
Déficit de armazenagem de grãos pressiona logística do agro e amplia perdas bilionárias, apontam especialistas
O déficit de armazenagem é apontado como a raiz de parte relevante dos gargalos logísticos do agronegócio brasileiro, com efeitos diretos sobre custos, eficiência de escoamento e competitividade nos portos. A avaliação é do consultor Carlos Cogo, sócio-diretor de uma consultoria especializada, que estima que, em 2026, a infraestrutura nacional conseguirá abrigar apenas 62% do volume de grãos colhido no país.
O impacto econômico do descompasso entre produção e infraestrutura já aparece em números expressivos. Cálculos do setor indicam que, no ano passado, o Brasil perdeu US$ 14,2 bilhões no chamado diferencial de prêmio — a diferença entre o preço de referência internacional dos contratos futuros e o valor efetivamente praticado nos portos brasileiros. Esse prêmio reflete variáveis locais como custo logístico, disponibilidade de armazenagem, congestionamento portuário, risco de execução e a dinâmica de oferta e demanda no curto prazo.
Segundo a mesma análise, o valor do lucro cessante de um único ano seria suficiente para resolver metade do déficit nacional de armazenagem, estimado em R$ 148 bilhões. O tema ganhou ainda mais relevância diante do avanço consistente da produção de grãos e da necessidade de reduzir perdas e melhorar a gestão do fluxo de carga em períodos de pico.
Crédito para armazéns cresce, mas liberações caem no ciclo
Para a safra 2025/2026, o governo destinou R$ 8,2 bilhões ao Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), acima dos R$ 6,8 bilhões da safra anterior. No entanto, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, foram liberados R$ 2,3 bilhões, volume 35% inferior ao concedido no mesmo período do ciclo anterior, conforme dados do Banco Central.
O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, atribui a retração do investimento principalmente a juros elevados e ao viés de baixa das commodities, fatores que reduzem a disposição dos produtores em assumir financiamentos de longo prazo. Ele avalia que a superação do gargalo deve ocorrer no médio prazo, condicionada à queda das taxas de financiamento e a melhorias na rede de escoamento da produção.
Armazenagem e escoamento caminham juntos: sem espaço para estocar, o produtor tende a vender na colheita, pressionando preços e elevando o custo logístico.
Produção avançou mais rápido que a estocagem
O descolamento entre a produtividade das safras e a capacidade de estocagem se intensificou a partir do ciclo 2009/2010, impulsionado por avanços em melhoramento genético e manejo de solo. Para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a leitura do déficit precisa considerar a sazonalidade, que permite o reaproveitamento de silos em janelas distintas.
Ainda assim, o cenário se complica quando a soja permanece armazenada por mais tempo, dificultando a entrada da segunda safra de milho. A Conab informa que tem priorizado a modernização de suas 64 unidades com recursos do Tesouro, com investimento em automação e sistemas de termometria para reduzir perdas e elevar a eficiência operacional.
Disparidades regionais mostram “vários Brasis” na armazenagem
As diferenças regionais revelam cenários bastante distintos de infraestrutura. O Centro-Oeste apresenta o maior déficit projetado para este ano, com 86,9 milhões de toneladas. Fronteiras agrícolas como o Matopiba devem registrar déficit em torno de 60%, enquanto Rondônia pode chegar a 77%.
No Sul, onde grandes cooperativas agrícolas investem em silos para atender os associados, a estimativa é de que 19,1 milhões de toneladas fiquem sem armazenagem estática nesta safra. Já o Sudeste tende a ser uma exceção, com superávit estimado em 2,2 milhões de toneladas.
Região Destaque do cenário Centro-Oeste Maior déficit projetado, com pressão sobre logística no pico da safra. Matopiba Fronteira agrícola com gargalo relevante de capacidade estática. Sul Cooperativas atenuam o problema, mas o déficit ainda persiste. Sudeste Única região com superávit estimado de armazenagem.
Armazenagem dentro da fazenda ainda é baixa
Outro ponto de atenção é a baixa participação da armazenagem instalada dentro das propriedades rurais. Segundo a Conab, apenas 17% da capacidade brasileira está dentro das fazendas. Em comparação, nos Estados Unidos essa proporção é de cerca de 65%, segundo levantamento setorial.

