
Alta do petróleo reacende expectativa de maior produção de etanol no Brasil e na Índia, reduzindo oferta de açúcar e sustentando preços.
Os contratos futuros do açúcar bruto negociados na bolsa ICE alcançaram o maior patamar em cinco meses na quinta-feira, em meio ao aumento das compras especulativas e à escalada do conflito envolvendo EUA, Israel e Irã. A tensão geopolítica elevou os preços do petróleo ao maior nível em cerca de três anos e meio, reforçando a percepção de que usinas podem priorizar a produção de etanol em detrimento do açúcar.
No fechamento, o açúcar bruto avançou 3,9%, com alta de 0,57 centavo, encerrando a sessão a 15,37 centavos de dólar por libra-peso. Durante o dia, o contrato chegou a 15,49 centavos, a marca mais alta desde meados de outubro, sinalizando um movimento de valorização sustentado por fatores externos e posicionamento de mercado.
A principal leitura dos agentes é que o encarecimento da energia pode alterar a dinâmica de produção em países-chave. Com o petróleo em alta, cresce a atratividade do etanol, o que pode levar usinas de cana do Brasil — maior produtor global — e da Índia a direcionarem mais matéria-prima para biocombustíveis, reduzindo a disponibilidade de açúcar no mercado internacional.
O mercado de açúcar é altamente sensível aos custos e aos preços relativos da energia, especialmente em países onde a cana pode ser convertida tanto em açúcar quanto em etanol. Em momentos de petróleo valorizado, aumenta o incentivo econômico para ampliar a produção de biocombustível, reduzindo o mix de açúcar e, consequentemente, a oferta exportável.
Destaque: Com o petróleo em máximas de vários anos, o mercado precifica a possibilidade de menor produção de açúcar e maior produção de etanol em grandes origens.
Esse tipo de ajuste é relevante porque o Brasil tem papel central no abastecimento global. Mudanças no direcionamento industrial brasileiro tendem a repercutir rapidamente nos preços internacionais, sobretudo quando coincidem com movimentos especulativos e maior volatilidade em outras commodities.
A valorização do petróleo ocorreu após um agravamento do confronto no Oriente Médio. Segundo informações do mercado, o Irã atacou instalações de energia importantes na região depois que Israel atingiu o campo de gás de South Pars, considerado estratégico. A intensificação dos ataques elevou o prêmio de risco geopolítico e aumentou a percepção de possível restrição de oferta energética, impulsionando as cotações do petróleo.
Embora o açúcar não seja diretamente afetado por rotas energéticas, a commodity reage ao petróleo por causa da ligação entre energia e biocombustíveis. Assim, quando o combustível sobe, a cadeia sucroenergética pode reequilibrar produção para capturar melhores margens, o que se traduz em expectativa de menor oferta de açúcar.
Fator 1: petróleo em alta aumenta a competitividade do etanol.
Fator 2: maior produção de etanol pode reduzir o volume de açúcar.
Fator 3: especuladores ajustam posições e amplificam a volatilidade de curto prazo.
Além do efeito do petróleo, o mercado foi influenciado pelo reposicionamento de investidores. De acordo com avaliação do diretor da AP Commodities, Alberto Peixoto, os especuladores têm reduzido posições vendidas e aumentado posições compradas — uma mudança típica quando o mercado passa a apostar em novos avanços de preço.
Na prática, esse comportamento indica cobertura de vendidos, movimento em que agentes que apostavam na queda são forçados a recomprar contratos para limitar perdas, o que pode acelerar a alta no curto prazo. Ainda assim, Peixoto sinalizou que há um contraponto importante: a venda por parte dos produtores tem sido mais forte do que a compra especulativa, o que pode impor um teto ao movimento de valorização.
Esse equilíbrio entre demanda financeira e oferta comercial costuma determinar a sustentação das altas. Quando o produtor aproveita a melhora para fixar preços, parte do impulso gerado por investidores pode ser neutralizada.
Indicador Resumo do movimento Preço de fechamento 15,37 centavos de dólar por libra-peso Variação no dia Alta de 3,9% (0,57 centavo) Máxima intradiária 15,49 centavos, maior desde meados de outubro Vetores de curto prazo Petróleo em alta, risco geopolítico e cobertura de vendidos Possível limitador Maior ritmo de venda dos produtores
Nos próximos pregões, a tendência é que investidores acompanhem dois eixos principais: a evolução do conflito no Oriente Médio e a trajetória do petróleo. Se a energia mantiver patamares elevados, o mercado pode continuar precificando um mix mais favorável ao etanol, especialmente no Brasil, com reflexo direto na disponibilidade de açúcar.
Ao mesmo tempo, a intensidade das vendas por parte de produtores e o comportamento dos fundos podem definir se a alta se consolida ou perde força. Em cenários de maior volatilidade, variações rápidas podem ocorrer com base em novas informações geopolíticas e no fluxo de ordens de compra e venda.
Para o setor, a leitura central permanece: petróleo caro tende a dar suporte ao açúcar ao aumentar o apelo do etanol, mas o avanço pode ser moderado quando há oferta adicional no mercado por meio de fixações de preço e vendas comerciais.

