
Raízen avança na recuperação extrajudicial e alcança o quórum necessário para levar à Justiça o que já é considerado o maior processo do tipo no Brasil. A companhia obteve adesão de credores que representam 75,45% dos créditos incluídos no plano, passo que reduz o risco imediato de uma recuperação judicial e abre caminho para a fase de homologação.
O movimento, no entanto, não elimina as incertezas sobre a operação e sobre os contornos da chamada “nova Raízen”. Especialistas apontam que, apesar do avanço, ainda faltam esclarecimentos sobre critérios de conversão de dívida em ações, potenciais efeitos de diluição para acionistas e a engenharia da reorganização societária que separará os negócios de energia e de combustíveis.
Para o advogado tributarista Luís Garcia, sócio do Tax Group, o principal mérito da companhia foi construir um consenso amplo com os credores e, assim, tentar evitar uma recuperação judicial — alternativa que poderia impor desgaste adicional ao negócio e maior turbulência ao mercado.
Segundo ele, em reestruturações desse porte, a confiança depende de transparência e de previsibilidade sobre impactos financeiros e societários. E é justamente nesse ponto que surgem as principais dúvidas.
Um dos pontos centrais do plano é a conversão de 45% dos créditos sujeitos à recuperação em participação acionária. A operação será feita via units da Raízen (compostas por uma ação ordinária e uma preferencial), ao preço de R$ 0,50 por unit.
Na avaliação de Garcia, o mercado ainda não recebeu detalhes suficientes sobre:
Metodologia de avaliação econômica usada para precificar a companhia;
Potencial de diluição dos atuais acionistas;
Efeitos na estrutura de controle após a emissão e conversão.
Para ele, quando uma parcela relevante da dívida é transformada em ações, o critério de precificação é decisivo para reduzir incertezas e preservar a credibilidade da empresa perante investidores e credores.
Outro eixo da reestruturação é a reorganização societária que pretende dividir a empresa em dois braços. A proposta prevê conclusão até o fim de 2027, com a criação de:
Raízen Energia: operações de açúcar, etanol e bioenergia;
Raízen Combustíveis: distribuição de combustíveis e lubrificantes da marca Shell.
Embora a separação possa, em tese, destravar valor e elevar a eficiência, permanecem questionamentos sobre a execução. Entre os pontos acompanhados pelo mercado estão a alocação de ativos e passivos entre as novas estruturas, os impactos tributários e a forma como os riscos serão distribuídos entre as empresas após a cisão.
Garcia acrescenta que reestruturações dessa magnitude tendem a aumentar a exigência por governança, mecanismos de supervisão e uma política clara de gestão de riscos, especialmente para evitar que fatores que contribuíram para a deterioração financeira voltem a se repetir.
Um investidor ouvido sob anonimato avaliou que o plano é tecnicamente defensável, mas afirmou que o caso expõe fragilidades mais amplas do mercado de capitais brasileiro. Na visão dele, instrumentos de crédito corporativo frequentemente chegam ao investidor com o respaldo de auditorias e classificações de risco, mas muitos só percebem o grau de exposição quando a empresa entra em crise.
Segundo esse investidor, ao contrário de produtos que possuem mecanismos de proteção mais conhecidos do público, o credor de títulos corporativos fica integralmente exposto ao risco de crédito do emissor. Em situações de estresse financeiro, os investidores acabam limitados a escolher entre alternativas com perdas relevantes — e a ausência de manifestação pode resultar automaticamente na opção de maior deságio, o que, na prática, penaliza a inércia.
Ele também citou episódios recentes envolvendo outras companhias e instituições como exemplos de um padrão recorrente de deterioração financeira que, em sua avaliação, não teria sido antecipado de forma adequada por mecanismos de governança, auditoria ou rating. Para ele, esse contexto enfraquece a confiança dos investidores e reforça a necessidade de debate sobre transparência e responsabilização na cadeia de financiamento corporativo.
A proposta apresentada pela Raízen busca reorganizar aproximadamente R$ 64,7 bilhões em dívidas. Em linhas gerais, o plano combina conversão parcial em ações, reestruturação do saldo remanescente e capital novo.
Item do plano Como funciona Conversão em ações 45% dos créditos sujeitos à recuperação serão convertidos em participação via units precificadas em R$ 0,50. Dívida remanescente Os 55% restantes serão substituídos, refinanciados ou aditados por novos instrumentos de dívida. Capital novo Aporte previsto por acionistas, incluindo compromisso da Shell de R$ 3,5 bilhões e possibilidade de R$ 500 milhões adicionais via Aguassanta Participações, caso haja adesão. Reorganização societária Separação entre operações de energia e de combustíveis, com conclusão prevista até o fim de 2027.
Em 3 de junho de 2026, foram realizadas assembleias de debenturistas e titulares de CRA para deliberar sobre a adesão dos créditos ao plano. As aprovações ocorreram sob condições suspensivas, o que levou à suspensão das reuniões e à remarcação para 8 de junho.
Em 5 de junho, a empresa protocolou a versão final do plano já acompanhada da adesão de cerca de 75% dos créditos sujeitos à recuperação, superando o quórum mínimo exigido. Com isso, as condições suspensivas foram consideradas atendidas e as assembleias puderam ser reabertas para ratificar a adesão.
Concluída essa etapa, o plano segue para homologação judicial. Apenas depois da homologação começa a fase de implementação, quando investidores deverão ser chamados a escolher a alternativa de pagamento aplicável aos seus créditos, conforme os instrumentos e condições previstos.
Em resumo: a Raízen avança na recuperação extrajudicial ao garantir adesão suficiente, mas o mercado segue atento aos detalhes de precificação, governança e execução da cisão — fatores que tendem a determinar não apenas a solução financeira imediata, mas a capacidade de a empresa sustentar uma trajetória mais estável no longo prazo.
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A queda de geração nas usinas tipo 3, que incluem cogeração movida a biomassa de cana-de-açúcar, é preocupante, mas não há solução à vista, segundo Alexandre Leite, sócio da área de energia do Dias Carneiro Advogados. Para a cogeração, não há previsão de reembolso pela energia não vendida, apenas para as renováveis; segundo Leite, a solução exigiria mudanças legislativas. As distribuidoras afirmam que apenas seguem ordens do ONS, enquanto a Abradee diz que os prejuízos causados pela interrupção decorrentes dessas determinações não caracterizam falta de prestação do serviço. O texto evidencia um impasse regulatório entre o marco regulatório, as decisões operatorias e as expectativas do setor elétrico.

