Escassez global de fertilizantes por conflito com o Irã pode elevar preços de alimentos, alerta a Yara
Resumo: A escassez de fertilizantes causada pelo conflito com o Irã e pelo bloqueio do estreito de Ormuz pode reduzir a produção global de alimentos e elevar os preços. O CEO da Yara, Svein Tore Holsether, afirmou à BBC que até meio milhão de toneladas de fertilizante nitrogenado não estão sendo produzidas, o que pode equivaler a até 10 bilhões de refeições a menos por semana. Não aplicar fertilizante nitrogenado pode reduzir a produtividade de algumas culturas em até 50% já na primeira safra, com impactos mais imediatos na Ásia, Sudeste Asiático, África e América Latina. Regiões como a África Subsaariana podem sofrer efeitos ainda maiores, e o tempo de plantio varia globalmente. A ONU/Programa Mundial de Alimentos estima que as consequências do conflito podem levar 45 milhões de pessoas a mais à fome em 2026, com a insegurança alimentar na Ásia-Pacífico aumentando cerca de 24%. No Reino Unido, a inflação de alimentos pode chegar a 10% em dezembro, com sinais de custos mais altos para produtores já aparecendo.
Escassez global de fertilizantes pode reduzir produção agrícola e pressionar preços dos alimentos, alerta presidente da Yara
A interrupção no fornecimento de fertilizantes associada à escalada de tensões no Golfo e às restrições no transporte marítimo pelo estreito de Ormuz pode provocar queda na produtividade agrícola, aumento de preços e agravamento da insegurança alimentar em diversas regiões do mundo, segundo avaliação de Svein Tore Holsether, presidente-executivo da Yara, uma das maiores empresas de fertilizantes do planeta.
Em declaração, Holsether afirmou que o bloqueio e a instabilidade logística em uma das rotas mais estratégicas do comércio global estão colocando em risco a produção mundial de alimentos. Na prática, a menor disponibilidade de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, pode reduzir colheitas e intensificar a disputa por alimentos, com impacto desproporcional sobre países de menor renda.
Produção de fertilizante nitrogenado cai e ameaça colheitas
De acordo com o executivo, até meio milhão de toneladas de fertilizante nitrogenado deixaram de ser produzidas globalmente no momento, devido ao cenário de conflito e aos gargalos associados. Ele estima que a falta do insumo possa resultar em uma perda equivalente a até 10 bilhões de refeições por semana, considerando o efeito do fertilizante sobre o rendimento agrícola.
Holsether alertou que a ausência de aplicação de fertilizante nitrogenado pode reduzir a produtividade de algumas culturas em até 50% já na primeira safra. Em um mercado altamente integrado, a escassez se espalha rapidamente, e os destinos mais afetados tendem a ser regiões que dependem de importação e possuem menor margem de manobra para absorver custos.
Regiões com impacto mais imediato
O executivo apontou que, por se tratar de um mercado global, o choque na oferta tende a atingir com mais velocidade destinos como:
Ásia e Sudeste Asiático, em especial durante períodos críticos de plantio;
África, onde já existe subfertilização em diversos países;
América Latina, que depende de cadeias de suprimento internacionais para insumos agrícolas.
Em áreas onde a aplicação de fertilizantes já é menor do que o recomendado, como partes da África subsaariana, Holsether indicou que podem ocorrer quedas significativas na produção agrícola, com consequências diretas para abastecimento local e preços.
Calendário de plantio pode adiar efeito nos preços, mas risco é crescente
O impacto da escassez não aparece de forma uniforme porque as épocas de plantio variam entre países e continentes. Enquanto algumas regiões vivem períodos de alta demanda por insumos agrícolas, outras ainda estão iniciando a preparação das lavouras.
Analistas observam que, em partes da Ásia, os agricultores podem até ter fertilizante suficiente para a temporada imediata. No entanto, se a crise se prolongar, a redução do uso do insumo pode resultar em colheitas menores no fim do ano, com reflexos mais evidentes no mercado de alimentos.
