
Irã reduz compras de milho; Brasil pode ganhar espaço com China como substituta, dizem analistas
Resumo: o consumo de caprinos e ovinos no Irã caiu, elevando a demanda por aves e, consequentemente, as importações de milho. com a moeda local em queda, as compras devem cair, tornando as importações mais caras. a lacuna de demanda iraniana pode ser preenchida pela china, que já foi a maior fornecedora do milho brasileiro, mas isso dependerá do preço e dos estoques. um analista destaca que o Irã foi a salvação das exportações brasileiras em 2025 e, sem ele, não seriam atingidas 40 milhões de toneladas escoadas; outro afirma que a china é carta fora do baralho no momento, após ter abastecido seus estoques e prever reduzir compras por três anos. há ainda a visão de que não há outro comprador com o mesmo potencial de absorção no curto prazo. por fim, parte do milho que deixar de ir ao Irã pode ficar no mercado interno para atender à indústria de etanol de milho.
Crise no Irã pode reduzir importações de milho e mudar o equilíbrio do mercado: impactos na cadeia de aves e alimentos
A possível retração das compras iranianas de milho brasileiro acende um alerta para produtores, exportadores e para a indústria de proteína animal. Analistas apontam dificuldade de substituição no curto prazo e divergem sobre o potencial de demanda da China.
Demanda por aves cresce no Irã, mas crise pode frear importações
O mercado internacional de milho acompanha com atenção os próximos passos do Irã, que elevou sua demanda por aves após a queda do consumo de caprinos e ovinos nos últimos anos. Esse movimento, por consequência, impulsionou a necessidade de ração e levou o país a ampliar de forma consistente suas importações de milho.
Agora, porém, essa trajetória pode mudar. A avaliação é que as compras iranianas tendem a cair diante de uma crise esperada para os próximos meses, com a moeda local em declínio. Na prática, o enfraquecimento cambial deve encarecer as importações, reduzindo o apetite do país por milho no mercado externo.
Para a cadeia de alimentos, o tema é relevante porque o milho é um insumo central para a produção de rações, influenciando custos e preços de produtos como frango e ovos.
Lacuna deixada pelo Irã: China pode ocupar parte do espaço?
Um trader ouvido pelo mercado, sob condição de anonimato, avalia que a lacuna de demanda deixada por uma eventual redução das compras iranianas pode ser parcialmente absorvida pela China, que já figurou como o maior importador do milho brasileiro.
Segundo essa visão, Pequim tem capacidade de comprar grandes volumes do Brasil, mas o fator determinante será o preço. Isso porque a China vem fortalecendo sua produção e também mantém alternativas de abastecimento com outros fornecedores.
O mesmo analista destaca ainda um possível desdobramento interno: parte do milho que deixaria de seguir para exportação pode permanecer no mercado doméstico, atendendo a expansão da indústria de etanol de milho, que tem crescido e aumentado a demanda pelo cereal.
Possível efeito 1: menor exportação para o Irã e maior disponibilidade interna.
Possível efeito 2: redirecionamento de volumes para a China, condicionado a preços competitivos.
Possível efeito 3: pressão e ajustes em toda a cadeia do milho, da produção ao consumo industrial.
Analistas divergem: substituição pode ser difícil no curto prazo
Para Ronaldo Fernandes, analista da Royal Rural, a substituição do volume comprado pelo Irã não será simples. Ele afirma que o país teve papel central no desempenho das exportações brasileiras em 2025, ajudando o Brasil a alcançar um patamar de escoamento elevado.
Na leitura de Fernandes, sem as compras iranianas, o setor não teria atingido as 40 milhões de toneladas exportadas em 2025 — um volume descrito por ele como muito acima do padrão que costuma variar entre 4 milhões e 6 milhões de toneladas.
Em contraponto à tese de que a China poderia ocupar a lacuna, Fernandes considera que, neste momento, o país asiático está fora do radar como grande comprador do milho brasileiro.
“A China comprou muito milho do Brasil em 2023/24, mas foi um movimento cíclico. Ela abasteceu seus estoques e agora ficará anos sem fazer grandes compras.”
Na projeção do analista, as compras chinesas neste ano não devem ultrapassar 2 milhões de toneladas, após um período em que o país importou cerca de 16 milhões de toneladas em 2023/24.
Risco para toda a cadeia do milho e efeitos no setor de alimentos
A avaliação de Enilson Nogueira, analista da Céleres Consultoria, reforça a complexidade do cenário. Para ele, não há, no curto prazo, um consumidor com o mesmo potencial de absorção para substituir a demanda do Irã.
Nogueira classifica uma eventual queda das exportações para o país como um ponto de atenção para toda a cadeia do milho — do campo à indústria —, já que mudanças bruscas em fluxos internacionais podem alterar a dinâmica de preços, logística e planejamento de vendas.
Por que isso importa para o consumidor? Embora o debate ocorra no comércio internacional, o milho influencia diretamente o custo de ração, que é um dos principais componentes de preço na produção de proteínas como frango e ovos. Além disso, a crescente demanda do cereal para etanol de milho adiciona um novo vetor de competição por oferta.
Resumo do cenário (pontos-chave)
Fator O que está acontecendo Possível impacto Irã Risco de queda nas compras devido à crise e desvalorização da moeda Menor demanda externa e incerteza para exportações China Capacidade existe, mas compras dependem de preço; há divergência entre analistas Pode absorver parte do volume ou ficar em níveis baixos no ano Mercado interno Indústria de etanol de milho em expansão pode reter parte do cereal no país Disputa por oferta e efeitos sobre preços e disponibilidade