Um acidente na tarde desta quinta-feira (23) ocorreu na MGC-354, entre Claro de Minas (distrito de Vazante) e o entroncamento com a MG-188, envolvendo uma carreta carregada de milho, uma Fiat Strada e outra carreta.

Para representantes da indústria de máquinas e equipamentos, ampliar a instalação de silos nas fazendas é uma estratégia para controlar o fluxo logístico, reduzir perdas e dar mais previsibilidade à comercialização. O setor afirma ter capacidade de atender a uma expansão, mas observa retração interna associada ao custo do capital.
Em foco: a falta de armazenagem leva produtores a venderem no pico da colheita, quando há maior oferta e pressão sobre preços, além de aumentar filas e custos no transporte.
Indústria e cooperativas pedem reforço do PCA e menos entraves
A associação do setor de máquinas e equipamentos defende um aporte anual de R$ 15 bilhões no PCA para acompanhar o crescimento da safra. Entre as demandas, estão a simplificação da análise de risco bancário e um cronograma de liberação de recursos que não dependa de contingenciamentos orçamentários.
Além das barreiras financeiras, há desafios técnicos: um dos pontos citados é a carência de energia elétrica trifásica no campo, fator que limita projetos de armazenagem e operações mais modernas. Também ganha espaço o debate sobre novos modelos, como a armazenagem solidária entre pequenos produtores.
Cooperativismo amplia capacidade, mas déficit ainda força vendas
No cooperativismo, a avaliação é de que o setor é parte central da solução para desafios de infraestrutura. As cooperativas respondem por mais de 50% da produção nacional de grãos e por cerca de um terço da armazenagem estática, mas ainda convivem com um déficit que força vendas durante a colheita.
Para reduzir o impacto, as cerca de 1,2 mil cooperativas recorrem a estruturas temporárias, como silos-bolsa, cujo uso teria crescido mais de 20% ao ano na última década. Embora sejam uma alternativa rápida, o custo por tonelada tende a ser superior ao dos silos fixos, o que reforça a necessidade de crédito com prazos e taxas compatíveis com investimentos de longa maturação.
Silos fixos: maior durabilidade e melhor custo por tonelada no longo prazo.
Silos-bolsa: implantação rápida e flexível, porém com custo maior por tonelada e uso mais circunstancial.
Crédito adequado: taxas e prazos precisam refletir a complexidade de obras civis e retorno de longo prazo.
Biocombustíveis e ferrovias usam “pulmões logísticos” para reduzir pressão
No segmento de biocombustíveis, empresas que processam milho para etanol têm investido em estocagem própria para manter o suprimento contínuo e reduzir a dependência de estruturas públicas e privadas em períodos críticos. A estratégia é dimensionar as unidades já considerando o crescimento da produção, mitigando pressões sobre a rede de armazenagem regional.
A integração entre modais de transporte e a agilidade no licenciamento de novas estruturas também aparece como parte do caminho para destravar o nó logístico. Na ferrovia, terminais de transbordo são descritos como pulmões logísticos, capazes de organizar o fluxo de carga e absorver picos de safra, com foco na eficiência de giro.
Um exemplo citado pelo setor é o terminal de Rondonópolis (MT), com capacidade de armazenagem fixa de 150 mil toneladas e estrutura para receber até dois mil caminhões por dia, com carregamento simultâneo de trens. No porto de Santos (SP), investimentos no corredor logístico incluem parceria para um novo terminal com capacidade anual de 9 milhões de toneladas de grãos e 3,5 milhões de fertilizantes.
Para especialistas, o avanço da produção nacional de grãos exige um pacote de soluções que combine crédito previsível, armazenagem na fazenda, modernização de estruturas existentes, expansão de terminais e melhor articulação entre rodovia, ferrovia e portos. Sem isso, o país tende a manter um custo oculto elevado, refletido em prêmios menores, ineficiências no escoamento e perda de competitividade no comércio internacional.
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O risco de falta de diesel no Brasil expõe um problema estrutural: apesar de ser grande produtor de petróleo, o país depende da importação de derivados devido à baixa capacidade de refino. Essa vulnerabilidade, somada à alta demanda em períodos de safra, pode gerar impactos diretos no agronegócio, como aumento de custos, atrasos logísticos e perda de competitividade. Mais do que um problema pontual, o cenário revela falhas no planejamento energético que afetam toda a cadeia produtiva.