
Expodireto Cotrijal 2026: RS em cautela, safra de soja de 19 milhões de t; fertilizantes sob pressão e milho em ascensão
Resumo: A Expodireto Cotrijal, um dos principais eventos do calendário agrícola brasileiro, ocorreu em Não-Me-Toque (RS) com ambiente de negócios mais cauteloso e sem divulgação do faturamento.
Expodireto Cotrijal termina com clima de cautela no campo e alerta para impactos na segurança alimentar
A edição mais recente da Expodireto Cotrijal, realizada nesta semana em Não-Me-Toque (RS), foi marcada por um tema que tem pressionado o setor agropecuário e repercute diretamente na economia e na cadeia de abastecimento: o endividamento agrícola, agravado por sucessivas frustrações de safra no Rio Grande do Sul. Considerada uma das principais feiras do calendário agrícola brasileiro, a exposição ocorre desde 2000 e só deixou de ser realizada em 2021, durante a pandemia.
Em um cenário de margens apertadas, custos elevados e oscilações de produtividade, o ambiente de negócios foi descrito como mais cauteloso. A organizadora do evento, a Cotrijal Cooperativa Agropecuária e Industrial, manteve a decisão adotada no ano anterior e não divulgou o volume de negócios encaminhados ao final da feira.
Cautela nas compras e foco em redução de riscos
Segundo o presidente da Cotrijal, Nei César Manica, a feira já foi conhecida por estimular compras com vantagens de preço, com empresas trazendo condições promocionais e descontos para atrair o produtor. Ainda assim, o tom neste ano foi de prudência.
O produtor está mais cauteloso. Não há a mesma euforia de comercialização de anos anteriores.
A leitura de expositores e agricultores ao longo da programação apontou para decisões mais conservadoras, com adiamento de investimentos e ajustes técnicos para reduzir custos, sobretudo em propriedades atingidas por instabilidade climática e queda de rentabilidade.
Safra de soja no RS: estimativa menor e impacto do clima
Durante o evento, a Emater apresentou uma estimativa para a safra no Rio Grande do Sul. O levantamento indica que a produção de soja — principal cultura do Estado — deve alcançar 19 milhões de toneladas, cerca de 11% abaixo do previsto inicialmente. O quadro foi agravado, mais uma vez, pela escassez de chuvas em determinadas regiões.
Esse tipo de frustração sucessiva cria um efeito em cadeia: eleva a necessidade de renegociação de dívidas, reduz a capacidade de investimento e aumenta o risco de decisões produtivas mais defensivas, com potencial de afetar o ritmo de adoção de tecnologias e a eficiência no campo.
Em destaque: a combinação de produtividade menor, custos altos e preços de venda pressionados foi apontada como um dos principais fatores por trás da cautela nas decisões de compra.
Produtor adia irrigação e reduz adubação
Em meio às incertezas, o produtor rural Luiz Fernando de Oliveira Branco, de Coxilha (RS), relatou que adiou investimentos que estavam previstos para 2026. A instalação de um sistema de irrigação ficou para o próximo período.
Para reduzir despesas, ele também ajustou o manejo e cortou em 20% a adubação aplicada na lavoura. Nas variedades precoces, a expectativa é colher em média 40 sacas de soja por hectare. No início da safra, a meta era atingir 65 sacas, patamar que ainda pode ser buscado nas variedades mais tardias, dependendo das condições climáticas.
O produtor resume a safra como uma temporada de alta expectativa seguida de nova frustração, pressionada por uma combinação de custos de produção, baixa produtividade e preços menos favoráveis na comercialização.
Fertilizantes: negociações mais lentas e risco logístico
No mercado de insumos, especialmente fertilizantes, a cautela também se reflete no ritmo de compras. De acordo com Eduardo Monteiro, executivo da Mosaic no Brasil, o avanço das aquisições em 2026 está mais lento do que no mesmo período de 2024.
A estimativa é de que cerca de 28% do volume projetado para o mercado brasileiro já tenha sido negociado, ante 38% no mesmo intervalo do ano anterior. A leitura do setor é que a postergação pode trazer consequências operacionais.
Essa postergação pode gerar concentração e estresse logístico, encarecendo custos portuários e fretes.
A pressão também aparece na relação de troca, influenciada pela desvalorização de commodities. No caso da soja, a referência informada foi de 26 sacas por tonelada de fertilizante, frente a 24 sacas no ano anterior e 20 sacas em 2020. Para o milho, a relação apontada foi de 61 sacas por tonelada, acima das 43 sacas de um ano atrás.
Resumo do cenário de insumos (relação de troca)
Indicador Referência mais recente Comparação citada Soja por tonelada de fertilizante 26 sacas 24 (ano anterior) | 20 (2020) Milho por tonelada de fertilizante 61 sacas 43 (ano anterior)
Milho ganha espaço como estratégia de resiliência
Apesar das incertezas na soja, o milho tem sustentado parte da demanda por tecnologia no Sul. Para Fabrício Passini, diretor de agronomia da Syngenta Seeds, a cultura vem ganhando espaço nas lavouras e tem sido considerada uma alternativa de resiliência dentro das propriedades, especialmente em períodos de rentabilidade pressionada.
A percepção compartilhada com produtores durante a feira é de que o milho tem ajudado a equilibrar a conta em algumas regiões, reforçando o interesse em ampliar área e buscar inovação na produção.
Produtores mais seletivos em investimentos
Busca por culturas com melhor retorno relativo
Estratégias para reduzir exposição ao risco climático e de preços
Máquinas agrícolas: mercado de novos trava e retrofit cresce
O segmento de máquinas e tecnologia embarcada também espelhou o momento do campo. Segundo Arthur Paratella, da fabricante italiana ROJ, o mercado de equipamentos novos está mais travado, enquanto cresce a demanda por modernização de máquinas existentes.
A avaliação é de que produtores têm optado por melhorias em equipamentos usados, com foco em custo-benefício. Nesse contexto, o retrofit — atualização técnica de máquinas já em operação — é visto como um mercado mais aquecido, por permitir ganho de desempenho sem o investimento necessário para aquisição de um equipamento novo.
O que muda na prática
Menor desembolso imediato em comparação com compra de máquinas novas
Atualização tecnológica para melhorar eficiência operacional
Decisões alinhadas a um ciclo de produção com maior incerteza
Por que o tema interessa ao público de saúde e bem-estar
Embora o debate seja agrícola, seus efeitos podem alcançar a sociedade como um todo. Oscilações na produtividade, custos de insumos e gargalos logísticos impactam a cadeia de alimentos, com reflexos potenciais sobre preços, disponibilidade e planejamento de abastecimento. Além disso, a instabilidade econômica no campo pode aumentar a pressão social em regiões dependentes do agronegócio, afetando renda e segurança alimentar.
Ao final, a Expodireto Cotrijal reforçou a mensagem central desta temporada: a combinação de clima adverso, custos elevados e endividamento tem levado o produtor a recalibrar prioridades, apostando em decisões mais conservadoras, otimização de recursos e escolhas tecnológicas com retorno mais imediato.




