
Tragédia de Brumadinho: Justiça e Luta por Responsabilização 7 Anos Após o Rompimento da Barragem
Sumário: O artigo relata a tragédia do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, ocorrido em janeiro de 2019, que resultou em 272 mortes. Passados mais de sete anos, ainda não houve responsabilização criminal definitiva. Apenas agora, 15 pessoas envolvidas poderão enfrentar julgamento em Belo Horizonte. O texto aborda a frustração dos familiares das vítimas e a visão crítica da jornalista Cristina Serra sobre a falta de punições e o comportamento negligente das mineradoras. A Vale destaca suas ações de reparação, enquanto a TÜV SÜD, empresa contratada para atestar a segurança da barragem, nega responsabilidade. O artigo também menciona um ato em homenagem às vítimas promovido pela Avabrum.
Era uma sexta-feira quando a vida de Nayara Porto mudou para sempre. Aos 27 anos, ela estava preparando um pudim, a sobremesa preferida do marido, Everton Lopes Ferreira, de 32 anos, para o fim de semana. Enquanto o doce assava, ouviu a vizinha comentar sobre o rompimento de uma barragem da Vale na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte.
“Eu fiquei sem entender direito. Depois ela me chamou e perguntou se meu marido estava em casa. Eu disse que não, que ele estava trabalhando, e aí ela me contou o que tinha acontecido”, relembra Nayara, em entrevista ao programa Natureza Viva. “Foi um desespero total.”
Ela tentou várias vezes ligar para o marido, mas não conseguia completar a chamada. Também buscou contato com colegas de trabalho dele. Um deles atendeu: havia conseguido escapar da onda de rejeitos. “Ele me disse: ‘Nayara, ora, pede a Deus’. O armazém onde meu marido trabalhava, o almoxarifado, simplesmente deixou de existir”, relata Nayara.
2.557 dias sem responsabilização
O rompimento da barragem ocorreu por volta de 12h30 do dia 25 de janeiro de 2019, resultando na morte de 272 pessoas. Passados 2.557 dias desde a tragédia, ainda não houve uma responsabilização criminal definitiva. Agora, sete anos após o desastre, 15 pessoas poderão ser processadas judicialmente. As audiências de instrução começam em 23 de fevereiro na 2ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte. Até maio de 2027, vítimas sobreviventes, testemunhas e réus serão ouvidos.
Ao final dessa fase, a juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima decidirá se o caso será levado a júri popular. Entre os acusados estão 11 ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale e quatro funcionários da TÜV SÜD, empresa contratada para atestar a segurança da barragem.
Padrão de impunidade
A jornalista Cristina Serra, autora do livro Tragédia em Mariana, também participou do programa Natureza Viva e relacionou o caso de Brumadinho a outros desastres ambientais envolvendo mineradoras, como o rompimento da barragem de Mariana (2015) e o afundamento do solo em Maceió, devido à exploração de sal-gema.
Segundo ela, há um padrão de falhas graves e falta de punições. “São empresas que operam com muita irresponsabilidade e não investem o suficiente em segurança, priorizando a margem de lucro”, comenta Cristina. Ela também critica a atuação dos órgãos fiscalizadores, que muitas vezes se baseiam apenas em documentos enviados pelas próprias empresas, sem inspeções rigorosas em campo.
O que dizem as empresas
A Vale informou que não comenta processos judiciais em andamento, mas destacou ações de reparação na região. A empresa afirma que, até dezembro de 2025, executou 81% do Acordo Judicial de Reparação Integral, com investimentos além das indenizações, incluindo recuperação socioambiental, abastecimento de água e iniciativas de diversificação econômica. A mineradora também sustentou ter reforçado a segurança de suas barragens.
A Samarco, responsável pela barragem que se rompeu em Mariana, declarou sua solidariedade às vítimas e que, após o Novo Acordo do Rio Doce, firmado em 2024, assumiu diretamente a condução das ações de reparação. Segundo a empresa, indenizações foram pagas, distritos reconstruídos e projetos ambientais seguem em andamento.
Já a TÜV SÜD manifestou solidariedade às vítimas, mas afirmou não ter responsabilidade legal pelo rompimento. A empresa alega que os laudos de estabilidade emitidos seguiam a legislação e os padrões técnicos vigentes à época.
Memória e homenagem
Neste domingo, às 11h, a Avabrum promoverá um ato em memória das 272 vítimas. A homenagem ocorrerá no letreiro de Brumadinho, na entrada da cidade, às margens da rodovia MG-040. Para os familiares, mais do que lembrar, o momento reforça a luta contínua por justiça e por mudanças que impeçam novas tragédias.




