
A escalada do conflito no Oriente Médio tem provocado impactos imediatos na logística global, com aumento de custos, mudanças de rotas e aplicação de sobretaxas por grandes armadoras. O efeito chega com força às cargas refrigeradas — essenciais para o comércio de alimentos e produtos perecíveis — e tende a pressionar preços, prazos e a previsibilidade das cadeias de abastecimento.
Estimativas da consultoria Macroinfra apontam que a multa por demurrage (cobrança por atraso na devolução do contêiner) pode variar de US$ 325 a US$ 475 por dia para um contêiner refrigerado de 40 pés. Em um cenário de atraso de duas semanas, a penalidade pode chegar a US$ 6.400 por contêiner no período.
Segundo Olivier Girard, diretor da Macroinfra, os navios que normalmente operam no Brasil têm capacidade para transportar de 800 a 1.200 contêineres refrigerados em uma única viagem. Considerando uma embarcação com 1.200 unidades e a taxa máxima de demurrage estimada (US$ 475 por contêiner/dia), o custo diário pode alcançar aproximadamente US$ 570 mil.
Na prática, a demurrage se soma a um conjunto de despesas adicionais que se intensificaram com o conflito, elevando a pressão sobre exportadores e importadores. As empresas relatam maior dificuldade para planejar janelas de embarque e desembarque, além de mais incerteza sobre a disponibilidade de navios e contêineres, especialmente os refrigerados.
Pesquisadores do Insper Agro Global destacam que, além da demurrage, os custos logísticos cresceram por conta de desvios de rota, maior percepção de risco e aumento de prêmios de seguro no transporte marítimo. O resultado, segundo o estudo, é a ampliação das despesas operacionais ao longo da cadeia, afetando o custo total de levar alimentos e mercadorias aos mercados de destino.
O conflito também trouxe preocupação com gargalos em rotas estratégicas. O Estreito de Ormuz, localizado entre os golfos Pérsico e de Omã, é uma passagem por onde circula uma parcela relevante do comércio mundial, incluindo pelo menos 20% da produção global de petróleo, além de outras mercadorias com origem e destino no Oriente Médio. O Insper aponta ainda risco para a movimentação marítima no estreito de Bab el-Mandeb, acesso ao Canal de Suez, no Egito — corredor crítico para o tráfego internacional.
Grandes empresas de transporte marítimo começaram a aplicar Sobretaxas de Risco de Guerra e a rever rotas e condições contratuais. Uma das maiores armadoras do mundo, a MSC, passou a cobrar uma sobretaxa para cargas que saem da Península Arábica em direção a mercados na África e ilhas do Oceano Índico. Os valores anunciados incluem:
US$ 4.000 por contêiner refrigerado;
US$ 3.000 por contêiner de 40 pés;
US$ 2.000 por contêiner de 20 pés.
Além disso, a MSC declarou fim da viagem para remessas sob sua custódia com destino a portos no Golfo Pérsico e informou que as cargas em trânsito poderão ser desviadas para o próximo porto seguro. Nesse contexto, foi comunicada também a aplicação de uma sobretaxa obrigatória de US$ 800 por contêiner para remessas afetadas, com a justificativa de cobrir custos de desvio. A companhia alertou ainda para a possibilidade de outros custos atribuídos à carga.
Outras armadoras, como Hapag-Lloyd e CMA, estiveram entre as primeiras a suspender a travessia pelo Estreito de Ormuz e a aplicar sobretaxas associadas ao risco de guerra, com vigência informada desde o início de março. No caso da Hapag-Lloyd, os valores incluem US$ 1.500 por TEU para contêineres padrão e US$ 3.500 por unidade para contêineres refrigerados. Já a CMA anunciou sobretaxa que pode chegar a US$ 4.000 por contêiner refrigerado.
O aumento das tarifas e a imprevisibilidade de rotas afetam especialmente o transporte de alimentos, que depende de prazos rígidos e estabilidade térmica. Em cargas refrigeradas, atrasos ampliam riscos de perda de qualidade, vencimento de janelas de entrega e necessidade de replanejamento de estoque, o que pode repercutir em custos adicionais e maior pressão sobre preços ao consumidor.
Embora a dinâmica seja logística, o reflexo chega ao cotidiano: quando rotas ficam mais longas e caras, o custo total de distribuição tende a subir. Isso é particularmente sensível em produtos essenciais, como carnes, laticínios e frutas, que exigem cadeia de frio contínua e têm menor tolerância a interrupções.
Apesar das dificuldades, a expectativa é de que não haja interrupção total nas exportações brasileiras para a região, com reorganização de caminhos marítimos. O presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, William Adib Dib Junior, avaliou que a maior parte das exportações brasileiras ao mercado árabe é composta por alimentos, considerados essenciais, o que favorece a busca por alternativas operacionais para manter o fluxo.
O principal efeito, segundo ele, deve ser o aumento de custos diante da necessidade de uma logística mais complexa e cautelosa. Entre possibilidades em avaliação, aparece o uso de rotas envolvendo o Golfo de Omã, dependendo das condições de segurança e disponibilidade de tráfego.
Item Valor Observação Demurrage (reefer 40 pés) US$ 325 a US$ 475 por dia Atraso de 2 semanas pode chegar a US$ 6.400 por contêiner Custo diário estimado (navio com 1.200 reefers) ~ US$ 570 mil/dia Considerando taxa de US$ 475 por contêiner/dia Sobretaxa de risco (MSC) Até US$ 4.000 (reefer) Aplicada a cargas a partir da Península Arábica para destinos selecionados Sobretaxa por desvio (MSC) US$ 800 por contêiner Para remessas afetadas por mudanças operacionais Sobretaxa de risco (Hapag-Lloyd) US$ 1.500 por TEU (padrão) / US$ 3.500 (reefer) Aplicada após suspensão de travessia em rota sensível Sobretaxa de risco (CMA) Até US$ 4.000 (reefer) Foco em contêineres refrigerados
Com o encarecimento do frete, das sobretaxas e do seguro marítimo, analistas avaliam que a tendência é de manutenção de volatilidade nos custos logísticos enquanto persistirem incertezas geopolíticas nas principais rotas internacionais.
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