
Banco retoma compras de participações após revisão de regras e destaca desempenho bilionário da carteira nos últimos três anos.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) defendeu a aquisição de participação na Cosan mesmo diante da crise financeira enfrentada pela Raízen, joint venture controlada pela holding em conjunto com a Shell, que entrou recentemente em recuperação extrajudicial. Segundo Alexandre Abreu, diretor Financeiro e de Mercado de Capitais do banco, a leitura do BNDES é que a Cosan reúne um conjunto de ativos relevantes que vai além da Raízen, e que a turbulência já está refletida na precificação da companhia.
Abreu afirmou que a holding possui “ativos valiosos” em seu portfólio e citou áreas e empresas que, na visão do banco, ajudam a sustentar a tese de investimento. Entre os exemplos mencionados estão Compass, Rumo e Moove. Para o executivo, a Raízen segue sendo um ativo importante, apesar do momento desafiador.
“A Raízen é um belo ativo, está passando por uma dificuldade, mas de certa forma tudo isso está precificado quando se investe na holding.”
A participação do BNDES na Cosan, de 2%, foi adquirida por R$ 409 milhões em ofertas públicas realizadas em novembro de 2025.
De acordo com Alexandre Abreu, após um hiato em 2023 e 2024, período em que o BNDES promoveu uma revisão de processos internos, o banco voltou a comprar participações acionárias amparado por novas diretrizes. As regras foram divulgadas em 2025 e impactam tanto as condições de investimento — especialmente via BNDESPar — quanto o papel da instituição na governança das companhias investidas.
Além do movimento envolvendo a Cosan, Abreu listou outros investimentos recentes do banco em empresas e projetos ligados a tendências estruturais, com destaque para energia, transição climática e inovação.
Investimentos recentes citados pelo BNDES
Grupo Santa Clara (fertilizantes)
Bioo (biometano)
Eve Air Mobility (mobilidade aérea)
No campo de fundos, o BNDES também apontou o lançamento de um veículo voltado a minerais críticos, em parceria com a Vale, e outro direcionado a energia sustentável, em parceria com a Petrobras. Segundo Abreu, em 2026 o banco pretende manter suas teses de investimento, com ênfase em descarbonização, inovação e frentes associadas a esses temas.
Ao comentar o custo do crédito no Brasil, Abreu avaliou que as taxas elevadas cobradas das empresas têm relação mais direta com o risco de inadimplência do que apenas com o nível da Selic. Para ele, existe um ciclo em que o risco percebido encarece o crédito e o crédito caro, por sua vez, dificulta o pagamento, ampliando a pressão sobre empresas já alavancadas.
Como resposta a esse desafio, o executivo citou o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), administrado pelo BNDES, criado para facilitar o acesso ao crédito principalmente por micro, pequenas e médias empresas. O mecanismo funciona como avalista em determinadas operações, sem significar, segundo Abreu, uma liberação indiscriminada de crédito.
Abreu acrescentou que uma eventual queda da Selic poderia ajudar companhias a reduzir alavancagem e liberar espaço no Ebitda para investimento, lucro e capex, com potencial de elevar o valor das empresas e gerar impacto positivo na economia.
Em outra frente, o BNDES deixou de ser credor da Novonor (antiga Odebrecht) e passou a ser cotista de um fundo que assumiu o controle da Braskem ao lado da Petrobras. A movimentação ocorreu em uma operação que também envolveu Itaú, Banco do Brasil, Bradesco e Santander.
Conforme explicado por fonte do mercado, a mudança decorre do fato de que a Novonor havia dado ações da Braskem em garantia de empréstimo. Esses papéis teriam sido vendidos para um fundo, levando os bancos a se tornarem cotistas. O processo, segundo as informações disponíveis, ainda não foi concluído.
O BNDES informou que sua carteira de participações gerou retorno de R$ 54,8 bilhões nos últimos três anos, impulsionada por recebimento de proventos, valorização das ações em carteira e venda de papéis. Alexandre Abreu destacou que o desempenho superou referenciais do mercado no período analisado.
Componentes do resultado (3 anos) Valor Proventos recebidos R$ 25,7 bilhões Valorização das ações no portfólio R$ 23,7 bilhões Venda de ações R$ 5,4 bilhões
Ainda segundo o executivo, de 2023 até janeiro de 2026, a carteira do banco avançou 28,95%. Desde janeiro de 2023, o volume da carteira cresceu 38% e alcançou R$ 86,4 bilhões no quarto trimestre de 2025, acima do patamar do mesmo período do ano anterior, embora abaixo do pico de R$ 87,6 bilhões registrado no primeiro trimestre de 2025.
No período, o BNDES também vendeu R$ 5,4 bilhões em ações e retomou a estratégia de se desfazer de participações consideradas maduras, buscando operações com “alguma vantagem”. Um exemplo citado foi a saída da Copel, que teria injetado R$ 400 milhões no caixa do banco.
Outro caso mencionado por Abreu foi o acordo envolvendo a JBS no processo de listagem no exterior, prevendo pagamento de R$ 500 milhões ao banco caso as ações não se valorizem. O BNDES também reduziu participação na Energisa e aprovou R$ 1 bilhão para investimentos voltados à melhoria da distribuição de energia no Acre, Tocantins e Mato Grosso.
No fim de 2025, a carteira do BNDES era composta por R$ 81,5 bilhões em ações e R$ 4,9 bilhões em cotas de fundos de investimento — um nível descrito como histórico. Abreu afirmou que a instituição pretende ampliar a parcela alocada em fundos.
Para apoiar esse objetivo, o banco lançou um edital público conhecido como Chamada de Clima, destinado à seleção de fundos privados que receberão recursos do BNDES para investir em projetos climáticos, inclusive via compra de participações. Nesse modelo, os aportes diretos nas empresas passam a ser realizados pelos fundos, e não diretamente pelo banco de fomento.
Números destacados da estratégia via fundos
Orçamento estimado da BNDESPar: até R$ 4,9 bilhões
Chamada de Clima: R$ 4,3 bilhões
Potencial de mobilização com capital privado: cerca de R$ 15 bilhões
Abreu também defendeu a atuação do BNDES no desenvolvimento econômico e argumentou que a presença do Estado em empresas estratégicas é observada em diferentes países. Segundo ele, não é correto afirmar que o Estado não deve investir em setores e companhias considerados centrais para a economia.
Para sustentar o ponto, citou exemplos internacionais e mencionou que modelos com forte presença estatal na economia existem em países como China, Japão, Coreia e em partes da Europa, além de afirmar que os Estados Unidos também anunciam investimentos públicos em determinadas empresas.

