
Um novo episódio de tensão no Oriente Médio elevou a preocupação de agentes do agronegócio brasileiro com possíveis impactos sobre segurança alimentar, logística internacional e custos de produção. O foco está especialmente na relação comercial com o Irã, um dos principais parceiros do Brasil no setor agrícola, tanto na compra de grãos quanto no fornecimento de insumos estratégicos.
Embora ainda seja cedo para dimensionar efeitos práticos sobre embarques e preços, lideranças do setor e consultores avaliam que uma escalada do conflito pode afetar o país por diferentes vias: desde o fluxo de exportações até o custo de combustíveis e fertilizantes, itens que influenciam diretamente o preço final dos alimentos.
Entre os pontos mais sensíveis está a exportação de milho. No último ano, o Irã foi o principal importador do milho brasileiro, com aquisição de aproximadamente 9 milhões de toneladas. Além do milho, o país também compra do Brasil soja (em grãos e farelo) e açúcar.
Ao mesmo tempo, o Irã tem relevância no abastecimento de ureia, fertilizante amplamente utilizado no cultivo de milho e em outras culturas. Essa dependência torna o cenário mais delicado: qualquer restrição comercial, dificuldade logística ou aumento de custos pode repercutir no planejamento de safra e na formação de preços no campo.
“O ataque foi no final de semana, ainda não sabemos dos reflexos que isso vai trazer para o milho. Normalmente, quando é questão de alimentos, a gente imagina que, por questão humanitária, não sejam alvos.”
Paulo Bertolini, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho)
Segundo Bertolini, o milho se relaciona diretamente à segurança alimentar, o que poderia, em tese, preservar fluxos comerciais mesmo em contextos de instabilidade. Apesar disso, ele pondera que o papel do Irã como fornecedor de ureia exige cautela: ainda é prematuro cravar que não haverá reflexos para o Brasil.
Ponto de atenção: o risco imediato não se limita ao comércio de grãos. A possível pressão sobre fertilizantes e energia pode afetar custos e, por consequência, a inflação de alimentos.
Item Relação com o Brasil Observação Milho Irã compra do Brasil Principal importador no último ano; cerca de 9 milhões de toneladas Soja (grão e farelo) Irã compra do Brasil Pode ser afetada por instabilidade logística e financeira Açúcar Irã compra do Brasil Depende de fluxo marítimo e condições de mercado Ureia Irã fornece ao Brasil Insumo crítico para produtividade; risco de preço e oferta
Outro componente central do alerta é a logística internacional. O Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa uma parcela relevante do comércio marítimo mundial, foi citado como ponto sensível por lideranças do setor. Em cenários de instabilidade, restrições à navegação ou aumento do risco no trajeto podem encarecer fretes, gerar atrasos e pressionar cadeias de suprimento.
Domingos Velho Lopes, presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), destacou que navios de petróleo enfrentam restrições para navegar pela região, o que tende a aumentar a preocupação de diversos segmentos ligados ao agro. Para exportadores, qualquer gargalo em rotas marítimas pode significar impacto imediato na competitividade e na previsibilidade de entregas.
“A cadeia está bem preocupada. Temos que continuar passando os navios pelo Ormuz.”
Domingos Velho Lopes, presidente da Farsul
A tensão também reverbera na cadeia de proteínas animais, especialmente na carne de frango. O Oriente Médio é um dos principais destinos do produto brasileiro. Em 2024, a região respondeu por 30% dos embarques, totalizando 1,579 milhão de toneladas. Desse volume, 455 mil toneladas foram destinadas aos Emirados Árabes Unidos e 370 mil toneladas à Arábia Saudita.
Com esse nível de dependência comercial, a continuidade e a segurança dos fluxos marítimos são tratadas como estratégicas. Qualquer interrupção, atraso ou aumento relevante de custos pode repercutir em contratos, margens do setor e disponibilidade de produto.
Risco logístico: atrasos e encarecimento de fretes podem reduzir competitividade.
Risco comercial: instabilidade pode gerar revisões de compras e prazos.
Risco de custos: combustíveis mais caros elevam despesas em toda a cadeia.
Uma intensificação do conflito também pode elevar os preços do petróleo no mercado internacional. Para o agro brasileiro, o efeito é direto: o setor depende fortemente de óleo diesel, tanto no funcionamento de máquinas agrícolas quanto no transporte da produção, majoritariamente feito por caminhões.
Com combustível mais caro, a tendência é de aumento no custo de produção e de escoamento, o que pode repercutir nos preços finais e na inflação de alimentos, especialmente em períodos de colheita e grande movimentação logística.
O consultor Carlos Cogo avalia que os reflexos podem ocorrer também de forma indireta, impulsionados por instabilidade econômica global. Segundo ele, o impacto nos mercados agrícolas tende a ocorrer por múltiplos canais.
“A valorização do petróleo melhora a competitividade dos biocombustíveis e reforça o suporte indireto à soja e ao milho, enquanto o aumento da incerteza global estimula compras financeiras defensivas em commodities.”
Carlos Cogo, consultor
O especialista ressalta que o efeito líquido sobre o comércio global de grãos ainda é incerto e depende da duração e da intensidade do conflito. Em outras palavras, um evento curto pode gerar volatilidade passageira; já um cenário prolongado pode alterar rotas, custos e estratégias de compra.
Para o Rio Grande do Sul, estado com forte participação na produção e exportação de grãos e proteína animal, o contexto exige atenção redobrada. Até o momento, não há registros de atrasos ou problemas em embarques, mas o setor acompanha de perto os desdobramentos no Oriente Médio.
O receio é que uma instabilidade prolongada pressione custos e comprometa a previsibilidade logística, com impacto direto sobre renda do produtor e sobre toda a cadeia produtiva, do insumo ao alimento no varejo.

