
Washington — Após a pressão inflacionária registrada no mercado de alimentos nos Estados Unidos nos últimos meses, o governo de Donald Trump decidiu isentar boa parte dos produtos agrícolas brasileiros de uma nova rodada de tarifas. A medida busca reduzir custos para o consumidor americano, que ainda sente os efeitos do tarifaço anterior e agora enfrenta também a escalada dos preços de combustíveis e insumos, com impacto direto no setor agropecuário.
Apesar de a alimentação ter peso relativamente menor no orçamento médio das famílias americanas — cerca de US$ 13,6 a cada US$ 100 gastos — os aumentos recentes foram suficientes para manter o tema no centro do debate econômico. No Brasil, a participação da comida no orçamento costuma ser bem maior, o que ajuda a explicar por que oscilações de preços ganham mais destaque por aqui. Ainda assim, nos EUA, a alta de itens básicos e a persistência de pressões sobre cadeias de abastecimento fizeram o governo recuar em parte das barreiras.
Embora o agronegócio brasileiro não tenha sido atingido com a mesma intensidade por novas tarifas neste ciclo, as taxas aplicadas anteriormente já haviam desgastado a relação comercial entre os dois países. O encarecimento do produto brasileiro levou importadores americanos a buscar alternativas em outros mercados. Mesmo com a retirada de uma taxa de 50% aplicada no período anterior, o Brasil ainda não recuperou integralmente a participação que tinha em alguns segmentos.
O caso do café é um dos mais emblemáticos. O produto é o principal item do setor na balança brasileira com os Estados Unidos. No primeiro trimestre de 2025, as exportações renderam US$ 785 milhões, mas caíram para US$ 532 milhões no mesmo período deste ano, de acordo com dados oficiais americanos.
A perda de mercado brasileiro coincidiu com o avanço de concorrentes. No início do ano passado, a Colômbia exportava menos café do que o Brasil para os EUA, mas agora supera os brasileiros em 46%. Outros países também ampliaram fortemente seus embarques, refletindo uma reorganização do fornecimento após as tarifas.
País Evolução das exportações de café (comparação com início de 2025) Leitura de mercado Honduras +158% Aproveitou espaço deixado por fornecedores mais caros Guatemala +104% Ganhou competitividade no curto prazo Alemanha +106% Aumentou participação via reexportações e processamento
Contexto: mesmo sem produzir café, países podem aumentar exportações por meio de processamento, blends e reexportação, dependendo da estrutura de comércio.
No mercado de carne bovina, a Austrália voltou a liderar as vendas para os Estados Unidos. Ainda assim, o Brasil conseguiu ampliar suas exportações no primeiro trimestre deste ano em 36% em relação ao mesmo período de 2025. Foram 120 mil toneladas enviadas ao mercado americano, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA. Já estimativas do setor apontam que o volume teria atingido 150 mil toneladas até abril.
O movimento ocorre em meio a uma tendência estrutural: a dependência americana de carne importada cresce conforme cai o número de cabeças de gado no país. No ano passado, os EUA desembolsaram US$ 14 bilhões com importações de carne, um aumento de 30% na comparação anual.
Alta por corte: alguns tipos de carne bovina acumulam aumento entre 15% e 18%.

Representantes da cadeia produtiva do leite, reunidos na Megaleite em Belo Horizonte, defenderam a necessidade de união entre produtores, indústrias e entidades de classe para enfrentar a perda de competitividade no Brasil. O evento também criticou a decisão do governo de não aplicar tarifas às importações de leite em pó, principalmente da Argentina e do Uruguai, mesmo após a comprovação de práticas de dumping. O presidente da Girolando, Alexandre Lacerda, destacou a....

Inflação de alimentos: no mesmo intervalo, a inflação média dos alimentos ficou em 3,2%, o que reforça o peso do item no orçamento.
Risco de repasse: restrições comerciais tendem a elevar preços em um mercado já apertado.
Mesmo com a retirada de parte das tarifas, a herança das medidas anteriores ainda aparece em diversos grupos de alimentos, como pescados, frutas e vegetais, que seguem com aumentos expressivos em 12 meses. Em paralelo, itens mais sensíveis a custos e logística — especialmente os de ciclo curto — vêm registrando altas ainda mais fortes.
Entre os exemplos, o tomate acumula aumento de 40% em 12 meses, evidenciando a rapidez com que choques de custos podem se refletir nos preços ao consumidor.
A inflação, porém, não se limita aos alimentos. Um novo fator de pressão para o bolso do consumidor americano ganhou força com o agravamento do conflito envolvendo Israel e Estados Unidos contra o Irã, que elevou custos de produção e logística. No campo, um dos principais impactos vem do avanço nos preços de fertilizantes, essenciais para a produtividade agrícola.
Além disso, os combustíveis passaram a pesar mais no transporte de alimentos e na operação de cadeias produtivas. Os custos com óleo combustível subiram 54% e os com gasolina, 28%, ampliando o risco de repasses ao consumidor e reduzindo a margem de produtores e distribuidores.
A decisão de isentar produtos agrícolas brasileiros também reflete um dado incômodo para o governo americano: itens nos quais o Brasil é líder global continuam caros no varejo. Em abril, o café em pó registrou alta de 18,5% em 12 meses. O café solúvel acumulou elevação ainda maior, de 23%.
Em outras palavras: impor barreiras sobre produtos com oferta global concentrada tende a reduzir a disponibilidade e elevar o preço final, tornando a política mais custosa para o consumidor doméstico.
Os Estados Unidos devem encerrar o ano fiscal corrente (de outubro a setembro) com um déficit de US$ 29 bilhões na balança do agronegócio. O número representa um alívio em comparação ao déficit de US$ 44 bilhões observado no ano fiscal anterior, mas ainda evidencia a dependência externa em diversos produtos.
No primeiro trimestre de 2026, o déficit já soma US$ 5 bilhões, reforçando um cenário em que a política comercial e as decisões sobre tarifas têm efeito direto sobre inflação, competitividade e abastecimento.
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Resumo: Nos EUA, houve a possibilidade de zerar a tarifa de 26,4% sobre a carne bovina brasileira. A exclusão da carne da lista de produtos sujeita à nova tarifa de 25% foi vista pelos exportadores como um alívio, mas não definitivo, já que a proposta ainda passará por consulta pública até a decisão final em julho. Entre os frigoríficos brasileiros, a exclusão é considerada suficiente para eliminar o risco de perda de competitividade no curto prazo. Em 2025, mesmo com sobretaxa de 50%, o setor ampliou as vendas aos EUA, com 271,8 mil toneladas embarcadas. Em....