
A agropecuária brasileira começou 2026 em ritmo de crescimento, mas o desempenho do setor já sinaliza limitações impostas pelo custo do crédito e pela maior sensibilidade a fatores climáticos. Economistas apontam que a taxa Selic elevada tende a pesar sobre decisões de investimento e produção ao longo do ano, enquanto a possibilidade de influência do El Niño coloca o clima como variável crítica para os próximos trimestres.
No primeiro trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária registrou alta de 2,0% em comparação com o trimestre imediatamente anterior. Já na comparação com o mesmo período do ano passado, o avanço foi de 0,7%, indicando um crescimento mais contido quando observada a base interanual.
A soja foi o principal destaque do período, com novo recorde ao contribuir para uma estimativa anual de produção com avanço de 4,8%. Em contrapartida, culturas relevantes apresentaram desempenho negativo: o milho teve queda de 2,5% e o arroz recuou 10,6%.
Para o economista Joelson Sampaio, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o resultado do início do ano confirma um cenário de crescimento, porém com sinais de que o setor sente os efeitos de juros elevados. Ele também avalia que, nos próximos meses, o clima pode se tornar determinante e já projeta desaceleração no ritmo de produção.
Segundo o economista, o setor opera em ciclos e reage tanto ao ambiente externo quanto às condições domésticas, com o clima exercendo papel de risco ou de suporte. No caso de 2026, os efeitos observados até aqui foram mais favoráveis, mas a continuidade desse desempenho dependerá do comportamento climático e dos custos financeiros ao longo do ano.
Embora a soja ainda deva trazer impactos positivos no segundo trimestre, o milho segunda safra aparece como um dos principais fatores de limitação para os próximos resultados do PIB agropecuário, especialmente no segundo semestre de 2026. A avaliação é de José Carlos Hausknecht, sócio em Agronegócios na EY Brasil.
Na leitura do especialista, o cenário torna improvável a repetição de crescimentos robustos ao longo do ano. Isso porque o milho safrinha teve problemas de produção e pode pressionar o desempenho agregado do setor, reduzindo a contribuição das lavouras para o PIB no período em que a colheita ganha peso nas estatísticas.
Destaque: A colheita da segunda safra de milho já começou e a expectativa é de redução na oferta em relação ao ciclo anterior, o que pode repercutir nos resultados do agronegócio no restante de 2026.
As estimativas oficiais apontam para um recuo na produção do cereal. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de milho da segunda safra deve atingir 108,4 milhões de toneladas, volume 4,2% menor do que o registrado no ciclo 2024/25.

O Brasil inicia o ano com estoques elevados de milho, vindos de uma safrinha recorde em 2025, e com consumo interno em alta devido à indústria de etanol. Apesar da demanda doméstica aquecida, as exportações enfrentam forte concorrência externa. A safra...

Entre os fatores que explicam a piora, produtores enfrentaram falta de chuvas que afetou a produtividade em Goiás. Também foram relatados problemas pontuais em outras regiões, como Minas Gerais e São Paulo, ainda que em menor proporção.
Redução esperada da oferta em relação ao ciclo anterior;
Irregularidade de chuvas afetando produtividade em estados produtores;
Impacto potencial no PIB do agronegócio no segundo semestre de 2026.
Além do milho, Hausknecht chama atenção para outras cadeias que podem influenciar o desempenho do PIB agropecuário no segundo semestre: algodão e cana-de-açúcar. A depender do comportamento de produtividade e de condições de mercado, esses segmentos podem reforçar a tendência de moderação no ritmo de crescimento do setor.
No balanço do primeiro trimestre, o crescimento de 0,7% na variação anual é atribuído principalmente ao desempenho da produção de soja e ao segmento de carnes. A avaliação é que não se esperava uma aceleração expressiva do PIB agropecuário neste início de ano, o que reforça a leitura de que o resultado veio dentro de uma faixa considerada plausível diante do cenário de custos e incertezas.
Indicador/tema Dado principal Leitura para 2026 PIB agropecuário (trim. x trim.) +2,0% Início positivo, mas pode perder fôlego PIB agropecuário (ano x ano) +0,7% Crescimento moderado e mais sensível a choques Soja (estimativa anual) +4,8% Deve sustentar impactos no segundo trimestre Milho (desempenho) -2,5% Safrinha pode limitar PIB no segundo semestre Arroz (desempenho) -10,6% Contribui para reduzir o impulso do trimestre Milho 2ª safra (Conab) 108,4 milhões t (-4,2%) Oferta menor, com impacto potencial em cadeia e PIB
Para os próximos meses, o desempenho da agropecuária tende a depender do equilíbrio entre produção agrícola, custos financeiros influenciados pela Selic e condições climáticas capazes de alterar produtividade e oferta. Com a soja ainda contribuindo no curto prazo, o foco do mercado se desloca para a evolução do milho safrinha e para a capacidade de culturas estratégicas, como algodão e cana, sustentarem o resultado no segundo semestre.
Quer aprofundar este acompanhamento?
A assinatura libera conteúdos premium, revista digital e acervo para consultar depois da leitura.
Resumo: Entre janeiro e abril de 2026, o agronegócio de Minas Gerais exportou US$ 5,8 bilhões em 4,8 milhões de toneladas, mantendo o estado em terceiro lugar entre os maiores exportadores do Brasil. Varginha foi o município com maior faturamento, US$ 1,02 bilhão (19,3% da receita estadual no quadrimestre), impulsionado principalmente pelo café.