
Cercas invisíveis prometem mudar o manejo do gado no pasto
Com coleiras equipadas com GPS, produtores já conseguem delimitar áreas de pastejo por aplicativo; tecnologia avança no exterior e levanta discussões sobre eficiência, bem-estar animal e conectividade no campo.
A imagem parece saída de um futuro distante da pecuária: em vez de mourões, arames e porteiras, o produtor abre um aplicativo no celular, desenha os limites de um piquete sobre o mapa da propriedade e acompanha, em tempo real, a movimentação do rebanho. No campo, os bovinos não encontram uma barreira física, mas passam a respeitar uma divisa invisível criada por meio de coleiras inteligentes.
Conhecida como cerca virtual, a tecnologia tem origem no conceito de “cerca invisível” patenteado pelo norte-americano Richard Peck em 1973, inicialmente voltado ao controle de animais domésticos. Décadas depois, a ideia evoluiu para a pecuária com o uso de GPS, sensores, conectividade e aplicativos de gestão. Atualmente, empresas como Nofence, Vence/Merck Animal Health, Halter e eShepherd/Gallagher já comercializam sistemas para bovinos em diferentes mercados. O custo varia conforme a empresa e o tamanho do rebanho, mas referências internacionais indicam valores próximos de US$ 300 a US$ 350 por coleira, além de assinaturas que podem ficar entre US$ 30 e US$ 80 por animal ao ano. Em operações maiores, alguns sistemas também exigem estações-base, que podem elevar o investimento inicial. A Vence, por exemplo, apresenta um modelo com estação-base de US$ 10 mil a US$ 12,5 mil e custo recorrente de US$ 40 por coleira ao ano.
O funcionamento é simples para o produtor, mas sofisticado do ponto de vista tecnológico. Pelo celular ou computador, ele desenha a área onde os animais devem permanecer. As coleiras, equipadas com GPS, identificam a posição de cada bovino em relação ao limite virtual. Quando o animal se aproxima da divisa, recebe primeiro um sinal sonoro. Caso continue avançando, a coleira emite um pulso elétrico de baixa intensidade. Com o treinamento, a proposta é que o gado aprenda a responder ao aviso sonoro e evite o estímulo elétrico.
Na prática, a tecnologia busca substituir ou reduzir a necessidade de cercas internas em determinadas situações. O principal uso está no manejo rotacionado de pastagens, em divisões temporárias de piquetes, na proteção de áreas ambientais e no controle de lotes em regiões de difícil acesso. Em vez de deslocar equipes para instalar fios, estacas ou cercas móveis, o produtor pode redesenhar a área de pastejo pelo aplicativo.
Além da economia com estrutura física, a cerca virtual também se encaixa no avanço da pecuária de precisão. As coleiras não apenas delimitam áreas, mas também podem gerar dados sobre localização, movimentação e comportamento dos animais. Com isso, o sistema pode auxiliar decisões sobre lotação, descanso das pastagens, uso de áreas subaproveitadas e monitoramento do rebanho.
A tecnologia já tem respaldo em pesquisas científicas, embora ainda esteja em fase de expansão comercial. Uma revisão publicada na revista Agriculture aponta que os sistemas atuais se baseiam no aprendizado dos animais, que passam a associar o som da coleira ao limite da área permitida. Estudos com bovinos também indicam que, após o período inicial de adaptação, os animais tendem a responder mais ao sinal sonoro e a receber menos estímulos elétricos. Pesquisas publicadas em revistas como Animals e Frontiers in Veterinary Science avaliaram a contenção de bovinos por cercas virtuais e os impactos sobre comportamento e bem-estar, com resultados considerados promissores pelos autores.
Apesar do potencial, a tecnologia ainda enfrenta desafios importantes. O primeiro é o custo, especialmente para países onde o produto ainda não é amplamente comercializado. Também pesam a conectividade no campo, a durabilidade das coleiras, a precisão do GPS, a assistência técnica e a necessidade de treinamento adequado dos animais. Em áreas remotas ou com relevo complexo, falhas de sinal podem comprometer a eficiência do sistema.
Mais do que eliminar completamente as cercas tradicionais, a cerca invisível surge como uma nova ferramenta de manejo. Seu avanço deve ocorrer primeiro em usos específicos, como pastejo rotacionado, conservação de áreas sensíveis e gestão de rebanhos em grandes extensões. Em um setor pressionado por eficiência, sustentabilidade e redução de custos, a possibilidade de manejar o gado pelo celular já deixou de ser curiosidade tecnológica e começa a entrar no vocabulário da pecuária moderna.




