
Levantamento aponta queda no volume importado no início de 2026, mas aumento expressivo no gasto. Entidade alerta para piora da relação de troca e maior vulnerabilidade do agronegócio a choques externos.
O Brasil importou menos fertilizantes entre janeiro e abril de 2026, mas desembolsou muito mais para garantir o abastecimento do campo. No período, o volume adquirido do exterior recuou de 7,7 milhões para 7,4 milhões de toneladas de nitrogenados e fosfatados em comparação com os primeiros quatro meses de 2025. Ainda assim, o gasto total subiu de US$ 3,7 bilhões para US$ 4,3 bilhões, um avanço de 16%, segundo levantamento divulgado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.
A leitura central do levantamento vai além do preço do insumo. O ponto mais sensível, de acordo com a entidade, é a perda de poder de compra do produtor rural, cenário que tende a reduzir margens, influenciar decisões de adubação e repercutir ao longo da cadeia produtiva — com potencial impacto na oferta de grãos e, indiretamente, no custo de alimentos.
Destaque: Para comprar a mesma quantidade de adubo, o produtor precisa vender mais sacas de soja ou milho do que em anos anteriores.
Entre os principais itens pressionados, a ureia — fertilizante nitrogenado amplamente utilizado — registrou alta média de 40% durante o período de escalada do conflito no Oriente Médio, conforme o levantamento. Já o MAP (fosfato monoamônio), um dos fosfatados mais relevantes para a agricultura brasileira, ficou 20% mais caro no mesmo intervalo.
Do lado da receita do produtor, a valorização das commodities não acompanhou o encarecimento dos fertilizantes. A soja avançou apenas 0,9% e o milho, 0,1%. Na prática, isso deteriora a chamada relação de troca — indicador que mede quantas sacas precisam ser vendidas para comprar uma tonelada de adubo.
O que é relação de troca?
É a comparação entre o preço do fertilizante e o preço do grão (como soja e milho). Quando o adubo sobe e o grão não, o produtor precisa entregar mais sacas para manter o mesmo pacote tecnológico.
De acordo com dados do projeto Campo Futuro, a relação de troca está no pior nível desde 2022 — ano marcado por forte choque no mercado global de fertilizantes devido à guerra entre Rússia e Ucrânia. A diferença, agora, é que em 2022 os preços de soja e milho operavam em patamares elevados e ajudavam a compensar parte do impacto. Em 2026, esse “amortecedor” praticamente não existe.
Segundo a entidade, o produtor sente o impacto antes mesmo do plantio: para assegurar o mesmo nível de adubação e produtividade, precisa comprometer mais parte da produção futura.
A pressão não é apenas interna. Indicadores internacionais mostram que os preços de fertilizantes seguem distantes do que era observado antes de 2022. Dados consolidados pelo Banco Mundial apontam que DAP, TSP, ureia e cloreto de potássio não voltaram ao nível pré-crise e voltaram a subir no início de 2026.
A avaliação é de que, após o choque de 2022, o mercado global não conseguiu se normalizar. Com isso, qualquer instabilidade geopolítica ou logística tende a se refletir rapidamente em preços e disponibilidade, especialmente em países com alta dependência de importação.
Diante do encarecimento, o padrão de compra começou a mudar. Em alguns meses de 2026, as importações de SAM (sulfato de amônio) superaram as de ureia. Entre os fosfatados, o TSP e o SSP ganharam espaço como alternativas ao MAP.
A escolha por substitutos, segundo a análise, reflete também a tentativa de reduzir exposição a rotas e origens mais afetadas por instabilidades no Oriente Médio. Ainda assim, a mudança de mix não elimina o impacto de custos — apenas ajuda a mitigar riscos e, em alguns casos, a organizar o fluxo de suprimento.
Nitrogenados: avanço do sulfato de amônio em alguns meses, superando a ureia.
Fosfatados: maior participação de TSP e SSP como substitutos do MAP.
Além de preços, também houve alteração no mapa de fornecedores. Em 2024, a Rússia liderava com 26% do volume importado pelo Brasil, enquanto a China respondia por 20%. Em 2025, ocorreu inversão: a China chegou a 26% e a Rússia recuou para 25%.
Na composição mais recente, Canadá (11%), Marrocos (5%) e Egito (4%) aparecem na sequência. Já entre fevereiro e abril de 2026, o Turcomenistão passou a figurar entre os cinco maiores fornecedores, com 8%, impulsionado pela demanda por potássicos, conforme dados de comércio exterior.
Fornecedor Participação citada Observação China 26% (2025) Assume liderança no ranking Rússia 25% (2025) Recuo relativo no período Canadá 11% Entre os principais fornecedores Marrocos 5% Participação relevante em fosfatados Egito 4% Complementa ranking de origem Turcomenistão 8% (fev-abr/2026) Entrada entre os cinco maiores, puxada por potássicos
O pano de fundo continua sendo a dependência externa. Em 2025, 93% dos fertilizantes consumidos no Brasil vieram do exterior. Isso transforma qualquer choque — conflito armado, sanções comerciais ou gargalos logísticos — em aumento quase imediato de custos no campo.
Por que isso importa? Fertilizantes são insumos essenciais para produtividade. Quando ficam mais caros, podem elevar o custo de produção, reduzir aplicação em algumas áreas e afetar a oferta de grãos que alimenta cadeias como carnes, ovos, leite e derivados.
A expectativa é de continuidade da pressão até o fim do ano. O período mais crítico, segundo a análise, tende a ocorrer porque as compras para a safra 2026/2027 se concentram no segundo semestre. Será justamente nesse momento que o ambiente de preços elevados e incertezas poderá determinar a margem do produtor e a estratégia de investimento em tecnologia e nutrição do solo.
Com custos mais altos e grãos sem forte reação, o risco é de que a necessidade de “entregar mais sacas” para comprar o mesmo pacote de fertilizantes continue comprimindo a rentabilidade. O resultado pode se refletir em decisões mais conservadoras no campo — com impactos em toda a cadeia do agronegócio e na formação de preços de produtos básicos.
Em resumo: o Brasil trouxe menos fertilizante, pagou mais, e o produtor rural enfrenta uma relação de troca pior — combinação que eleva a vulnerabilidade do setor e mantém a atenção voltada ao mercado internacional e ao custo dos insumos nos próximos meses.

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