“Se a crise se estender, veremos impacto em culturas como o arroz nos próximos meses.”
— Avaliação de especialista em segurança alimentar na região
Custos sobem no campo e podem chegar ao consumidor
Além da incerteza sobre fertilizantes, agricultores em diferentes países enfrentam um cenário de aumento simultâneo de custos. Entre os principais fatores de pressão estão energia mais cara, alta do diesel usado em máquinas e encarecimento de outros insumos produtivos. Ao mesmo tempo, os preços recebidos por muitos produtores ainda não teriam se ajustado na mesma proporção, comprimindo margens e elevando o risco de redução de investimentos na próxima safra.
Para o consumidor, a tendência é que os efeitos se manifestem gradualmente nos próximos meses, à medida que as cadeias de produção e distribuição absorvem custos maiores. Em mercados com forte dependência de importações de fertilizantes e de alimentos, a transmissão tende a ser mais rápida.
Estreito de Ormuz: gargalo estratégico para o mercado de fertilizantes
Estimativas internacionais apontam que cerca de um terço dos fertilizantes do mundo, incluindo ureia, potássio, amônia e fosfatos, normalmente transitam pela região do estreito de Ormuz. Qualquer interrupção prolongada no fluxo marítimo eleva custos logísticos, reduz a previsibilidade de entrega e pode desencadear compras emergenciais por governos e grandes empresas do setor agrícola.
No cenário descrito, o preço dos fertilizantes já acumulou alta significativa desde o início do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, reforçando um ambiente de volatilidade para produtores rurais e para a indústria de alimentos.
Risco de “disputa por comida” e impacto nos mais vulneráveis
Holsether também chamou atenção para o risco de uma disputa por alimentos entre países ricos e pobres. Na avaliação dele, nações com maior poder de compra tendem a garantir suprimentos em momentos de escassez, o que pode deslocar a oferta de mercados que já vivem fragilidade alimentar.
O alerta se concentra no efeito social: quando preços sobem e a oferta se contrai, populações vulneráveis são as primeiras a sentir a piora na acessibilidade de itens básicos. Esse movimento pode ampliar a fome e a desnutrição, sobretudo em economias em desenvolvimento.
Projeções apontam alta da inflação de alimentos e agravamento da fome
Projeções recentes indicam que a inflação de alimentos pode acelerar em alguns países ao longo do ano, refletindo custos mais altos no campo e a instabilidade de insumos estratégicos. Paralelamente, organizações internacionais avaliam que a combinação de tensões no Oriente Médio, logística pressionada e encarecimento de fertilizantes pode aumentar o número de pessoas em situação de insegurança alimentar.
Estimativas do Programa Mundial de Alimentos sugerem que as consequências combinadas do conflito podem levar milhões de pessoas adicionais à fome aguda em 2026. Na região da Ásia e do Pacífico, a expectativa é de crescimento relevante da insegurança alimentar, com potencial de pressionar governos e ampliar a necessidade de assistência humanitária.
Resumo dos principais impactos em monitoramento
Fator Efeito esperado Quem sente primeiro Escassez de fertilizantes nitrogenados Queda de produtividade e menor volume de alimentos Regiões importadoras e safras em fase de plantio Alta de custos no campo Pressão sobre preços e redução de margens do produtor Agricultores com menor capacidade de repasse Instabilidade logística no Ormuz Atrasos, encarecimento e incerteza no abastecimento Ásia, África e América Latina Disputa por alimentos Maior risco de fome e insegurança alimentar Populações vulneráveis em países em desenvolvimento
Em síntese, o alerta da Yara reforça que fertilizantes não são apenas um insumo agrícola: são um componente central da segurança alimentar global. Com oferta reduzida, preços em alta e logística instável, o risco é de colheitas menores, alimentos mais caros e aumento da vulnerabilidade social em regiões que já enfrentam dificuldades para garantir nutrição adequada.



