
Brasil precisa diversificar mercados, antever sanções e enfrentar riscos climáticos no agronegócio para reduzir a dependência da China
A necessidade do Brasil de se antecipar a eventuais sanções geopolíticas, reforçar a defesa de seus interesses e adotar medidas de reciprocidade, além de diversificar mercados para reduzir a dependência da China. Dados da EY mostram que 79% das empresas enxergam riscos climáticos como altos ou muito altos e que há uma lacuna entre consciência e capacidade prática de resposta; Otávio Lopes afirma que....
Agro brasileiro vê riscos climáticos e geopolíticos em alta e admite baixa preparação para responder a crises
Riscos climáticos, lacunas em seguro rural, necessidade de revisão do zoneamento agrícola e maior diversificação de mercados estão entre os principais alertas levantados por especialistas e representantes do setor. A avaliação é que o Brasil precisa agir com mais antecedência para reduzir perdas, proteger produtores e evitar vulnerabilidades diante de sanções e barreiras comerciais.
Levantamento da consultoria EY indica que 79% das empresas do agronegócio consideram os riscos climáticos altos ou muito altos. Ainda assim, o clima aparece como o tema em que o setor se sente menos preparado para responder. Para a consultoria, há uma distância relevante entre a consciência do problema e a capacidade prática de adaptação.
Clima extremo expõe fragilidades e pressiona produtividade
Otavio Lopes, sócio-líder de agronegócio da EY, aponta que o país avançou em tecnologia, com uso de agricultura de precisão e adoção de genética. No entanto, ele afirma que o zoneamento agrícola — instrumento de política agrícola que orienta a melhor época de plantio para reduzir risco climático — não está atualizado para o “novo mapa” de riscos associado às mudanças no padrão climático.
Como exemplo, Lopes observa que, em média, a cada quatro safras de soja no Rio Grande do Sul, uma é perdida, enquanto no Paraná a proporção é de uma perda a cada seis safras. Segundo ele, os números são expressivos e sugerem que o gargalo pode não estar apenas na adoção de boas práticas, mas na necessidade de reavaliar o zoneamento considerando ciclos climáticos e riscos atuais.
Pesquisa e adaptação: “não temos mais 50 anos”, alerta especialista
Marcelo Morandi, chefe de Relações Internacionais da Embrapa, avalia que o fator clima não é novo e que o setor vem se preparando nos últimos anos. Ainda assim, ele reconhece que persistem carências importantes que mantêm o produtor exposto — com destaque para a insuficiência de cobertura de seguro rural.
De acordo com Morandi, a Embrapa tem trabalhado em sistemas de produção mais resilientes, capazes de lidar melhor com estresse hídrico e outras intempéries, incluindo práticas como cobertura do solo e técnicas de manejo. Apesar disso, ele ressalta que o aprendizado continua, pois os eventos extremos têm se intensificado e trazido desafios inéditos.
“O investimento em pesquisa está muito aquém da velocidade que precisa. Em 50 anos de agricultura tropical, a gente promoveu um grande sistema de cultivares e agora precisamos dar um novo salto em função das mudanças climáticas, mas não temos mais 50 anos para isso.”
Fundo de emergência climática e seguro rural ganham força no debate
Para Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio, a maioria dos agricultores tem consciência das questões climáticas, mas a intensidade e as consequências dos eventos podem expulsar da atividade produtores mais endividados. Nesse contexto, ele defende a criação de um fundo de emergência climática e avanços estruturais no seguro rural.
O tema da sustentabilidade e do desmatamento também aparece como parte do debate. Plöger afirma que o país possui legislação ambiental e precisa cumpri-la, em referência ao Código Florestal. Ele acrescenta que o Brasil preserva grande parcela de suas áreas e que mecanismos como pagamento por serviços ambientais ainda não se consolidaram como deveriam.
