do porto. “Quem tinha alguma coisa dentro do caminhão, comia. Quem não tinha, ficava com fome. Ainda bem que os postos ali mais próximos passavam com carro dando água para nós”, afirmou.
Além do desconforto, a espera prolongada afeta o cotidiano e a renda dos profissionais. O caminhoneiro Renan Galina explicou que o tempo parado significa queda imediata no faturamento. “A gente depende de fazer os fretes. Então, se você fica três dias parado numa fila, é três dias que você não está recebendo nada, porque eles não pagam a estadia. É só prejuízo”, disse.
O congestionamento, de acordo com relatos, se repete todos os anos durante a safra — especialmente entre janeiro e a primeira quinzena de março. Para Bezerra, o período que deveria ser o mais rentável do ano acaba comprometido. “O caminhão que era para estar viajando, trabalhando, fica parado na fila. O faturamento cai até para menos da metade. A gente aguarda o ano todo para fazer essa safra, para pagar as dívidas do caminhão. Mas vem a fila, e na hora de pagar as contas, a gente não consegue faturar”, declarou.
Ponto-chave: caminhoneiros relatam que a ausência de pátio e estrutura sanitária faz com que a rodovia seja usada como área de espera, elevando riscos e prejuízos.
O engarrafamento em Miritituba é um retrato de dificuldades mais amplas do transporte de grãos no Brasil. Entre os fatores apontados por especialistas, estão:
Concentração de caminhões chegando aos portos ao mesmo tempo, devido ao grande volume de produção;
Falta de armazéns suficientes para estocar grãos e distribuir melhor o fluxo;
Dependência do transporte rodoviário, que carrega menos do que ferrovias e hidrovias;
Estradas sem pavimento ou em más condições, o que encarece e atrasa o escoamento.
A diretora executiva da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Fernanda Rezende, avalia que a carga agrícola seria mais eficiente em modais voltados a grandes volumes. “Esse tipo de carga seria ideal para trafegar por modalidades que têm a vocação de transportar grandes volumes de carga, com um custo de transporte menor, que seriam as ferrovias e as hidrovias”, afirmou.
No entanto, o escoamento ainda ocorre majoritariamente por caminhões, que transportam menos carga e consomem mais combustível. O professor Thiago Péra, do grupo de pesquisa e extensão em logística da Esalq-USP, exemplificou que um caminhão consome cerca de um litro de diesel a cada 2 km no transporte de grãos. Em uma viagem de 2 mil km até o porto de Santos, o consumo pode chegar a mil litros.
Para ele, as grandes distâncias e a estrutura limitada reduzem a competitividade do agronegócio. “Essa é uma questão infraestrutural importante no transporte, que traz uma perda da competitividade do agronegócio brasileiro”, disse.
Em Miritituba, os caminhoneiros destacam que o acesso ao porto ocorre exclusivamente por rodovia, e que a capacidade de recepção dos terminais não acompanha o volume de cargas no pico da safra. Jefferson Bezerra resumiu a situação: “Os portos não têm pátio suficiente para caminhão e usam a rodovia como área de espera”.
A baixa qualidade das rodovias aprofunda o problema. De acordo com dados citados pela CNT, apenas cerca de 12,4% das estradas brasileiras são pavimentadas. Isso inclui também as estradas vicinais, que conectam as regiões produtoras às rodovias principais e, muitas vezes, são trechos sem asfalto e com pouca estrutura.
Buracos e má sinalização elevam custos e acidentes. “Isso causa um aumento do custo de transporte. Porque, basicamente, as rodovias em condições precárias reduzem a velocidade do caminhão, aumentam gastos com pneu, com manutenção e, principalmente, aumenta o consumo de combustível”, explicou Péra.
Os motoristas relatam prejuízos frequentes com quebras e danos mecânicos. Bezerra contou que o caminhão quebrou depois de passar por um buraco em fevereiro. Dancini reforçou: “A estrada está se desmanchando em buraco. Histórias de prejuízo, todos os dias. É uma mola que quebra, é um eixo que quebra”.
