
A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã passou a ser acompanhada com atenção por entidades do agronegócio brasileiro, diante do peso do mercado iraniano nas exportações de milho do Brasil e do papel do país do Oriente Médio na cadeia global de insumos nitrogenados. A avaliação é de que, no curto prazo, o Brasil tem capacidade de redirecionar embarques para outros destinos caso o Irã enfrente restrições para comprar o grão, mas o cenário exige monitoramento por causa de riscos logísticos e humanitários.
Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), o Irã se consolidou como principal parceiro comercial do Brasil nas exportações de milho. Ainda assim, diferentemente do que ocorre com a soja — cujo escoamento tende a se concentrar em menos compradores —, o milho brasileiro alcança uma carteira mais ampla de mercados, o que reduz a dependência de um único destino.
Os dados de embarques entre 2020 e 2025 apontam que o mercado iraniano mantém um padrão de compras robusto e contínuo. No ano passado, 9,08 milhões de toneladas de milho foram embarcadas do Brasil para o Irã, volume equivalente a cerca de 20% de toda a exportação brasileira do grão no período.
Para os iranianos, o Brasil também é um fornecedor estratégico: estima-se que aproximadamente 80% do milho importado pelo Irã tenha origem em lavouras brasileiras. Esse grau de dependência torna o país persa um cliente relevante, enquanto a escalada do conflito adiciona incertezas sobre a continuidade das compras e sobre as condições de transporte em rotas internacionais.
O milho do Brasil tem uma base de compradores mais diversificada, o que pode reduzir impactos imediatos caso o Irã diminua as aquisições.
A possibilidade de o Irã ficar impedido de realizar novas compras, seja por restrições de segurança, seja por sanções e dificuldades de pagamento ou de logística, não significa necessariamente perda total de mercado para o Brasil. A leitura predominante é que o país pode redistribuir volumes para outros importadores, dada a pulverização de destinos do milho brasileiro.
No entanto, o momento é sensível: o conflito pode alterar preços, prazos de entrega, custos de seguro e disponibilidade de navios, além de ampliar a volatilidade em commodities agrícolas e energéticas — fatores que, juntos, mexem com decisões de exportadores e compradores.
O Irã mantém uma relação de “mão dupla” com o agronegócio brasileiro, especialmente por meio de fertilizantes. No ano passado, o país exportou 184,7 mil toneladas de ureia para o Brasil. Mesmo assim, ele não ocupa o topo entre os fornecedores do insumo: Rússia e China aparecem à frente no abastecimento nacional.
Apesar de ser o terceiro maior produtor mundial de gás natural — matéria-prima central para a produção de nitrogenados —, as exportações diretas iranianas para o Brasil permanecem limitadas por sanções internacionais. Em 2025, o Brasil importou cerca de US$ 84 milhões em produtos iranianos, valor muito abaixo do volume financeiro movimentado com os grandes líderes do setor.
Por que isso importa?
Milho: risco de redução de compras por um dos maiores clientes do Brasil.
Ureia: possibilidade de oscilações no fluxo de nitrogenados e nos preços internacionais.
Logística: conflitos elevam custo de transporte, seguro e tempo de entrega.
No mercado, circula a suspeita de que o volume real de produtos iranianos — em especial cargas relacionadas a insumos — possa ser maior do que o registrado oficialmente. A hipótese levantada é a de que parte das cargas chegue ao Brasil sob bandeiras de outros países, como Nigéria, Omã ou Catar, como forma de contornar restrições e dificuldades de transações associadas a sanções.
Essa prática, se confirmada, adicionaria um componente de opacidade ao comércio e aumentaria a dificuldade de mensurar impactos reais do conflito sobre o abastecimento de fertilizantes e sobre os custos do produtor rural, com reflexos indiretos sobre preços de alimentos e cadeias relacionadas.
A Abramilho lembra que este período do ano é marcado por um descompasso entre consumo e produção no mercado interno. A primeira safra responde por cerca de 26 milhões de toneladas, enquanto o consumo no primeiro semestre chega a 50 milhões de toneladas, levando em conta também o estoque remanescente da segunda safra anterior.
Ao mesmo tempo, a entidade destaca que as exportações de milho tendem a ganhar força após a colheita do milho segunda safra, quando a disponibilidade do grão aumenta e o Brasil intensifica embarques. Esse contexto torna o monitoramento do cenário internacional ainda mais relevante: qualquer aumento de custos logísticos, atraso em portos ou restrição de rotas pode interferir no ritmo de exportações e na formação de preços domésticos.
Indicador Destaque Milho exportado ao Irã (ano passado) 9,08 milhões de toneladas (cerca de 20% do total exportado) Dependência do Irã do milho brasileiro Aproximadamente 80% das importações iranianas Ureia iraniana exportada ao Brasil (ano passado) 184,7 mil toneladas Importações brasileiras de produtos iranianos (2025) Cerca de US$ 84 milhões Produção da primeira safra Cerca de 26 milhões de toneladas Consumo no primeiro semestre Cerca de 50 milhões de toneladas (com estoques)
A entidade afirma que a escalada do conflito pode influenciar o cenário futuro, motivo pelo qual acompanha os desdobramentos de forma contínua. Ainda assim, a avaliação atual é que, desde que os ataques não se intensifiquem a ponto de comprometer portos por questões humanitárias, o abastecimento interno de milho não deve ser prejudicado.
Mesmo com a atenção voltada ao Oriente Médio, o fator decisivo para o mercado brasileiro segue sendo a combinação entre ritmo de colheita, demanda doméstica e custo logístico. Em um ambiente de incerteza internacional, a capacidade de o Brasil reposicionar seus embarques e manter o equilíbrio interno ganha ainda mais relevância para a segurança alimentar e para a previsibilidade de preços ao consumidor.

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