
Joint venture entre Cosan e Shell negocia reestruturação de R$ 65,4 bilhões dentro de um passivo total de R$ 75,35 bilhões; proposta inclui conversão de dívida em ações a preço bem abaixo do mercado e divisão das operações em duas empresas.
As ações da Raízen registraram forte queda nesta quinta-feira (28) após a companhia detalhar aos credores o plano de recuperação extrajudicial apresentado nas negociações para reestruturar sua dívida. O movimento refletiu a preocupação do mercado com a possibilidade de diluição relevante dos acionistas e com o desenho da proposta, que prevê mudanças estruturais na organização do grupo.
Os papéis da empresa, uma joint venture entre Cosan e Shell, encerraram o pregão com baixa de 19,04%, cotados a R$ 0,34. Na mínima do dia, chegaram a recuar 21,43%, para R$ 0,33.
O gatilho da reação negativa foi a sinalização de que 45% da dívida reestruturada pode ser convertida em ações precificadas a R$ 0,25 por papel, patamar considerado substancialmente inferior ao preço observado no mercado. A diferença de valor implicaria, na prática, uma diluição pesada para os atuais acionistas, caso o modelo avance.
Analistas apontam que a conversão de dívida em participação acionária já era esperada, mas o preço de conversão surpreendeu por estar distante do nível de negociação recente. A leitura predominante é que o desconto embutido na proposta transfere parte relevante do valor para os credores, reduzindo proporcionalmente a fatia dos acionistas atuais.
O ponto sensível é que a conversão em ações a um valor abaixo do mercado tende a acelerar a diluição e aumentar a pressão sobre as cotações, especialmente em um contexto de incerteza sobre a execução do plano.
A empresa não comentou publicamente os detalhes além do que consta no documento enviado no âmbito do processo de reestruturação.
Além da renegociação financeira, a proposta prevê a separação das operações em duas estruturas: Raízen Combustíveis, voltada à distribuição e comercialização sob a marca Shell no Brasil; e Raízen Energia, focada no processamento de cana-de-açúcar para produção de etanol e geração de energia elétrica.
Para parte do mercado, a divisão pode ser interpretada como um movimento de reorganização para isolar riscos e permitir que cada segmento tenha regras financeiras próprias. Entretanto, há quem veja a iniciativa como um fator de incerteza adicional, já que pode soar como sinal de desalinhamento estratégico entre os acionistas controladores.
Raízen Combustíveis: distribuição e comercialização de combustíveis no Brasil.
Raízen Energia: produção de etanol e geração de energia a partir da cana.
O passivo informado no plano soma R$ 75,35 bilhões. Desse montante, R$ 65,4 bilhões estão incluídos no processo de recuperação extrajudicial, que depende de adesão formal dos credores para produzir efeitos.
Indicador Valor Observação Dívida total informada R$ 75,35 bilhões Passivo total citado no plano Dívida sob reestruturação R$ 65,4 bilhões Montante sujeito ao processo extrajudicial Preço proposto de conversão R$ 0,25 por ação Base para conversão parcial em ações
O plano apresentado traz três opções de renegociação. A adesão, a combinação de preferências e o nível de suporte dos credores serão determinantes para avaliar a viabilidade e os impactos finais sobre capital, governança e estrutura de dívida.
Conversão de parte da dívida em ações
Prevê a conversão de 45% da dívida reestruturada em ações a R$ 0,25, com entrega de papéis ordinários e preferenciais. Os 55% restantes seriam distribuídos em novas dívidas vinculadas às duas empresas (Combustíveis e Energia), com vencimentos entre 2032 e 2035.
Desconto elevado com pagamento único no longo prazo
O credor aceitaria um desconto de 80% sobre o valor devido. O pagamento dos 20% remanescentes ocorreria em uma única parcela em 31 de março de 2047.
Pagamento em dinheiro com teto global
O credor receberia em espécie o equivalente ao menor valor entre 75% do crédito devido e R$ 9.750. A alternativa tem limite total de R$ 150 milhões em pagamentos, o que corresponde a aproximadamente R$ 200 milhões em créditos elegíveis.
A leitura de especialistas é que as três opções buscam acomodar diferentes perfis de credores: aqueles mais dispostos a participar do capital, os que preferem reconhecer perdas e alongar prazo, e os que desejam recuperar parte do valor rapidamente — dentro de um limite financeiro previamente definido.
Um dos temas centrais para a credibilidade do plano é a confirmação de novos recursos. De acordo com o documento, a Shell se comprometeria a aportar R$ 3,5 bilhões, enquanto a Aguassanta Investimentos, holding ligada a Rubens Ometto (fundador da Cosan), poderia adicionar R$ 500 milhões.
Ainda assim, o avanço depende não apenas de valores, mas também de condições de governança e de como credores e acionistas concordarão com o redesenho de poder dentro da companhia.
Em destaque: credores pedem mudanças na presidência do conselho, reforçando uma pressão já observada em discussões anteriores com detentores de títulos.
O plano prevê a manutenção da administração atual durante o processo de reestruturação, porém com supervisão dos credores e poder de veto restrito a temas considerados relevantes. Caso aprovado, o desenho do conselho de administração mudaria de forma significativa.
A proposta indica um conselho com sete membros, sendo quatro indicados pelos credores — incluindo a presidência do colegiado — e três indicados pelos acionistas atuais. A mudança tende a ser vista como uma forma de aumentar controle e transparência do lado de quem financia a companhia, mas também sinaliza perda de influência dos acionistas.
Conselho proposto: 7 membros
Indicações dos credores: 4 (inclui o presidente)
Indicações dos acionistas: 3
Para entrar em vigor, o plano precisa ser aprovado por metade mais um dos credores sujeitos ao mecanismo de recuperação extrajudicial. O documento também ressalta que os termos podem sofrer alterações relevantes ao longo das negociações, dependendo de aprovações, condições e formalização de instrumentos definitivos.
No curto prazo, a atenção do mercado deve permanecer voltada para a evolução do apoio dos credores, a confirmação dos aportes anunciados e a definição do equilíbrio de poder na governança. Esses fatores serão determinantes para reduzir a incerteza e calibrar as expectativas sobre a capacidade da companhia de executar o plano e estabilizar sua estrutura de capital.
Enquanto isso, a volatilidade das ações tende a permanecer elevada, uma vez que o cenário envolve simultaneamente reestruturação de dívida, potencial conversão em ações e reorganização societária.

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Resumo: O balanço global do açúcar está praticamente equilibrado, com os preços oscilando entre 14 e 15 centavos de dólar por libra-peso na NYSE, dependendo da safra brasileira 2026/27. O CEO da Copersucar, Tomás Manzano, disse à Reuters que o resultado dependerá do tamanho da safra, da reação do consumo de etanol e do mix de produção das usinas. Antes de um evento em Santos, a Copersucar apresentou planos para usar biometano no transporte de açúcar até o porto, substituindo diesel nos caminhões. A expectativa é de que a safra centro-sul 2026/27 tenha crescimento em relação ao ciclo anterior, com estimativas de que a colheita chegue a cerca de 630 milhões de toneladas, embora o cenário ainda seja incerto neste estágio inicial. As usinas têm priorizado a produção de etanol, que remunera melhor que o açúcar, fortalecendo a competitividade do etanol frente à gasolina no Brasil. O cenário também é sustentado pela expansão da produção de etanol e por preços do petróleo elevados devido à guerra no Irã, o que tende a tornar o etanol mais atrativo para o consumo. (Reuters, 13/5/26).