
Rentabilidade e clima mudam estratégia do produtor na escolha das culturas
Avaliação das mudanças no mercado de sementes e os fatores que têm levado produtores a rever suas estratégias no campo e os impactos da rentabilidade, do clima e da diversificação de culturas nas decisões para as próximas safras.
O mercado brasileiro de sementes atravessa um período de mudanças, acompanhando as novas decisões tomadas pelos produtores dentro das lavouras. A redução das margens em algumas culturas, os desafios climáticos e a busca por alternativas com menor custo de produção têm ampliado o espaço para culturas que, até poucos anos atrás, ocupavam posições secundárias no planejamento das propriedades.
Na avaliação da agrônoma e Líder de Marketing na Produtiva Sementes, Thaynara Oliveira, a soja continua sendo uma das principais commodities do agronegócio brasileiro, mas vem enfrentando um cenário de menor rentabilidade em algumas regiões. Ao mesmo tempo, culturas como sorgo, milho e algodão começam a aparecer com maior frequência nas estratégias de diversificação dos produtores.
Em entrevista à equipe de reportagem da A Granja durante a Expointer 2026, Thaynara falou sobre as transformações do mercado de sementes, o crescimento do sorgo, os impactos do clima e a necessidade de o produtor estar preparado para mudanças rápidas ao longo da safra.
A Granja — Como você avalia atualmente o mercado de sementes no Brasil? A soja continua ocupando o mesmo espaço?
Thaynara Oliveira — Hoje, o que tenho visto no mercado é a soja em uma decrescente. Pode parecer novidade, mas não é tanto quando olhamos o comportamento dos últimos anos, principalmente porque produzir soja não está trazendo a mesma rentabilidade para o produtor.
No Rio Grande do Sul essa realidade é ainda mais forte. Em estados como Mato Grosso e Goiás ainda existe uma produtividade muito boa, inclusive pelas condições climáticas, mas, à medida que a cultura deixa de ser tão rentável, vemos alguns produtores tirando um pouco o pé e procurando outras alternativas.
Já vimos produtores no Mato Grosso abrindo mão da soja para entrar diretamente com algodão. Outros estão olhando para milho verão e utilizando gergelim ou sorgo posteriormente. Pensando especificamente no mercado de sementes, vejo uma diminuição na soja, o milho relativamente estável e o sorgo em uma trajetória ascendente.
A Granja — Com esse crescimento, o sorgo pode se tornar uma espécie de “nova soja” no Brasil?
Thaynara — Acho que precisamos ser um pouco mais conservadores. Não vejo o sorgo tomando o espaço da soja, mas vejo como uma alternativa muito rentável para o produtor.
Durante muito tempo o sorgo foi tratado como uma cultura marginal. Muitas vezes era plantado sem tanta tecnificação e destinado principalmente a mercados regionais ou à alimentação animal. O que vimos mais recentemente foi uma mudança nessa percepção, com a cultura ficando muito mais técnica e surgindo novas possibilidades de comercialização.
Existem também características agronômicas importantes. O milho, por exemplo, sofre mais quando enfrenta estresse hídrico, enquanto o sorgo apresenta maior tolerância. Além disso, hoje temos menos problemas de manejo relacionados a determinadas pragas quando comparamos as duas culturas.
Outro ponto importante é que o Brasil já possui mercado de exportação de sorgo para a China. Isso abre possibilidades. Não acredito que a soja perderá uma parcela tão grande do seu espaço, mas o sorgo tende a ganhar relevância principalmente onde clima, disponibilidade de água e capacidade de investimento representam desafios para o produtor.
A Granja — E em relação às pragas e doenças? Existe hoje algum problema que preocupe especialmente o produtor?
Thaynara — Cada safra é uma safra e os desafios aparecem de formas diferentes. Eu costumo dizer, como agrônoma, que o melhor inseticida que temos é a chuva. Em anos mais secos podemos ter maior incidência de determinadas pragas que, em outras condições, talvez nem representassem um incômodo tão grande.
Às vezes também surge uma doença e existe a impressão de que se trata de algo novo, mas aquele patógeno já estava presente e apenas encontrou as condições ideais para se manifestar.
Já tivemos situações de podridão de grãos na soja no Mato Grosso, por exemplo, em que inicialmente ninguém sabia muito bem de onde vinha o problema. Depois o setor aprendeu a manejar. Foi semelhante com a cigarrinha no milho. Hoje existem muitas ferramentas disponíveis e não vejo uma praga ou doença para a qual não tenhamos alguma possibilidade de manejo.
A Granja — Diante de um clima cada vez mais imprevisível, como o produtor pode reduzir os riscos da safra?
Thaynara — Ser produtor exige muita coragem, porque é uma dança das cadeiras o tempo inteiro. Não conseguimos nos precaver de tudo porque não temos controle sobre o clima. Trabalhamos com previsões, mas elas também mudam.
O que o produtor consegue fazer é trabalhar com o maior número possível de alternativas e entender, dentro do planejamento da safra, onde estão os menores riscos. Ele precisa conseguir tomar decisões rapidamente.
Em um cenário climático mais desafiador, por exemplo, materiais de ciclos mais longos podem dar à cultura mais tempo para se desenvolver ou se recuperar de algum período de estresse. Um material de 90 dias tem menos tempo para se recuperar de uma adversidade do que outro de 120 dias, falando de maneira geral.
A Granja — A diversificação acaba sendo uma das principais ferramentas nesse cenário?
Thaynara — Sim. Eu acho que não dá para colocar todos os ovos em uma cesta só, porque o risco é muito grande.
Se o produtor entender que o clima não está favorável para plantar toda a área de soja, talvez seja melhor realmente não plantar tudo com soja. Pode buscar uma cultura alternativa que ocupe aquele espaço e tenha um custo menor, justamente para que uma eventual perda de produção não comprometa toda a operação.
O produtor precisa ter flexibilidade, acompanhar de perto o que está acontecendo no campo e estar pronto para mudar rapidamente. Já vimos safras começarem sem expectativa de uma grande demanda por inseticidas e, um mês e meio depois, surgir um forte ataque de lagartas. Essas situações mudam muito rápido.
Para Thaynara, esse cenário reforça uma transformação na maneira como as culturas são avaliadas dentro das propriedades. Mais do que substituir uma commodity por outra, a tendência é de que o produtor utilize diferentes alternativas para equilibrar rentabilidade, investimento e risco. Nesse movimento, a soja permanece protagonista, enquanto o sorgo ganha espaço como uma opção cada vez mais relevante no planejamento agrícola brasileiro.