A queda de geração nas usinas tipo 3, que incluem cogeração movida a biomassa de cana-de-açúcar, é preocupante, mas não há solução à vista, segundo Alexandre Leite, sócio da área de energia do Dias Carneiro Advogados. Para a cogeração, não há previsão de reembolso pela energia não vendida, apenas para as renováveis; segundo Leite, a solução exigiria mudanças legislativas. As distribuidoras afirmam que apenas seguem ordens do ONS, enquanto a Abradee diz que os prejuízos causados pela interrupção decorrentes dessas determinações não caracterizam falta de prestação do serviço. O texto evidencia um impasse regulatório entre o marco regulatório, as decisões operatorias e as expectativas do setor elétrico.

Em 10 de junho, durante a Semana do Meio Ambiente, o governo de São Paulo anunciou a construção da primeira usina brasileira de captura e armazenamento de carbono gerado pela produção de etanol de cana-de-açúcar. A iniciativa, orçada em cerca de R$ 30 milhões, envolve a FAPESP, a USP (Poli), a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Semil), a Petrobras e o escritório Rolim Goulart Cardoso Advogados, e resultou na criação do Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio), um Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) sediado na Poli-USP. O CTCCSBio terá como missão...

Resumo A Raízen avançou no processo de recuperação extrajudicial (RE) ao obter adesão de 75,45% dos créditos ao seu plano, o que permite protocolar a maior RE da história do Brasil. Mesmo com esse progresso, permanecem dúvidas sobre a estrutura da operação, especialmente a metodologia para a conversão de...

Resumo: A Raízen, joint venture de Cosan e Shell, negocia uma renegociação de dívida total de R$ 75,35 bilhões, com R$ 65,4 bilhões incluídos no processo de recuperação extrajudicial. Uma das propostas prevê converter 45% da dívida reestruturada em ações a R$ 0,25 por papel (valor cerca de 40% abaixo do fechamento anterior), com os 55% restantes estruturados como novas dívidas distribuídas entre Raízen Combustíveis e Raízen Energia, com maturidade entre 2032 e 2035. A reação do mercado foi negativa: as ações caíram quase 19% no dia, cotadas a R$ 0,34, após o anúncio da proposta de valorização da dívida em ações.

As fusões e aquisições nos segmentos de fertilizantes e açúcar/etanol caíram pela metade em 2025, totalizando apenas seis operações no ano, segundo levantamento exclusivo da KPMG para o Valor. Em fertilizantes, foram cinco transações em 2025, frente a nove em 2024; nas usinas de açúcar e etanol, o número caiu de três em 2024 para apenas uma em 2025. O recorte da consultoria evidencia um recuo significativo no ritmo de M&A nesses setores.