
São Paulo avança com BECCS: primeira usina de captura de carbono no etanol de cana-de-açúcar é anunciada com investimento de R$ 30 milhões
Em 10 de junho, durante a Semana do Meio Ambiente, o governo de São Paulo anunciou a construção da primeira usina brasileira de captura e armazenamento de carbono gerado pela produção de etanol de cana-de-açúcar. A iniciativa, orçada em cerca de R$ 30 milhões, envolve a FAPESP, a USP (Poli), a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Semil), a Petrobras e o escritório Rolim Goulart Cardoso Advogados, e resultou na criação do Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio), um Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) sediado na Poli-USP. O CTCCSBio terá como missão...
São Paulo anuncia primeira usina brasileira de captura e armazenamento de carbono do etanol de cana
O governo do Estado de São Paulo anunciou a construção da primeira usina brasileira dedicada à captura e armazenamento de carbono gerado na produção de etanol de cana-de-açúcar. A iniciativa foi apresentada durante evento da Semana do Meio Ambiente e marca um passo estratégico para ampliar a sustentabilidade do setor sucroenergético, com potencial de transformar o etanol em um combustível de balanço climático ainda mais favorável.
No mesmo encontro, foi formalizada a criação do Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio), que terá como missão estudar a viabilidade, o planejamento e as condições necessárias para a implantação da unidade. O centro é um novo Centro de Ciência para o Desenvolvimento, financiado pela FAPESP, sediado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e implementado em parceria com órgãos públicos e representantes do setor produtivo.
Por que a captura de CO2 no etanol pode mudar o jogo climático
São Paulo é o maior produtor nacional de etanol e açúcar. Nesse contexto, ganha destaque a tecnologia conhecida como BECCS (Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono), que permite capturar o CO2 liberado na produção do etanol e armazená-lo em formações geológicas profundas. Em teoria, essa combinação pode tornar o combustível “carbono negativo”, isto é, capaz de remover mais carbono da atmosfera do que emitir ao longo do processo.
Destaque: a captura do CO2 emitido durante a fabricação do etanol e sua injeção no subsolo pode reverter o balanço de emissões, aproximando o setor de metas climáticas mais ambiciosas.
A produção de etanol a partir da cana já é considerada uma alternativa mais sustentável quando comparada aos combustíveis fósseis por emitir menos gases de efeito estufa. Com a captura e o armazenamento, a proposta é remover ativamente o carbono que já fazia parte do ciclo biogênico da planta, reduzindo a pegada de carbono associada ao combustível.
Investimento, prazo e etapas do projeto
O projeto está previsto para durar cinco anos, com investimento total estimado em R$ 30 milhões, e deve ser implementado em duas fases. A primeira etapa, com duração de dois anos, será dedicada à prospecção de locais para a instalação da usina e à análise do potencial do território paulista para o uso da tecnologia. A segunda fase avançará para a implantação e o funcionamento da unidade.
Etapa Duração Foco principal Fase 1 Dois anos Identificar locais, avaliar potencial do estado, infraestrutura, custos, impactos e percepção social Fase 2 Até completar cinco anos Implantação e operação da usina com base nos resultados técnicos, econômicos e regulatórios
Onde o CO2 será armazenado: critérios geológicos e segurança
Uma das frentes centrais do CTCCSBio será a seleção de áreas adequadas para a instalação e para o armazenamento geológico do carbono. A proposta envolve o uso de reservatórios salinos profundos, formações localizadas a mais de mil metros de profundidade, compostas por rochas porosas preenchidas por água altamente salina — sem utilidade para abastecimento humano.
A escolha do local deverá considerar um conjunto de fatores técnicos e logísticos, como a proximidade com usinas de etanol, disponibilidade de infraestrutura, custos, além de aspectos ambientais e sociais. A ideia é garantir que a rota tecnológica seja segura, viável e compatível com as exigências regulatórias e com a realidade do setor.
Geologia: presença de formações adequadas para armazenamento profundo.
Proximidade: distância em relação a polos produtores de etanol.
Infraestrutura: acesso e logística para operação e transporte.
Custos: viabilidade econômica de implantação e manutenção.
Impacto ambiental e percepção social: avaliação de riscos e aceitação.
Monetização e mercado de carbono: o desafio de tornar a tecnologia viável
Embora a tecnologia de captura e armazenamento já exista, o desafio principal é torná-la viável no contexto paulista e no setor sucroenergético. Um dos pontos críticos é que o armazenamento de carbono, por si só, não gera receita direta. Por isso, o centro deverá estudar mecanismos de monetização associados à redução e remoção de emissões, como mercado de carbono, compensações ambientais e políticas de incentivo.
Em foco: a construção de um arcabouço que permita gerar e reconhecer créditos de carbono pode ser decisiva para sustentar financeiramente a captura e o armazenamento do CO2 no etanol de cana.
Equipe multidisciplinar e instituições envolvidas
O CTCCSBio terá atuação multidisciplinar, reunindo especialistas de áreas como engenharia, geologia, economia, direito e psicologia. O objetivo é integrar análise técnica, viabilidade financeira e avaliação regulatória, além de mapear impactos e expectativas sociais em torno do projeto.
Além da Poli-USP, o centro envolve outras instituições de pesquisa, incluindo o Instituto de Energia e Ambiente da USP, a Divisão de Engenharia Mecânica do ITA, o Centro de Estudos de Energia e Petróleo da Unicamp, o Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp de Rio Claro e o Centro Mackenzie de Políticas de Integridade.
Como o projeto se posiciona no cenário nacional
Atualmente, existe no Brasil uma planta de captura e armazenamento de carbono no Estado do Mato Grosso, voltada para o etanol de milho. A proposta paulista se diferencia por ser a primeira iniciativa dedicada ao etanol de cana-de-açúcar, fonte predominante do biocombustível no país. A expectativa é que os estudos e a implantação abram caminho para novas aplicações da tecnologia e para a ampliação de soluções climáticas na bioenergia.
Ao reforçar a pesquisa aplicada e o planejamento para a captura e armazenamento do carbono biogênico, o projeto mira uma agenda de inovação, descarbonização e competitividade para o setor sucroenergético, em um momento de crescente pressão global por combustíveis de menor impacto climático.



