
A salvaguarda aplicada pela China às compras de carne bovina do Brasil mudou a dinâmica do comércio e deve afetar o mercado interno ao longo dos próximos meses. A avaliação é de Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, ao explicar que a medida “subverteu a lógica do mercado” ao antecipar embarques que normalmente se intensificariam no segundo semestre.
Pela regra anunciada em janeiro, a China passa a aplicar uma sobretaxa de 55% sobre as exportações brasileiras de carne bovina que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas em 2026. Abaixo desse volume, a tarifa permanece em 12%. Na prática, o mecanismo cria um incentivo para que exportadores acelerem envios no início do ano, buscando aproveitar a cota antes da cobrança adicional.
O consumidor brasileiro pode sentir algum alívio de preços no curto prazo caso o ritmo de compras chinesas diminua após o preenchimento da cota. A expectativa é de que, com a ausência temporária da China, parte da carne destinada à exportação permaneça no mercado doméstico, aumentando a disponibilidade e ajudando a conter reajustes.
Ainda assim, a perspectiva predominante é de nova pressão altista até o fim de 2026. Entre os fatores apontados estão o El Niño, que tende a reduzir a oferta de gado terminado a pasto, o aumento da demanda nos Estados Unidos e a retomada das compras chinesas em um período de mercado mais aquecido.
Dados do IBGE indicam que, em maio, todos os cortes de carne bovina ficaram mais caros para o consumidor. Entre os destaques de alta no mês estão:
Filé-mignon: alta de 4,4%
Picanha: alta de 3,9%
Peito: alta de 3%
No acumulado de 2026, o movimento também é de elevação, com peito e picanha entre as maiores altas, além da capa de filé.
Corte Variação em maio Acumulado em 2026 Filé-mignon +4,4% não informado Picanha +3,9% +9,3% Peito +3% +13,6% Capa de filé não informado +11,8%
Mesmo em um contexto em que eventos esportivos costumam estimular o consumo, Iglesias afirma que a redução da oferta tem influenciado mais os preços da carne do que um aumento forte da demanda interna.
“Um dos grandes problemas que temos em 2026 é o baixo poder de compra do brasileiro e o alto nível de endividamento.”
Segundo ele, esse cenário é agravado por fatores que reduzem a circulação de recursos na economia, afetando inclusive o consumo de itens básicos. Com a renda apertada, o comportamento do consumidor tende a migrar para proteínas mais baratas ou reduzir volume de compra — mas, ainda assim, a oferta mais curta mantém o mercado sensível a reajustes.
Um relatório mensal da Consultoria Agro do Itaú BBA reforça que o ritmo acelerado das exportações tem sido o principal fator de pressão sobre os preços. Apesar de uma oferta de gado terminado um pouco maior do que no ano anterior, a demanda externa absorveu a produção desde o início do ano.
Com a corrida para o preenchimento da cota, os envios à China cresceram 24% na comparação entre janeiro e maio de 2026 e o mesmo período de 2025. No período, a China respondeu por 51% do total embarcado.
Nas projeções da Safras & Mercado, o Brasil deve atingir 98% da cota de exportação para a China até o final do mês, o que deixaria pouco espaço para exportações sem tarifa adicional a partir de julho.
Iglesias avalia que a pausa temporária da China tende a ter um efeito negativo sobre os preços da arroba no curto prazo, ao reduzir a disputa do mercado exportador pela matéria-prima. Ao mesmo tempo, o mercado interno pode receber mais produto, o que ajudaria a moderar preços ao consumidor por um período.
O ponto de atenção, no entanto, está no último trimestre do ano, quando a demanda tende a ficar mais aquecida em diferentes frentes: consumo no Brasil, compras nos Estados Unidos e eventual retorno da China às aquisições de carne bovina brasileira. Além disso, o El Niño pode enxugar a oferta de gado terminado a pasto, reforçando a pressão.
Em um quadro de restrição de oferta e demanda aquecida, a tendência é de preços mais altos.
Sobre a suspensão das compras de carne bovina brasileira pela União Europeia, Iglesias afirma que o efeito sobre preços deve ser limitado. O bloco representa cerca de 3,5% das exportações brasileiras do produto, o que reduz a relevância em termos de volume.
Ainda assim, o mercado europeu tem peso simbólico por ser considerado um “mercado vitrine”, cujas decisões podem servir de referência e influenciar outros países. Assim, o principal risco apontado é de impacto reputacional para o Brasil, mais do que uma perda expressiva de embarques.
No início de maio, a UE excluiu o Brasil da lista de países autorizados a exportar carne ao bloco por considerar que o país não comprovou o cumprimento de exigências relacionadas ao uso de substâncias na produção animal. A medida entra em vigor em 3 de setembro.
Salvaguarda da China estimula exportações no início do ano e muda o fluxo do mercado.
Exportações fortes reduzem a disponibilidade interna e sustentam preços.
El Niño pode reduzir oferta de gado terminado a pasto.
Demanda internacional (especialmente EUA) e retorno chinês podem reforçar altas no fim de 2026.
UE tem pouco peso em volume, mas pode gerar efeito simbólico e de imagem.
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A Tereos concluiu, em junho, uma operação de grande escala com o embarque de 75 mil toneladas de açúcar VHP (Very High Polarization) em um único navio com destino ao mercado chinês.