Outro fator decisivo para o congestionamento é a insuficiência de armazenamento. Rezende explicou que o país registra recordes de produção, mas a infraestrutura não cresce no mesmo ritmo. “A gente bate recorde de produção, só que a infraestrutura não acompanha. Então, a gente tem um primeiro gargalo ali, ainda na lavoura”, afirmou.
Segundo dados citados pela CNT, o Brasil consegue armazenar cerca de 80% da produção agrícola. Na prática, isso força o escoamento imediato do volume colhido. “Tudo que é produzido hoje tem que ser escoado de forma imediata. Então, acaba fazendo com que o caminhão vire um armazém”, disse Rezende.
Péra acrescentou que, com todos os caminhões saindo ao mesmo tempo para exportação, o gargalo migra para o porto: “Aí vão todos os caminhões simultaneamente entregar para a exportação. Só que chega lá no porto, ele não tem capacidade, muitas vezes, de recepção de todo esse volume”.
Com caminhões retidos em filas, diminui a oferta de veículos disponíveis, o que contribui para a alta do frete durante a colheita. O impacto é sentido em cadeia, desde o produtor até o consumidor final.
O aumento do custo logístico não afeta apenas empresas exportadoras. Especialistas apontam que o encarecimento do transporte entra na conta do consumidor. “Tudo isso encarece o nosso custo do Brasil, que é um conjunto de distorções que torna a nossa economia mais cara. Então a gente tem bens e serviços mais caros no país por conta dessa infraestrutura precária”, explicou Péra.
Rezende destacou ainda que rotas longas e poucas alternativas elevam tempo de viagem e consumo de combustível. “O problema é que você tem que percorrer distâncias muito maiores para você chegar no mesmo destino”, afirmou.
Para especialistas, a solução passa por ampliar a infraestrutura, recuperar estradas e diversificar o transporte com maior participação de ferrovias e hidrovias. Péra avaliou que o investimento ainda é baixo quando comparado a outros países, e que o volume exportado cresce mais rápido do que a expansão da estrutura necessária.
Rezende defendeu integração entre modalidades para tornar o fluxo mais eficiente. “Quando você tem integração entre as modalidades, você faz com que esse transporte seja eficiente”, disse.
Gargalo Efeito direto Falta de pátio e estrutura nos portos Fila na rodovia, espera prolongada e condições sanitárias precárias Baixa capacidade de armazenagem Caminhões chegam simultaneamente; pico de demanda e congestionamentos Estradas ruins e longas distâncias Maior consumo de combustível, manutenção, atrasos e aumento do custo logístico Dependência do modal rodoviário Menor eficiência para grandes volumes e maior custo por tonelada transportada
Enquanto o fluxo recorde de grãos pressiona a logística, caminhoneiros seguem enfrentando filas extensas e infraestrutura insuficiente. A combinação de alta demanda, pouca armazenagem, estradas precárias e capacidade limitada nos portos mantém o risco de novos congestionamentos — e reforça a necessidade de medidas que protejam o trabalho, a saúde e a segurança de quem sustenta o transporte da safra no país.

Relatório Frete Insights mostra alta de 20% no preço médio do frete, mesmo com redução de 22% no volume nacional de cargas; Estudo identifica os corredores logísticos mais pressionados do país.

Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), toda a carga transportada no território brasileiro utiliza em torno de 61% de rodovias, enquanto ferrovias respondem por cerca de 21% e hidrovias por volta de 14%. As rodovias abrangem quase todo o território nacional, com exceção de áreas amazônicas, e estão concentradas nos polos econômicos das regiões Sudeste e Sul.

Rondonópolis, no sudeste de Mato Grosso, a cerca de 215 km de Cuiabá, é conhecida como a Capital Nacional do Agronegócio e abriga o maior terminal ferroviário de grãos da América Latina, operado pela Rumo Logística, com capacidade de 40 milhões de toneladas por ano. No auge da safra, chegam até....

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