Resumo: A Abramilho acompanha com apreensão a guerra entre EUA, Israel e Irã, destacando o Irã como principal parceiro comercial do Brasil nas exportações de milho. Entre 2020 e 2025, o Irã absorveu 9,08 milhões de toneladas de milho brasileiro, cerca de 20% das exportações brasileiras no último ano, com aproximadamente 80% do milho importado pelo Irã vindo do Brasil. O Irã também exporta ureia (184,7 mil toneladas no último ano), mas suas vendas diretas ao Brasil são limitadas por sanções; em 2025 o Brasil importou cerca de US$ 84 milhões em produtos iranianos. Há suspeitas de Triangulação de Carga para driblar restrições. No Brasil, a demanda interna supera a produção neste período, com a primeira safra em torno de 26 milhões de toneladas e o consumo no primeiro semestre chegando a cerca de 50 milhões de toneladas, com as exportações de milho previstas para se intensificarem a partir da segunda colheita. A entidade alerta que a escalada do conflito pode influenciar o cenário futuro, mas, enquanto não houver ataques que comprometam portos por razões humanitárias, o abastecimento interno de milho não deverá ser prejudicado.

Resumo: O fechamento do Estreito de Ormuz pode impactar o agronegócio de Minas Gerais ao elevar o custo do petróleo, combustíveis e fretes, pressionando a logística e o custo de produção. A crise tende a valorizar o dólar, o que, por um lado, pode favorecer exportações para o mercado árabe, mas, por outro, encarece fertilizantes, defensivos e máquinas importadas. O setor de fertilizantes, dependente de insumos importados, fica particularmente vulnerável à volatilidade de preços. A Faemg/Senar recomenda reforçar a gestão de risco, planejar compras de insumos com antecedência, usar instrumentos de proteção de preços e manter o fluxo de caixa sob controle, além de cobrar ações diplomáticas para reduzir impactos. Apesar dos riscos, há potencial de maior receita em reais com as exportações, desde que custos permaneçam sob controle.

Sumário: O PIB do setor agropecuário brasileiro cresceu 29,1% desde 2020, com 2025 registrando alta de 11,7% impulsionada por safras recordes na agricultura e pela recuperação da pecuária. Em 2024/25 houve safra de soja de 166 milhões de toneladas e milho de 142 milhões em 2025; para 2026, a projeção aponta queda do milho para 134 milhões e do arroz para 11,5 milhões (-2,2%), comrecados esperados para algodão, trigo e sorgo, enquanto a soja pode alcançar recorde de 173 milhões. A laranja atingiu 15,7 milhões de toneladas (+28,4%), o arroz 12,7 milhões (+19,4%) e o algodão 9,9 milhões (+11,4%). A cana-de-açúcar permanece estável. A produção de carne totalizou 33 milhões de toneladas em 2025, com a bovina dominando as exportações mundiais; no entanto, 2026 tende a trazer maior volatilidade e possível redução de oferta, influenciada pela demanda chinesa e por riscos geopolíticos, como a guerra no Irã. Café (+6%), cacau e batata também devem sustentar o PIB do setor.

Resumo: A agricultura regenerativa pode transformar uma propriedade de emissora de carbono para capturadora, armazenando carbono no solo na forma de matéria orgânica, com o solo como o segundo maior reservatório do planeta. O modelo aumenta biodiversidade, recupera ecossistemas e reduz custos a médio e longo prazo ao diminuir a dependência de insumos. Além disso, favorece a vida microbiana do solo e polinizadores, com sistemas integrados como ILPF e o uso de bioinsumos contribuindo para reduzir emissões de óxido nitroso e metano. Economicamente, pode gerar até US$ 1,4 trilhão em oportunidades e criar 62 milhões de empregos no mundo; no Brasil, tende a alinhar conservação ambiental e competitividade, ampliando acesso a mercados e financiamento verde por meio de rastreabilidade. A estabilidade de custos vem da menor dependência de insumos importados e do maior uso de processos biológicos. Embora associada à orgânica, a regenerativa foca em resultados ecológicos (sequestro de carbono, biodiversidade, melhoria do solo) em vez de proibições de insumos. Em transições, podem ocorrer insumos sintéticos pontuais, desde que avaliados por indicadores ambientais. Para iniciar, é essencial um diagnóstico detalhado do solo, identificação de problemas e medidas como bioinsumos, diversificação de culturas, rotação de plantios e plantio direto, com apoio de extensão rural e troca entre produtores já atuantes.

Resumo: A indústria brasileira de máquinas e equipamentos desacelerou em janeiro, com a receita líquida de vendas caindo 17% ante janeiro de 2025, para R$ 17,28 bilhões. No mercado interno, a receita recuou 19% (R$ 12,8 bilhões) e o consumo aparente caiu 21,5% (R$ 26,5 bilhões). As exportações chegaram a US$ 838,2 milhões, alta de 3,1% YoY, mas queda de 41,4% em relação a dezembro. As importações somaram US$ 2,48 bilhões, -10,3% YoY. O nível de utilização da capacidade instalada ficou em 78,6% (alta de 0,6 ponto percentual MoM e 4% frente a janeiro de 2025). O backlog de pedidos ficou em 9 semanas. A Abimaq projeta crescimento de 3,5% na produção e aproximadamente 4% na receita líquida do setor neste ano, sustentados principalmente pelo mercado doméstico, com expansão da demanda próxima de 5,6%, impulsionada por projetos de infraestrutura e investimentos continuados em atividades extrativistas. Em máquinas agrícolas, as vendas devem cair cerca de 5% em 2026; em janeiro, a receita com venda de máquinas e implementos caiu 15,6% YoY, para R$ 3,6 bilhões.