
O agronegócio brasileiro inicia o novo ciclo sob juros elevados, maior seletividade no crédito, preços pressionados e custos de produção ainda altos. O relatório Visão Agro 2026, do Itaú BBA, aponta o El Niño como fator de risco nesse ambiente e associa o cenário macroeconômico e climático a maior exposição para culturas como soja, milho, trigo, café e citros.
Nesse quadro da safra 2026/27, o manejo do solo volta ao primeiro plano. Em Bandeirantes (PR), estudos de campo do Núcleo de BioSoluções de Bandeirantes, do Biocentro da Vitalforce, indicam que aproximadamente 93% das doenças presentes na área permanecem associadas ao solo e à palhada. A leitura, atribuída ao engenheiro agrônomo Felipe Crepaldi e à equipe técnica do professor Erich Reis, é a de que palhada e solo funcionam como reservatório de patógenos de uma safra para a outra. A coleta de amostras de palhada é realizada pela iniciativa Blitz do Patógeno da Vitalforce.
Em outra praça, na Região Sul do Brasil, a recomendação de manejo segue linha profilática. O engenheiro agrônomo Alécio Radons, RTV da Satis, indica aplicar Trichoderma no inverno ou no sulco de semeadura para o controle biológico de fungos de solo como Phytophthora, Pythium, Fusarium e Rhizoctonia. A orientação se apoia no excesso de água no solo impulsionado pelo El Niño, condição que favorece fungos causadores de tombamento e podridões radiculares.
No Mercosul, o recorte é de calendário, não de diagnóstico de lavoura. O Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria do Uruguai (INIA) e Sergio Cardoso preveem que o El Niño amplia a probabilidade de chuvas acima da média na primavera e no início do verão uruguaio, afetando o preparo e a semeadura da safra de arroz 2026/27.
Em períodos anteriores, o Sul já registrou perdas associadas a extremos climáticos, em outro recorte de tempo e de cultura. Em 2020, estudo da Epagri apontou que o ciclone-bomba atingiu mais de 13 mil hectares de bananais no Norte catarinense, com perdas estimadas em mais de 315 mil toneladas e prejuízos superiores a R$ 205 milhões, após ventos fortes e temporais derrubarem plantas. Santa Catarina possui cerca de 3.800 bananicultores, e a atividade representa aproximadamente 28% do Valor Bruto da Produção da fruticultura do estado.
Na safra 2025/2026, ainda em Santa Catarina, Massaranduba alcançou aproximadamente 49,9 mil toneladas de arroz, a sétima maior produção entre os municípios catarinenses, em cultivo irrigado em áreas de várzea.

A Datagro estima 49,3 milhões de hectares de soja no Brasil na safra 2026/27, o menor ritmo de expansão em duas décadas, com produção de 185,6 milhões de toneladas. Em avaliação à parte, a Cofco no Brasil prevê redução da safra por El Niño, menor crescimento de área e restrição de crédito.

O INIA do Uruguai classifica o El Niño como evento de forte intensidade já em curso, com chance de ganho de força e de precipitações acima do padrão no norte do país. Analista do Mercosul inclui o fenômeno entre os pontos de vigilância da safra de arroz, mas alerta que previsão não equivale a quebra.

Relatório do Inmet indica probabilidade superior a 90% de o El Niño permanecer até o início de 2027. A Embrapa recomenda respeito ao Zarc, formação de palhada, escalonamento da semeadura e cultivares de ciclos distintos para reduzir riscos climáticos na soja da safra 2026/2027.

O veranico e uma área de alta pressão devem manter o calor intenso no Centro-Oeste nos próximos dias, com máximas que podem superar 36°C em Mato Grosso e Goiás. A regularização das chuvas nesses estados é estimada para o fim de setembro e outubro, enquanto uma frente fria pode elevar os acumulados acima de 50 mm na Campanha gaúcha a partir de quinta-feira.

Projeções do INMET indicam que o El Niño permanece no Pacífico Equatorial até o verão de 2026/2027. No Tocantins, o fenômeno pode favorecer menos chuva, temperaturas mais altas e maior risco de queimadas, com impactos possíveis sobre soja, milho e pastagens.