
São Paulo — A ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, registrada no último sábado, sinaliza uma mudança nas regras do comércio e da geopolítica global e pode trazer efeitos indiretos relevantes para o Brasil, especialmente no abastecimento e nos preços de insumos ligados à cadeia de alimentos. A avaliação é do coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, durante o Fórum Integração e Biocompetitividade, realizado em São Paulo.
Segundo Jank, o cenário internacional tende a se afastar de um modelo em que a eficiência produtiva determina vencedores e perdedores. Em seu lugar, ganharia força um ambiente de “comércio administrado”, marcado por alianças estratégicas, preferências políticas e restrições entre blocos de países.
“Não é mais um mundo de comércio em que o país mais eficiente ganha; é o mundo do comércio administrado, em que você tem relações com certos países e outros não”, afirmou Jank.
Ao analisar os objetivos dos Estados Unidos de recuperar espaço em mercados internacionais, Jank apontou que a tendência pode se intensificar caso a escalada militar consolide a influência americana no Oriente Médio. Para ele, setores nos quais o Brasil ampliou presença nos últimos anos — como soja e carnes — podem sentir com mais força a concorrência e possíveis rearranjos comerciais.
“Eu não duvidaria que eles queiram recuperar os mercados que eles perderam pra gente em soja e em carnes”, disse. Na visão do especialista, a combinação entre geopolítica e comércio pode alterar fluxos tradicionais, com impacto sobre custos, prazos e previsibilidade de contratos.
Apesar da preocupação, Jank não prevê uma interrupção imediata nas exportações brasileiras para o Oriente Médio. O alerta principal, no curto prazo, recai sobre o aumento do custo logístico e a pressão sobre o custo de produção, impulsionados pela alta do petróleo — fator que costuma repercutir no preço de combustíveis, fretes e também de insumos como fertilizantes.
Ele observou ainda que intervenções anteriores dos Estados Unidos em conflitos na região, como na Síria e no Iraque, foram seguidas por instabilidade prolongada. Isso, segundo Jank, dificulta projeções precisas sobre o impacto no setor de alimentos.
“É muito difícil fazer uma análise clara de qual será o impacto no agro. Mas eu diria que, no curto prazo, este impacto se dará pela alta do petróleo.”
O Brasil ocupa posição de liderança na produção mundial de carne halal, abatida conforme preceitos islâmicos e destinada, em grande parte, a consumidores do Oriente Médio. Nesse contexto, a atenção se volta para corredores logísticos sensíveis, como o Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o escoamento de cargas e energia na região.
Dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira indicam que as exportações brasileiras de carne bovina para países árabes encerraram 2025 em alta de 1,91%, somando US$ 1,79 bilhão. Embora os números apontem crescimento, o cenário atual adiciona risco operacional, sobretudo se houver aumento de prêmios de seguro, congestionamentos em rotas ou necessidade de desvios.
Combustíveis mais caros elevam custo de transporte e energia na cadeia produtiva.
Fertilizantes podem subir, pressionando lavouras e custos de ração.
Fretes marítimos e seguros tendem a encarecer em áreas de conflito.
Competição comercial pode aumentar com tentativa de retomada de mercados por grandes potências.
Na avaliação do advogado Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados, o momento exige cautela, mas não necessariamente mudanças abruptas em contratos. Ele explicou que acordos comerciais não são automaticamente suspensos por hipóteses de força maior, especialmente quando existem alternativas de escoamento.
Favacho citou a possibilidade de utilização de rotas alternativas, como caminhos pelo Mediterrâneo, embora reconheça que esses trajetos podem ser mais caros e mais complexos, afetando cronogramas e custos finais.
“Os contratos não ficam imediatamente suspensos na medida em que os exportadores brasileiros possam ter outras rotas. Só que são rotas mais caras e mais complicadas”, afirmou.
O risco de pressão logística e de custos não se restringe às proteínas animais. Favacho avalia que o Brasil pode sofrer efeitos também em produtos como soja e açúcar destinados ao Oriente Médio, a depender da evolução do conflito e do comportamento dos preços internacionais.
Para ele, o quadro demanda monitoramento constante para embasar decisões estratégicas nas próximas semanas, tanto por exportadores quanto por setores dependentes de insumos importados e combustíveis.
Destaque: A combinação entre tensão geopolítica e alta do petróleo pode acelerar repasses de custos ao longo da cadeia de alimentos, pressionando produção, logística e competitividade no comércio exterior.
Em períodos de instabilidade no Oriente Médio, o petróleo costuma reagir rapidamente. Isso afeta o setor de alimentos por múltiplas vias: do diesel que move caminhões e tratores à energia usada em frigoríficos, passando por custos indiretos como embalagens, armazenagem e distribuição.
Fator Possível efeito Alta do diesel Fretes mais caros e maior custo de escoamento da produção. Pressão sobre fertilizantes Elevação do custo agrícola e impacto em produtividade e margens. Risco logístico Rotas alternativas, atrasos e aumento de seguros em áreas sensíveis. Competitividade no comércio Mudança de fluxos e disputas por mercados estratégicos.
Especialistas destacam que os efeitos imediatos tendem a se concentrar nos custos e na logística, mas o desdobramento do conflito pode influenciar decisões comerciais e políticas de abastecimento em diferentes regiões. Para exportadores brasileiros, o desafio é equilibrar continuidade operacional com gestão de risco, observando rotas, preços de energia e condições de seguro e transporte.
Com o Oriente Médio sendo um mercado relevante para proteínas e commodities, a evolução do cenário geopolítico deve permanecer no radar das empresas e das cadeias de suprimentos — especialmente em um contexto em que relações internacionais e comércio podem se tornar ainda mais condicionados por alianças e interesses estratégicos.

