
Demurrage atinge US$ 6.400 por contêiner e sobretaxa de guerra eleva tarifas no transporte marítimo brasileiro
Resumo: O conflito no Oriente Médio elevou significativamente os custos logísticos e de demurrage no transporte marítimo. A demurrage pode variar de US$ 325 a US$ 475 por contêiner refrigerado de 40 pés por dia, e um atraso de duas semanas pode chegar a cerca de US$ 6.400 por contêiner. Navios de 800–1.200 TEUs podem gerar custo diário próximo de US$ 570 mil em uma operação com 1.200 contêineres a US$ 475/dia. Pesquisadores do Insper Agro Global apontam que, além da demurrage, há desvios de rota, maior percepção de risco e prêmios de seguro mais altos, elevando as despesas operacionais. O bloqueio ou restrição de navegação pelas vias como o Estreito de Hormuz e Bab el-Mandeb ameaça cerca de 20% do tráfego mundial de petróleo e mercadorias, com impactos também no Canal de Suez. A MSC aplicou uma Sobretaxa de Risco de Guerra (WSR) de até US$ 4.000 por contêiner refrigerado e US$ 800 adicionais por contêiner para desvio; a empresa também anunciou o redirecionamento de remessas. Hapag-Lloyd e CMA foram entre as primeiras a suspender travessias pelo Hormuz e a aplicar WSR, com tarifas variando de US$ 1.500 a US$ 4.000 por contêiner refrigerado. No Brasil, a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira afirma que não deve haver interrupções nos envios para a região, destacando que cerca de 75% das exportações brasileiras para o mercado árabe são alimentos essenciais e que rotas alternativas, como o Golfo de Omã, estão sendo consideradas.
Guerra eleva custos do transporte marítimo e pressiona exportações de alimentos e cadeias refrigeradas
A escalada do conflito no Oriente Médio tem provocado impactos imediatos na logística global, com aumento de custos, mudanças de rotas e aplicação de sobretaxas por grandes armadoras. O efeito chega com força às cargas refrigeradas — essenciais para o comércio de alimentos e produtos perecíveis — e tende a pressionar preços, prazos e a previsibilidade das cadeias de abastecimento.
Estimativas da consultoria Macroinfra apontam que a multa por demurrage (cobrança por atraso na devolução do contêiner) pode variar de US$ 325 a US$ 475 por dia para um contêiner refrigerado de 40 pés. Em um cenário de atraso de duas semanas, a penalidade pode chegar a US$ 6.400 por contêiner no período.
Demurrage pode gerar perdas diárias de centenas de milhares de dólares
Segundo Olivier Girard, diretor da Macroinfra, os navios que normalmente operam no Brasil têm capacidade para transportar de 800 a 1.200 contêineres refrigerados em uma única viagem. Considerando uma embarcação com 1.200 unidades e a taxa máxima de demurrage estimada (US$ 475 por contêiner/dia), o custo diário pode alcançar aproximadamente US$ 570 mil.
Na prática, a demurrage se soma a um conjunto de despesas adicionais que se intensificaram com o conflito, elevando a pressão sobre exportadores e importadores. As empresas relatam maior dificuldade para planejar janelas de embarque e desembarque, além de mais incerteza sobre a disponibilidade de navios e contêineres, especialmente os refrigerados.
Rotas desviadas, seguro mais caro e risco maior ampliam despesas
Pesquisadores do Insper Agro Global destacam que, além da demurrage, os custos logísticos cresceram por conta de desvios de rota, maior percepção de risco e aumento de prêmios de seguro no transporte marítimo. O resultado, segundo o estudo, é a ampliação das despesas operacionais ao longo da cadeia, afetando o custo total de levar alimentos e mercadorias aos mercados de destino.
O conflito também trouxe preocupação com gargalos em rotas estratégicas. O Estreito de Ormuz, localizado entre os golfos Pérsico e de Omã, é uma passagem por onde circula uma parcela relevante do comércio mundial, incluindo pelo menos 20% da produção global de petróleo, além de outras mercadorias com origem e destino no Oriente Médio. O Insper aponta ainda risco para a movimentação marítima no estreito de Bab el-Mandeb, acesso ao Canal de Suez, no Egito — corredor crítico para o tráfego internacional.
