
Cidade do Agro quer aproximar campo e cidade em ecossistema permanente no Sul gaúcho
A Cidade do Agro, em implantação em Capão do Leão (RS), quer criar um ecossistema permanente de conexão entre produtores, empresas, universidades e sociedade. O projeto começa com áreas demonstrativas para empresas e prevê pesquisa, capacitação, turismo e eventos ao longo de todo o ano. A iniciativa nasceu após as enchentes de 2024, inspirada pela mobilização de produtores rurais no apoio às cidades atingidas.
Mais do que um espaço para eventos, a proposta da Cidade do Agro é criar um ambiente em que o agronegócio esteja em movimento durante os 365 dias do ano. Em implantação no município de Capão do Leão, no Sul do Rio Grande do Sul, o projeto pretende reunir produtores, empresas, universidades, instituições de pesquisa e a população urbana em torno de um mesmo objetivo: aproximar o campo da cidade e fortalecer as cadeias produtivas da região.
Atualmente, a iniciativa trabalha sobre aproximadamente 200 hectares, dentro de uma área que poderá chegar a 800 hectares no futuro. A implantação será feita em etapas, começando pelas chamadas unidades demonstrativas, espaços de cerca de 700 metros quadrados que funcionarão como showrooms a céu aberto para empresas apresentarem culturas, insumos, fertilizantes, tecnologias e outros produtos diretamente no campo.
Espaço projetado para a Cidade do Agro
A expectativa é que as primeiras unidades já estejam em funcionamento nesta safra, entre o fim de setembro e o início de outubro. Os espaços serão comercializados por períodos mínimos de 12 meses, permitindo que as empresas utilizem as áreas em diferentes épocas e acompanhem culturas de inverno e de verão, por exemplo.
A lógica é justamente diferente daquela encontrada tradicionalmente em grandes feiras agropecuárias. Em vez de concentrar encontros, demonstrações e negócios durante três ou quatro dias, a Cidade do Agro quer manter empresas, produtores e instituições conectados permanentemente.
“A gente não quer dissipar isso, porque o evento é muito importante e agrega muito. Mas, além disso, a gente quer ter recorrência o ano inteiro, a gente precisa de presença”, explicou Gustavo Lima, Líder de Relacionamento e Comercial da Cidade do Agro.
Do campo para a cidade
Um dos principais pilares da Cidade do Agro está na comunicação. Para os idealizadores, parte da dificuldade de relacionamento entre o agronegócio e a população urbana nasce justamente da incapacidade do próprio setor de explicar como os alimentos são produzidos e qual é o caminho percorrido antes de chegarem à mesa.
Nesse sentido, a proposta vai além da criação de áreas produtivas. Entre os planos está a estruturação de um instituto privado sem fins lucrativos, que deverá atuar na comunicação e articulação entre os diferentes integrantes das cadeias produtivas.
Dentro desse ambiente, o projeto também prevê a criação de um museu destinado a contar a evolução da agropecuária regional, desde a história das primeiras lavouras de arroz no Rio Grande do Sul até o desenvolvimento de máquinas, fertilizantes e novas tecnologias.
A intenção é permitir que pessoas sem contato direto com o meio rural compreendam melhor processos que fazem parte do cotidiano de quem trabalha no campo.
“Boa parte dessa história ainda fica dentro da porteira. A gente cria, planta, colhe, produz alimento, mas acaba não contando essa história”, destacou Pedro Borges, estagiário da Cidade do Agro.
A aproximação também deverá ocorrer de forma prática. O planejamento inclui espaços nos quais visitantes possam conhecer sistemas produtivos e, futuramente, participar de experiências como colher hortaliças diretamente no local. O turismo rural aparece, assim, como outra possibilidade de integração entre o campo e a população urbana.
Projeto nasceu em meio às enchentes de 2024
A origem da Cidade do Agro está diretamente relacionada a um dos momentos mais difíceis da história recente do Rio Grande do Sul: as enchentes de 2024.
Durante a emergência, produtores rurais da região utilizaram a experiência acumulada no manejo de água nas lavouras, especialmente na produção de arroz irrigado, para auxiliar áreas urbanas atingidas pelas inundações. Bombas, equipamentos e conhecimento sobre drenagem foram levados do campo para as cidades por meio do movimento Drenar.
Foi a partir daquela mobilização que surgiu uma reflexão: se diferentes integrantes do setor conseguiram se organizar durante uma catástrofe, por que não manter essa articulação para desenvolver permanentemente a região?
Construção por etapas
Apesar da dimensão do planejamento, a Cidade do Agro ainda está em fase de implantação e não possui uma data estabelecida para estar completamente concluída.
O planejamento inicial considera um horizonte aproximado de cinco anos, mas algumas etapas vêm sendo antecipadas conforme o projeto avança. Ambientes de relacionamento que inicialmente estavam previstos para o fim do próximo ano, por exemplo, já são estudados para começar a ser implantados ainda neste ano.
Paralelamente às unidades demonstrativas, estão sendo realizados trabalhos de infraestrutura, como adequações de estradas e organização da área.
Para o próximo ano, a proposta é promover também um dia de campo próprio da Cidade do Agro, reunindo empresas, apoiadores, produtores e interessados no projeto. Áreas específicas para pesquisa também estão sendo estruturadas e comercializadas.
No horizonte mais distante, os responsáveis já imaginam estruturas capazes de ampliar ainda mais a permanência de visitantes no local, incluindo a possibilidade de hospedagem.
Mais do que construir uma nova feira agropecuária, portanto, a Cidade do Agro pretende estabelecer uma plataforma permanente de relacionamento. Um lugar onde pesquisa, produção, negócios, educação e comunicação convivam durante todo o ano — e onde a história que começa dentro da porteira consiga chegar, finalmente, também a quem está do outro lado dela.




