Da Serra Gaúcha às novas fronteiras: as famílias que construíram o agro no Sul
AgriculturaLucas Lopes Mendes Ferreira·Publicado em 09/04/2026·9 mins de leituraGrátis

Da Serra Gaúcha às novas fronteiras: as famílias que construíram o agro no Sul

Série especial | Os Bandeirantes do Agro Brasileiro

Da Serra Gaúcha às novas fronteiras: as famílias que construíram o agro no Sul

Ao longo do século XX, um movimento migratório fundamental para a construção do agronegócio brasileiro tomou forma no Sul do país: milhares de famílias originárias do Rio Grande do Sul buscaram novas fronteiras agrícolas em Santa Catarina e no Paraná, transformando territórios, fortalecendo comunidades rurais e consolidando a base produtiva que hoje caracteriza grande parte do agronegócio nacional. Essa trajetória, impregnada de coragem, tradição e trabalho no campo, não se limita a números: é narrada através de histórias de famílias, cidades e processos sociais que, juntos, redefiniram o Brasil rural.

A migração gaúcha em direção ao Oeste catarinense e ao sudoeste paranaense começou a ganhar intensidade já nas primeiras décadas do século XX, mas foi sobretudo entre as décadas de 1940 e 1960 que esse fluxo se tornou marcante. Nesse período, regiões até então pouco habitadas, cobertas por florestas densas, solos férteis e desafios ambientais, se tornaram polos de produção agrícola graças à chegada desses migrantes, que trouxeram consigo não apenas práticas e saberes rurais, mas também estruturas familiares e comunitárias inteiras.

Santa Catarina: a consolidação da agricultura no Oeste

O Oeste catarinense foi um dos primeiros grandes destinos desses migrantes. Regiões como São Lourenço do Oeste, Chapecó, Joaçaba e Xanxerê receberam, ao longo de décadas, famílias inteiras vindas do Sul em busca de terras férteis e oportunidades. A formação cultural e econômica dessa área foi profundamente influenciada por esses fluxos migratórios, com comunidades que preservaram valores, modos de vida e práticas familiares oriundos do Rio Grande do Sul, uma presença que, ainda hoje, está no coração da cultura local e no fortalecimento da agricultura do estado.

Milhares de agricultores gaúchos atravessaram a divisa nas décadas de 1940 a 1970, avançando principalmente sobre o Oeste de Santa Catarina. Foram eles que abriram picadas, ergueram vilas, instalaram currais e transformaram mata fechada em lavouras organizadas, integradas aos primeiros mercados regionais. Esse movimento populacional deu origem a cidades inteiras e lançou as bases da produção agropecuária que hoje sustenta uma das regiões mais produtivas do país.

Entre as milhares de famílias que cruzaram a divisa rumo ao Oeste catarinense, a família Toigo deixou Erechim (RS) no início dos anos 1960 e se estabeleceu na região de Chapecó. Como outros migrantes gaúchos, iniciou a atividade com pequenas lavouras de milho e criação de suínos. A produção familiar passou a integrar, anos depois, os primeiros sistemas de cooperativismo agroindustrial da região. Hoje, Chapecó é reconhecida como um dos principais polos brasileiros de proteína animal, com cooperativas e agroindústrias que tiveram origem direta nesse modelo de colonização agrícola baseado em pequenas propriedades familiares.

Paraná: o Eldorado agrícola do Sudoeste

No Paraná, a migração gaúcha se intensificou a partir da criação da Colônia Agrícola Nacional General Osório (CANGO), em 1943, como parte da política nacional de ocupação conhecida como Marcha para o Oeste. Esse programa federal incentivou a fixação de colonos, muitos deles gaúchos, no sudoeste paranaense, oferecendo lotes de terra, assistência inicial e infraestrutura para que as famílias pudessem estabelecer pequenas propriedades agrícolas.

