
No nordeste de Goiás, o Vão do Paranã — área que por anos carregou o estigma de “corredor da miséria” por causa da pobreza extrema e de secas prolongadas — começa a viver uma virada econômica sustentada por um fator decisivo: a chegada da água para produção. A combinação de irrigação, assistência técnica e foco na fruticultura tem impulsionado agricultores familiares, ampliando renda e reduzindo a dependência de atividades sazonais.
Com investimentos de R$ 23 milhões, um projeto coordenado pela Embrapa e financiado pela Codevasf já beneficia 80 produtores rurais. A meta é alcançar 250 famílias e estruturar a irrigação em 500 hectares, consolidando um novo perfil produtivo para uma região historicamente vulnerável ao clima.
A agricultora Júlia Pereira de Andrade, moradora do assentamento em Flores de Goiás, é um retrato do que tem acontecido no território. Ela relata que passou dois anos sem água em seu lote, situação que limitava a vida cotidiana e a produção agrícola. Hoje, com um poço artesiano perfurado na propriedade, o cenário mudou: a chácara se tornou uma unidade produtiva com excedente para comercialização.
A família, que antes dependia de agricultura de subsistência e de trabalho fora da propriedade para complementar o orçamento, reorganizou a produção após a chegada da irrigação. O casal cultiva dois hectares: um dedicado ao maracujá e outro à manga, culturas escolhidas por combinarem retorno mais rápido e perspectiva de longo prazo.
Com a água, a produção deixou de ser sobrevivência e virou renda. Antes, o acesso ao recurso exigia deslocamentos e restringia até necessidades básicas.
O planejamento produtivo também foi determinante. O maracujá é visto como alternativa de retorno mais acelerado, com potencial de gerar renda em cerca de seis meses. Já a manga, embora leve aproximadamente quatro anos para iniciar a produção, é tratada como uma cultura estruturante, capaz de garantir estabilidade financeira e ampliar oportunidades comerciais.
Resultado prático no campo: diversificação de culturas, maior previsibilidade de colheita e redução da dependência de períodos chuvosos.
A transformação não depende apenas de recursos financeiros e tecnologia. A geografia do Vão do Paranã favorece o acúmulo de água subterrânea, o que facilita a perfuração de poços. A região é cercada pela Chapada dos Veadeiros e pela Serra Geral de Goiás, características que contribuem para a formação de reservas hídricas no subsolo e tornam a irrigação uma solução viável para parte das propriedades rurais locais.
Esse fator natural, somado à execução do projeto e ao acompanhamento técnico, vem redesenhando o potencial produtivo de uma área que, por décadas, enfrentou limitações severas por falta de água e por baixa capacidade de investimento do produtor familiar.
Segundo o pesquisador da Embrapa José Carlos Sousa, a irrigação permite que o produtor tenha fonte de renda ao longo de todo o ano, ajudando a romper o ciclo de sazonalidade que antes restringia a atividade agrícola. Além da infraestrutura hídrica, a iniciativa inclui assistência técnica e transferência de tecnologia, preparando agricultores para melhorar manejo, produtividade e comercialização.
Mais estabilidade: redução da dependência das chuvas e maior previsibilidade de produção.
Mais renda: possibilidade de colheitas escalonadas e venda com melhor valor agregado.
Mais autonomia: propriedade passa a sustentar a família com excedente para o mercado.
Mais conhecimento: capacitação e adoção de tecnologias adaptadas ao território.
Na prática, a chegada da água muda a rotina dentro e fora da porteira. Onde antes havia restrição até para tarefas básicas, agora há condições para produzir, planejar e ampliar a participação em cadeias de abastecimento regionais. A fruticultura irrigada também abre espaço para organização comunitária e para a construção de novas referências econômicas no campo.
O projeto está em fase de consolidação, com números que sinalizam escala e possibilidade de expansão. A seguir, um resumo dos principais dados apresentados:
Indicador Situação Investimento R$ 23 milhões Produtores atendidos 80 Meta de famílias beneficiadas 250 Área prevista para irrigação 500 hectares Foco produtivo Fruticultura (manga e maracujá)
Apesar do avanço, o Vão do Paranã ainda enfrenta desafios de logística e infraestrutura para escoar a produção. Para agricultores familiares, o custo do transporte e as condições de acesso podem impactar a competitividade, especialmente quando o objetivo é atingir mercados mais distantes e com maior exigência de regularidade no fornecimento.
Ainda assim, o desempenho do projeto-piloto sinaliza um caminho considerado replicável para outras áreas semiáridas do Brasil: a combinação de recursos hídricos subterrâneos, investimento público e assistência técnica contínua pode redefinir realidades sociais e econômicas, com geração de emprego e renda no campo.
Com a meta de ampliar o atendimento para 250 famílias e irrigar 500 hectares, a região dá um passo relevante para se consolidar como polo de agricultura irrigada voltada à produção familiar. Manga e maracujá, escolhidos como carros-chefe, ajudam a construir um modelo em que o produtor ganha fôlego financeiro no curto prazo e estabilidade no longo prazo.
Se os gargalos de infraestrutura forem enfrentados e a assistência técnica mantida, o Vão do Paranã pode deixar para trás a marca de vulnerabilidade associada à seca e se tornar referência em fruticultura irrigada no interior de Goiás — um movimento com impacto direto na qualidade de vida de quem vive e trabalha no campo.
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A valorização da origem de produtos e serviços vem ganhando força no Brasil. Nos últimos cinco anos, o número de Indicações Geográficas (IGs) reconhecidas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) mais do que dobrou, passando de pouco mais de 70 certificações em 2020 para mais de 150 atualmente

O Rio Grande do Norte, historicamente ligado a frutas tropicais, sal, petróleo e energia renovável, começa a desenhar uma nova frente econômica no campo: a cafeicultura, com foco em cafés robusta e arábica. O movimento ganhou escala em 2026 com o Projeto Cafés do RN, do Sebrae-RN, que após uma fase experimental reúne produtores em implantação e expansão de lavouras comerciais em municípios como Ceará-Mirim, Maxaranguape, São Miguel do Gostoso, Lagoa Nova, Portalegre e Jaçanã. Atualmente, o projeto acompanha dezenas de produtores e contabiliza quase 27 hectares em implantação, distribuídos por regiões como Mato Grande, Trairi, Serra de Santana e Alto Oeste, territórios inéditos na produção de café no estado.

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