Resumo: A Abramilho acompanha com apreensão a guerra entre EUA, Israel e Irã, destacando o Irã como principal parceiro comercial do Brasil nas exportações de milho. Entre 2020 e 2025, o Irã absorveu 9,08 milhões de toneladas de milho brasileiro, cerca de 20% das exportações brasileiras no último ano, com aproximadamente 80% do milho importado pelo Irã vindo do Brasil. O Irã também exporta ureia (184,7 mil toneladas no último ano), mas suas vendas diretas ao Brasil são limitadas por sanções; em 2025 o Brasil importou cerca de US$ 84 milhões em produtos iranianos. Há suspeitas de Triangulação de Carga para driblar restrições. No Brasil, a demanda interna supera a produção neste período, com a primeira safra em torno de 26 milhões de toneladas e o consumo no primeiro semestre chegando a cerca de 50 milhões de toneladas, com as exportações de milho previstas para se intensificarem a partir da segunda colheita. A entidade alerta que a escalada do conflito pode influenciar o cenário futuro, mas, enquanto não houver ataques que comprometam portos por razões humanitárias, o abastecimento interno de milho não deverá ser prejudicado.

Resumo: O fechamento do Estreito de Ormuz pode impactar o agronegócio de Minas Gerais ao elevar o custo do petróleo, combustíveis e fretes, pressionando a logística e o custo de produção. A crise tende a valorizar o dólar, o que, por um lado, pode favorecer exportações para o mercado árabe, mas, por outro, encarece fertilizantes, defensivos e máquinas importadas. O setor de fertilizantes, dependente de insumos importados, fica particularmente vulnerável à volatilidade de preços. A Faemg/Senar recomenda reforçar a gestão de risco, planejar compras de insumos com antecedência, usar instrumentos de proteção de preços e manter o fluxo de caixa sob controle, além de cobrar ações diplomáticas para reduzir impactos. Apesar dos riscos, há potencial de maior receita em reais com as exportações, desde que custos permaneçam sob controle.

Sumário: O PIB do setor agropecuário brasileiro cresceu 29,1% desde 2020, com 2025 registrando alta de 11,7% impulsionada por safras recordes na agricultura e pela recuperação da pecuária. Em 2024/25 houve safra de soja de 166 milhões de toneladas e milho de 142 milhões em 2025; para 2026, a projeção aponta queda do milho para 134 milhões e do arroz para 11,5 milhões (-2,2%), comrecados esperados para algodão, trigo e sorgo, enquanto a soja pode alcançar recorde de 173 milhões. A laranja atingiu 15,7 milhões de toneladas (+28,4%), o arroz 12,7 milhões (+19,4%) e o algodão 9,9 milhões (+11,4%). A cana-de-açúcar permanece estável. A produção de carne totalizou 33 milhões de toneladas em 2025, com a bovina dominando as exportações mundiais; no entanto, 2026 tende a trazer maior volatilidade e possível redução de oferta, influenciada pela demanda chinesa e por riscos geopolíticos, como a guerra no Irã. Café (+6%), cacau e batata também devem sustentar o PIB do setor.

Resumo: A agricultura regenerativa pode transformar uma propriedade de emissora de carbono para capturadora, armazenando carbono no solo na forma de matéria orgânica, com o solo como o segundo maior reservatório do planeta. O modelo aumenta biodiversidade, recupera ecossistemas e reduz custos a médio e longo prazo ao diminuir a dependência de insumos. Além disso, favorece a vida microbiana do solo e polinizadores, com sistemas integrados como ILPF e o uso de bioinsumos contribuindo para reduzir emissões de óxido nitroso e metano. Economicamente, pode gerar até US$ 1,4 trilhão em oportunidades e criar 62 milhões de empregos no mundo; no Brasil, tende a alinhar conservação ambiental e competitividade, ampliando acesso a mercados e financiamento verde por meio de rastreabilidade. A estabilidade de custos vem da menor dependência de insumos importados e do maior uso de processos biológicos. Embora associada à orgânica, a regenerativa foca em resultados ecológicos (sequestro de carbono, biodiversidade, melhoria do solo) em vez de proibições de insumos. Em transições, podem ocorrer insumos sintéticos pontuais, desde que avaliados por indicadores ambientais. Para iniciar, é essencial um diagnóstico detalhado do solo, identificação de problemas e medidas como bioinsumos, diversificação de culturas, rotação de plantios e plantio direto, com apoio de extensão rural e troca entre produtores já atuantes.

Resumo: A indústria brasileira de máquinas e equipamentos desacelerou em janeiro, com a receita líquida de vendas caindo 17% ante janeiro de 2025, para R$ 17,28 bilhões. No mercado interno, a receita recuou 19% (R$ 12,8 bilhões) e o consumo aparente caiu 21,5% (R$ 26,5 bilhões). As exportações chegaram a US$ 838,2 milhões, alta de 3,1% YoY, mas queda de 41,4% em relação a dezembro. As importações somaram US$ 2,48 bilhões, -10,3% YoY. O nível de utilização da capacidade instalada ficou em 78,6% (alta de 0,6 ponto percentual MoM e 4% frente a janeiro de 2025). O backlog de pedidos ficou em 9 semanas. A Abimaq projeta crescimento de 3,5% na produção e aproximadamente 4% na receita líquida do setor neste ano, sustentados principalmente pelo mercado doméstico, com expansão da demanda próxima de 5,6%, impulsionada por projetos de infraestrutura e investimentos continuados em atividades extrativistas. Em máquinas agrícolas, as vendas devem cair cerca de 5% em 2026; em janeiro, a receita com venda de máquinas e implementos caiu 15,6% YoY, para R$ 3,6 bilhões.