Pesquisas históricas revelam que em 1940 havia cerca de 7.645 habitantes no extremo oeste do Paraná, número que saltou para mais de 135.000 em 1960, com migrantes que representavam uma grande maioria da população, cerca de 69% dos colonos eram oriundos do Rio Grande do Sul e também de Santa Catarina. Esse fenômeno demográfico não apenas mudou a face humana da região, mas também impulsionou o desenvolvimento de atividades agropecuárias intensivas, desde a produção de grãos até a pecuária de corte e leite, que seriam pilares do agronegócio local nas décadas seguintes.

No final dos anos 1950, a família Bortoluzzi deixou Bento Gonçalves (RS) rumo ao Sudoeste do Paraná, atraída pela oferta de terras e pela expansão das frentes agrícolas abertas pelo programa de colonização federal. Instalou-se na região de Francisco Beltrão, onde, como centenas de outras famílias gaúchas, participou da abertura das primeiras áreas de cultivo. A produção inicial de milho, feijão e suínos garantiu a subsistência e formou a base econômica local. Décadas depois, essa mesma região se consolidou como um dos principais polos agroindustriais do Paraná, com forte presença de cooperativas e integração às cadeias nacionais de proteína animal.

Além da atuação da CANGO, o fluxo migratório deu origem a comunidades inteiras, muitas das quais evoluíram para cidades e polos produtivos estratégicos do Paraná. Regiões como Francisco Beltrão, Pato Branco, Cascavel e outras áreas do Sudoeste foram diretamente moldadas pela presença gaúcha. Ao longo das décadas, esses municípios cresceram a partir da chegada dos colonos e se consolidaram como centros expressivos de produção agrícola e de indústrias fortemente ligadas ao agronegócio nacional.

As famílias e as pessoas por trás das fronteiras

Uma das marcas desse processo foi a formação de identidades comunitárias profundas, muitas vezes preservadas em famílias que tornaram o trabalho no campo e a organização social pilares de suas vidas. Pesquisas etnográficas e demográficas documentam não apenas as motivações, como a busca por terras férteis e a insuficiência de espaço para herança no Rio Grande do Sul, mas também formas de organização social que se mantiveram após a migração.

No Paraná, por exemplo, muitos descendentes de migrantes gaúchos mantêm fortemente viva a cultura tradicional, inclusive através dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) em cidades como Londrina e Maringá, onde indivíduos nascidos no estado (os chamados “paranaúchos”) se consideram e atuam como guardiões e disseminadores da cultura gaúcha, mantendo tradições que incluem música, festas, chimarrão e modos de vida associados à agricultura familiar.

Em Santa Catarina, embora grande parte da literatura histórica sobre povoamento do Oeste destaque fluxos migratórios em geral, incluindo italianos, alemães e poloneses, registros acadêmicos apontam que milhares de famílias de agricultores gaúchos também estiveram na origem da ocupação agrícola dessa região, trabalhando em conjunto com colonos europeus para estabelecer os primeiros assentamentos rurais e redes de produção e comercialização.

Identidade, tradição e agricultura

Para além dos números, o que torna esse capítulo da história do agro brasileiro tão significativo é o entrelaçamento entre identidade cultural e atividade produtiva. Os gaúchos migrantes não apenas trouxeram técnicas e práticas agrícolas; eles transplantaram estruturas familiares, incluindo modos de vida comunitários, cooperação mútua entre vizinhos e valores que sustentaram coletivamente o trabalho no campo.

Essa tradição foi reterritorializada nas novas fronteiras agrícolas: tanto no Oeste de Santa Catarina quanto no Sudoeste do Paraná, a cultura gaúcha, interpretada aqui como conjunto de valores sociais, práticas de trabalho e modos de organização comunitária, resistiu e se adaptou, moldando o modo como grandes áreas rurais foram transformadas em territórios produtivos e integrados ao agronegócio nacional.

Uma família, três estados e gerações do agro

A trajetória da família Dazzi ajuda a compreender, na prática, o caminho percorrido por milhares de famílias que moldaram o agronegócio no Sul do Brasil. Segundo relato do produtor e empresário agrícola Amauri Dazzi, a história começa ainda na imigração italiana. Os antepassados da família desembarcaram no porto de Rio Grande (RS) e seguiram inicialmente para Farroupilha, antes de serem distribuídos por diferentes regiões do estado, como ocorreu com grande parte dos imigrantes europeus no início do século XX.