Em 10 de junho, durante a Semana do Meio Ambiente, o governo de São Paulo anunciou a construção da primeira usina brasileira de captura e armazenamento de carbono gerado pela produção de etanol de cana-de-açúcar. A iniciativa, orçada em cerca de R$ 30 milhões, envolve a FAPESP, a USP (Poli), a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Semil), a Petrobras e o escritório Rolim Goulart Cardoso Advogados, e resultou na criação do Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio), um Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) sediado na Poli-USP. O CTCCSBio terá como missão...

Resumo: A Raízen, joint venture de Cosan e Shell, negocia uma renegociação de dívida total de R$ 75,35 bilhões, com R$ 65,4 bilhões incluídos no processo de recuperação extrajudicial. Uma das propostas prevê converter 45% da dívida reestruturada em ações a R$ 0,25 por papel (valor cerca de 40% abaixo do fechamento anterior), com os 55% restantes estruturados como novas dívidas distribuídas entre Raízen Combustíveis e Raízen Energia, com maturidade entre 2032 e 2035. A reação do mercado foi negativa: as ações caíram quase 19% no dia, cotadas a R$ 0,34, após o anúncio da proposta de valorização da dívida em ações.

As fusões e aquisições nos segmentos de fertilizantes e açúcar/etanol caíram pela metade em 2025, totalizando apenas seis operações no ano, segundo levantamento exclusivo da KPMG para o Valor. Em fertilizantes, foram cinco transações em 2025, frente a nove em 2024; nas usinas de açúcar e etanol, o número caiu de três em 2024 para apenas uma em 2025. O recorte da consultoria evidencia um recuo significativo no ritmo de M&A nesses setores.

Resumo: O balanço global do açúcar está praticamente equilibrado, com os preços oscilando entre 14 e 15 centavos de dólar por libra-peso na NYSE, dependendo da safra brasileira 2026/27. O CEO da Copersucar, Tomás Manzano, disse à Reuters que o resultado dependerá do tamanho da safra, da reação do consumo de etanol e do mix de produção das usinas. Antes de um evento em Santos, a Copersucar apresentou planos para usar biometano no transporte de açúcar até o porto, substituindo diesel nos caminhões. A expectativa é de que a safra centro-sul 2026/27 tenha crescimento em relação ao ciclo anterior, com estimativas de que a colheita chegue a cerca de 630 milhões de toneladas, embora o cenário ainda seja incerto neste estágio inicial. As usinas têm priorizado a produção de etanol, que remunera melhor que o açúcar, fortalecendo a competitividade do etanol frente à gasolina no Brasil. O cenário também é sustentado pela expansão da produção de etanol e por preços do petróleo elevados devido à guerra no Irã, o que tende a tornar o etanol mais atrativo para o consumo. (Reuters, 13/5/26).