O petróleo recua pelo terceiro dia, diante do aumento do tráfego marítimo pelo Estreito de Hormuz e de sinais de um período menos agressivo entre EUA e Irã. O Brent caiu 1,20% para 70,71 dólares por barril e o WTI cedeu 1,25% para 67,72 dólares; o gás natural negociado em Amesterdão (TTF) avançou 0,52%, para 43 dólares por megawatt-hora. Uma fonte não identificada da Administração Trump afirmou que cerca de 10 milhões de barris por dia passam pelo Hormuz, conforme a Bloomberg, sugerindo que as capacidades do Irã para perturbar a circulação podem estar comprometidas. Saul Kavonic, analista da MST Marquee, disse que a pressão de baixa nos preços acompanha o fluxo maior pelo estreito combinado com a liberação de reservas estratégicas e uma demanda menor. A falta de novas agressões entre EUA e Irã também tem contribuído para o recuo. No radar, as negociações entre EUA e Irã devem entrar em um ritmo mais morno, pois a partir de 4 de julho começam as cerimônias fúnebres do ex-líder supremo Ali Khamenei, o que deverá prolongar-se por vários dias.

O texto trata da cota brasileira de exportação de carne bovina para a China, de 1,106 milhão de toneladas, com tarifa de 12% dentro da cota e 55% adicional fora dela (total de 67% acima do limite). Mesmo com o fim de junho, a percepção é de que a cota está perto de ser preenchida, com o governo chinês baseando-se no que chega aos portos ao longo do ano. No cenário de 2026, as cargas enviadas no fim de 2025 e que chegam em 2026 influenciam o equilíbrio; dados até maio indicam 65,4% da cota já preenchidos, e a expectativa é de que importadores chineses retomem compras apenas em outubro, com parte das remessas de 2025 chegando à China apenas no começo de 2027. Diante desse cenário de demanda mais fraca e da perspectiva de fim de cota, frigoríficos brasileiros anunciaram medidas de ajuste. A Frigol, uma das cinco maiores do setor, vai conceder férias coletivas de 18 dias a quase mil funcionários da unidade de Água Azul do Norte (PA) a partir de....

A União Europeia decidiu excluir o Brasil da lista de países habilitados a exportar proteínas animais por não comprovar o uso adequado de antimicrobianos na produção. A formalização pela Comissão Europeia já ocorreu e a medida passa a valer em 3 de setembro. Mesmo assim, governo, indústria e entidades do agronegócio intensificam esforços para reverter a decisão, buscando demonstrar aos europeus que o Brasil possui mecanismos para cumprir as exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos.

O Índice de Preços do International Grains Council (IGC) subiu 3,0% em maio ante abril, segundo dados do Ministério da Agricultura e Ambiente (MAA). Entre os principais produtos, o trigo liderou as altas com 3,8%, seguido pelo arroz com 3,7% e pelo milho com 2,0%. Para a safra 2025/26, a previsão aponta produção mundial recorde, enquanto para 2026/27 indica uma queda de 3% na colheita global, devido à menor produção nos países exportadores. No milho, a produção estimada para 2025/26 é de 1.329 milhões de toneladas, com recuo de 2% em 2026/27 por redução da área plantada e da produtividade. O arroz manteve a tendência de alta, puxado pela menor disponibilidade no Vietnã e pela oferta restrita na Tailândia; a variedade Thai 5% Broken teve alta de 8,5%. A soja ficou mais cara, sustentada pelo aumento dos preços de energia e pela valorização dos óleos vegetais nos EUA, com impactos também no Brasil e na Argentina. Já o açúcar subiu 3,4% em maio, devido às previsões de queda na produção por el Niño, especialmente na Índia, Tailândia e Brasil; além disso, a opção de fábricas brasileiras por desviar cana para etanol reduziu a oferta de açúcar para exportação, elevando os preços internacionais. Fonte: Inforpress.