Com o crescimento da família, os Dazzi se estabeleceram por cerca de duas décadas na região de Erechim e Getúlio Vargas, no Norte do Rio Grande do Sul. Foi nesse período que o avô de Amauri nasceu e, mais tarde, migrou para Itá, no Oeste de Santa Catarina, onde se fixou definitivamente. Ali nasceram o pai, o tio e a tia de Amauri, já inseridos em um contexto de agricultura familiar voltada principalmente à criação de suínos, atividade considerada, à época, uma das mais rentáveis da região.

O avanço para o Paraná ocorreu em 1955, quando Ângelo Dazzi, tio do pai de Amauri, viajou até a região de Palotina, no Oeste paranaense, e identificou o potencial agrícola da área. Pouco tempo depois, toda a família foi transferida para o município, repetindo um movimento comum entre migrantes sulistas: a ocupação progressiva de novas fronteiras agrícolas à medida que as regiões anteriores se consolidaram. Angelo Dazzi fundou o Empório Palotina, comércio que permanece em funcionamento até hoje e se tornou referência local, enquanto o avô e o pai de Amauri seguiram atuando diretamente na produção agropecuária, com foco na suinocultura.

A história da família ainda revela a complexidade dos fluxos migratórios do período. Com o aumento das chegadas de navios aos portos de Santos e Rio Grande, os Dazzi descobriram, cerca de dez anos atrás, a existência de um ramo da família que havia desembarcado em Santos e se estabelecido no estado de São Paulo, evidenciando como a imigração europeia se espalhou por diferentes regiões do país.

Hoje, Amauri Dazzi atua como empresário agrícola no Oeste do Paraná, com investimentos em unidades de silos e infraestrutura de armazenagem, acompanhando a modernização do setor. Ao comparar o agro do passado com o atual, ele resume a transformação em poucas palavras: “É outra vida”, afirma, ao se referir à mecanização, ao avanço tecnológico e às mudanças na forma de produzir.

Para Amauri, a continuidade dessa trajetória depende da sucessão familiar. Pai de dois filhos, ele relata que a filha seguiu carreira fora do campo, formada em Medicina, enquanto o filho dá sequência às atividades agrícolas, aprendendo o ofício da mesma forma que ele aprendeu com o pai. “Isso precisa ser passado de geração em geração. Sem agro, não existe alimento”, ressalta. Na avaliação do produtor, garantir o interesse das novas gerações é fundamental para evitar o esvaziamento do campo observado em países como os Estados Unidos, onde muitos herdeiros deixaram a atividade rural.

A história da família Dazzi sintetiza, em escala humana, o processo que transformou Santa Catarina e Paraná em polos estratégicos do agronegócio brasileiro: migração, trabalho familiar, adaptação às novas fronteiras e, mais recentemente, a incorporação de tecnologia e gestão empresarial no campo.

Legado e relevância para o agro contemporâneo

Hoje, o agronegócio brasileiro é reconhecido internacionalmente por sua produtividade e capacidade de alimentar mercados internos e externos. Esse sucesso tem raízes, entre muitos outros fatores, na história de famílias que buscavam novas terras e, ao fazê-lo, criaram posteriores gerações de agricultores, pecuaristas, cooperativistas e empreendedores rurais.

As histórias desses estados mostram que a formação do agro brasileiro não aconteceu apenas por meio de grandes empresas ou investimentos de capital, ela aconteceu primeiro nas mãos de famílias migrantes, que partiram de seus lares no Sul para regiões desconhecidas, enfrentaram desafios geográficos e climáticos, e construíram comunidades produtivas que continuaram a evoluir ao longo de décadas.

Essa narrativa histórica, feita de pessoas, famílias e identidades, é essencial para entender como Santa Catarina e Paraná se tornaram, na prática, polos de produção agrícola competitiva, influenciando profundamente a economia, a cultura e os modos de vida das populações rurais do Sul do Brasil.

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