Armadoras anunciam sobretaxas e mudanças operacionais
Grandes empresas de transporte marítimo começaram a aplicar Sobretaxas de Risco de Guerra e a rever rotas e condições contratuais. Uma das maiores armadoras do mundo, a MSC, passou a cobrar uma sobretaxa para cargas que saem da Península Arábica em direção a mercados na África e ilhas do Oceano Índico. Os valores anunciados incluem:
US$ 4.000 por contêiner refrigerado;
US$ 3.000 por contêiner de 40 pés;
US$ 2.000 por contêiner de 20 pés.
Além disso, a MSC declarou fim da viagem para remessas sob sua custódia com destino a portos no Golfo Pérsico e informou que as cargas em trânsito poderão ser desviadas para o próximo porto seguro. Nesse contexto, foi comunicada também a aplicação de uma sobretaxa obrigatória de US$ 800 por contêiner para remessas afetadas, com a justificativa de cobrir custos de desvio. A companhia alertou ainda para a possibilidade de outros custos atribuídos à carga.
Outras armadoras, como Hapag-Lloyd e CMA, estiveram entre as primeiras a suspender a travessia pelo Estreito de Ormuz e a aplicar sobretaxas associadas ao risco de guerra, com vigência informada desde o início de março. No caso da Hapag-Lloyd, os valores incluem US$ 1.500 por TEU para contêineres padrão e US$ 3.500 por unidade para contêineres refrigerados. Já a CMA anunciou sobretaxa que pode chegar a US$ 4.000 por contêiner refrigerado.
Impacto direto na cadeia de alimentos e perecíveis
O aumento das tarifas e a imprevisibilidade de rotas afetam especialmente o transporte de alimentos, que depende de prazos rígidos e estabilidade térmica. Em cargas refrigeradas, atrasos ampliam riscos de perda de qualidade, vencimento de janelas de entrega e necessidade de replanejamento de estoque, o que pode repercutir em custos adicionais e maior pressão sobre preços ao consumidor.
Embora a dinâmica seja logística, o reflexo chega ao cotidiano: quando rotas ficam mais longas e caras, o custo total de distribuição tende a subir. Isso é particularmente sensível em produtos essenciais, como carnes, laticínios e frutas, que exigem cadeia de frio contínua e têm menor tolerância a interrupções.
Comércio com o mercado árabe deve buscar rotas alternativas
Apesar das dificuldades, a expectativa é de que não haja interrupção total nas exportações brasileiras para a região, com reorganização de caminhos marítimos. O presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, William Adib Dib Junior, avaliou que a maior parte das exportações brasileiras ao mercado árabe é composta por alimentos, considerados essenciais, o que favorece a busca por alternativas operacionais para manter o fluxo.
O principal efeito, segundo ele, deve ser o aumento de custos diante da necessidade de uma logística mais complexa e cautelosa. Entre possibilidades em avaliação, aparece o uso de rotas envolvendo o Golfo de Omã, dependendo das condições de segurança e disponibilidade de tráfego.
Resumo dos principais custos citados
Item Valor Observação Demurrage (reefer 40 pés) US$ 325 a US$ 475 por dia Atraso de 2 semanas pode chegar a US$ 6.400 por contêiner Custo diário estimado (navio com 1.200 reefers) ~ US$ 570 mil/dia Considerando taxa de US$ 475 por contêiner/dia Sobretaxa de risco (MSC) Até US$ 4.000 (reefer) Aplicada a cargas a partir da Península Arábica para destinos selecionados Sobretaxa por desvio (MSC) US$ 800 por contêiner Para remessas afetadas por mudanças operacionais Sobretaxa de risco (Hapag-Lloyd) US$ 1.500 por TEU (padrão) / US$ 3.500 (reefer) Aplicada após suspensão de travessia em rota sensível Sobretaxa de risco (CMA) Até US$ 4.000 (reefer) Foco em contêineres refrigerados
Com o encarecimento do frete, das sobretaxas e do seguro marítimo, analistas avaliam que a tendência é de manutenção de volatilidade nos custos logísticos enquanto persistirem incertezas geopolíticas nas principais rotas internacionais.
```