A queda de geração nas usinas tipo 3, que incluem cogeração movida a biomassa de cana-de-açúcar, é preocupante, mas não há solução à vista, segundo Alexandre Leite, sócio da área de energia do Dias Carneiro Advogados. Para a cogeração, não há previsão de reembolso pela energia não vendida, apenas para as renováveis; segundo Leite, a solução exigiria mudanças legislativas. As distribuidoras afirmam que apenas seguem ordens do ONS, enquanto a Abradee diz que os prejuízos causados pela interrupção decorrentes dessas determinações não caracterizam falta de prestação do serviço. O texto evidencia um impasse regulatório entre o marco regulatório, as decisões operatorias e as expectativas do setor elétrico.

Em 10 de junho, durante a Semana do Meio Ambiente, o governo de São Paulo anunciou a construção da primeira usina brasileira de captura e armazenamento de carbono gerado pela produção de etanol de cana-de-açúcar. A iniciativa, orçada em cerca de R$ 30 milhões, envolve a FAPESP, a USP (Poli), a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Semil), a Petrobras e o escritório Rolim Goulart Cardoso Advogados, e resultou na criação do Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio), um Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) sediado na Poli-USP. O CTCCSBio terá como missão...

Resumo A Raízen avançou no processo de recuperação extrajudicial (RE) ao obter adesão de 75,45% dos créditos ao seu plano, o que permite protocolar a maior RE da história do Brasil. Mesmo com esse progresso, permanecem dúvidas sobre a estrutura da operação, especialmente a metodologia para a conversão de...

Resumo: A Raízen, joint venture de Cosan e Shell, negocia uma renegociação de dívida total de R$ 75,35 bilhões, com R$ 65,4 bilhões incluídos no processo de recuperação extrajudicial. Uma das propostas prevê converter 45% da dívida reestruturada em ações a R$ 0,25 por papel (valor cerca de 40% abaixo do fechamento anterior), com os 55% restantes estruturados como novas dívidas distribuídas entre Raízen Combustíveis e Raízen Energia, com maturidade entre 2032 e 2035. A reação do mercado foi negativa: as ações caíram quase 19% no dia, cotadas a R$ 0,34, após o anúncio da proposta de valorização da dívida em ações.

As fusões e aquisições nos segmentos de fertilizantes e açúcar/etanol caíram pela metade em 2025, totalizando apenas seis operações no ano, segundo levantamento exclusivo da KPMG para o Valor. Em fertilizantes, foram cinco transações em 2025, frente a nove em 2024; nas usinas de açúcar e etanol, o número caiu de três em 2024 para apenas uma em 2025. O recorte da consultoria evidencia um recuo significativo no ritmo de M&A nesses setores.