Conservação florestal e política ambiental: críticas a posturas “contraditórias”
Paulo Barreto, pesquisador do Imazon, avalia que o agronegócio apresenta posturas contraditórias em relação ao clima. Segundo ele, uma parte do setor reconhece a importância de conservar florestas, enquanto outra ainda minimiza o problema, apesar de sentir os impactos na forma de secas e chuvas irregulares que elevam custos de produção.
Barreto afirma ainda que há produtores que atuam para reduzir políticas ambientais capazes de mitigar efeitos climáticos e, ao mesmo tempo, buscam recursos para lidar com perdas causadas por eventos extremos. Na visão do pesquisador, uma política consistente para o agro deveria incorporar restauração florestal e conservação de florestas como componentes centrais.
Risco geopolítico: concentração de mercados e logística aumentam vulnerabilidade
Além do clima, o setor também se vê pressionado por um cenário global de maior instabilidade. Otavio Lopes afirma que o baixo preparo do agronegócio em geopolítica decorre de um conjunto de fatores, incluindo a concentração excessiva de mercados para venda e a predominância de produtos com beneficiamento primário. Ele também chama atenção para gargalos internos, como dependência de modal rodoviário com rotas de escoamento estranguladas e déficit de armazenamento, o que reduz a capacidade de arbitragem temporal e a resiliência comercial.
Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, avalia que há uma tendência mundial de ampliação de barreiras e tarifas no comércio internacional e que esse movimento tende a permanecer. Para ele, a resposta passa por diversificar destinos e reduzir exposição a mercados em que produtos brasileiros enfrentem riscos de restrições.
Reciprocidade e antecipação de crises: “saber jogar o jogo”
Em um ambiente de disputas comerciais mais intensas, Plöger defende que o Brasil seja mais enfático na adoção de políticas de reciprocidade quando houver sanções, reforçando a necessidade de capacidade de reação e negociação no tabuleiro internacional.
Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global e coordenador da área de comércio, geopolítica e segurança alimentar, afirma que o país precisa ser mais proativo na negociação de parcerias globais, tanto no plano diplomático quanto no corporativo. Na avaliação dele, antecipar crises é essencial para que o Brasil não atue apenas de forma reativa, correndo atrás das consequências.
Principais pontos levantados por especialistas e entidades
Risco climático elevado e baixa sensação de preparo do setor para responder.
Necessidade de revisão do zoneamento agrícola para refletir o novo padrão de eventos extremos.
Ampliação do seguro rural e debate sobre fundo de emergência climática para proteger produtores vulneráveis.
Fortalecimento de sistemas produtivos resilientes e aceleração de investimentos em pesquisa.
Integração de conservação e restauração florestal a políticas do agro.
Diversificação de mercados para reduzir dependência e risco de sanções e barreiras.
Melhorias em logística e armazenamento para reduzir vulnerabilidades internas.
Atuação mais firme em reciprocidade e negociação antecipada de parcerias internacionais.
Resumo dos riscos e respostas debatidas
Tema Risco principal Medidas sugeridas Clima Eventos extremos, perdas recorrentes e baixa capacidade de adaptação Revisão do zoneamento, sistemas resilientes, seguro rural e fundo emergencial Pesquisa Ritmo insuficiente de inovação frente à velocidade das mudanças Aumento do investimento e aceleração do desenvolvimento de cultivares Meio ambiente Contradições e disputa por políticas que mitigam impactos Cumprimento da legislação, conservação e restauração florestal Geopolítica Barreiras comerciais, sanções e concentração de mercados Diversificação de destinos, reciprocidade e parcerias antecipadas Infraestrutura Estrangulamento logístico e déficit de armazenagem Melhorias em rotas de escoamento e expansão da capacidade de armazenamento
Em síntese, a combinação de mudanças climáticas, fragilidades de proteção ao produtor e tensões geopolíticas reforça a urgência de políticas públicas e estratégias privadas voltadas à prevenção. O recado de especialistas é claro: antecipar riscos e diversificar pode ser determinante para reduzir perdas, sustentar a produção e manter competitividade no cenário global.
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