Global Saúde — A colheita de grãos acelera em diferentes regiões do país e reforça o potencial produtivo da safra 2025/26. Ainda assim, o agronegócio brasileiro inicia o ano sob um conjunto de incertezas que combinam instabilidade climática, mudanças no cenário comercial internacional e aumento do risco geopolítico — fatores que podem influenciar preços, custos de produção, logística e, indiretamente, a segurança alimentar.
Levantamentos regionais indicam que Mato Grosso, principal estado produtor de soja do país, mantém ritmo acima da média histórica. Até o fim de fevereiro, a colheita de soja alcançou 78,34% da área plantada, com avanço semanal superior a 12 pontos percentuais. O plantio do milho de segunda safra também progrediu e chegou a 81,93% da área prevista no estado.
Em escala nacional, porém, o andamento é mais lento do que o esperado. Estimativas privadas apontam que a colheita da soja estava em torno de 39% da área brasileira, um dos ritmos mais baixos dos últimos anos. Parte desse atraso é atribuída às chuvas em áreas do Centro-Oeste e de outros polos de produção, que dificultam o acesso às lavouras, elevam perdas de qualidade e criam gargalos na movimentação da safra.
Apesar dos desafios pontuais, a projeção oficial para o total de grãos permanece robusta. A estimativa consolidada indica 353,4 milhões de toneladas, com leve alta sobre o ciclo anterior e perspectiva de novo recorde. O número reforça o Brasil como um dos principais fornecedores globais de soja e milho, além de potência na exportação de proteínas animais.
“O campo está entregando produtividade. A safra se confirma forte, mesmo com desafios pontuais de clima. O problema hoje não é capacidade de produzir, é administrar risco.”
Na prática, o bom desempenho agronômico convive com um ambiente de negócios mais complexo, com margens pressionadas por custos elevados e maior volatilidade externa. Para o setor, a palavra-chave do momento é previsibilidade — seja para vender, transportar, armazenar ou planejar compras de insumos.
No cenário externo, uma decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa global de 10% sobre produtos não cobertos por isenção adicionou um novo componente ao tabuleiro comercial. Para o agronegócio brasileiro, ficaram isentos itens considerados estratégicos, como carne bovina, laranja, suco de laranja e fertilizantes.
Dados oficiais sobre o conjunto das exportações brasileiras indicam que:
Situação tarifária Participação Isentos 46% Taxados em 10% 25% Tarifas anteriores mantidas 29%
Especialistas do setor avaliam que o efeito final dependerá da reação de importadores, de ajustes em contratos e da dinâmica cambial. Em um ambiente de custos altos, qualquer alteração indireta no preço final pode reduzir o espaço para absorção de perdas ao longo da cadeia, do produtor à indústria.
O clima segue como um dos principais fatores de risco em 2026. O verão foi marcado por chuvas intensas, com registros de transtornos em áreas urbanas e rurais. A persistência desse padrão aumenta a chance de impactos sobre logística, armazenagem e qualidade dos grãos, além de elevar custos com colheita, secagem e transporte.
No contexto global, eventos climáticos severos em diferentes regiões reforçam a tendência de extremos meteorológicos. Para o agro, isso significa que a variabilidade deixa de ser exceção e passa a compor o planejamento como um fator contínuo de gestão.
Em foco: a combinação de umidade elevada e janelas curtas de colheita pode aumentar perdas e comprometer padrões de entrega, com reflexos sobre preços e ritmo de exportação.
Mesmo com incertezas, o Brasil segue ampliando frentes comerciais. O avanço de negociações entre Mercosul e União Europeia e a abertura do mercado chinês para o sorgo brasileiro indicam esforços para diversificar destinos e reduzir dependência de poucos compradores.
No início de 2026, novas plantas frigoríficas foram habilitadas para exportação, incluindo mercados reconhecidos por alta exigência técnica e sanitária, o que tende a fortalecer a competitividade da proteína animal brasileira no médio prazo.
O cenário geopolítico adiciona uma camada extra de imprevisibilidade ao setor. A escalada de conflitos no Oriente Médio, envolvendo o Irã, é vista como um fator capaz de impactar diretamente o agronegócio brasileiro, tanto no custo de produção quanto na dinâmica de preços e logística internacional.
Entre os principais canais de impacto, o mercado destaca:
Alta do petróleo, com reflexos em fretes e insumos; ao mesmo tempo, potencial estímulo a cadeias como etanol e açúcar;
Pressão sobre fertilizantes, considerando a relevância do Irã como fornecedor em algumas cadeias;
Oscilações cambiais, que afetam formação de preços, custo de importados e decisões de venda;
Risco logístico, com possibilidade de encarecimento e maior incerteza no transporte marítimo e aéreo.
Com isso, produtores e indústrias têm sido pressionados a reforçar estratégias de proteção, como melhor planejamento de compras, gestão financeira, diversificação de canais e acompanhamento mais próximo de mercado e clima.
Com uma safra robusta no radar e sinais de expansão comercial, o agronegócio brasileiro entra em 2026 com fundamentos positivos. Porém, o conjunto de fatores externos — tarifas, clima e geopolítica — reforça que produzir bem pode não ser suficiente em um ambiente de volatilidade.
Para o setor, previsibilidade comercial, regulatória e logística tende a se tornar tão estratégica quanto a produtividade no campo, influenciando decisões que vão da venda do grão ao planejamento de safra, do custo de insumos à estabilidade do abastecimento.

Resumo: o decreto nº 70.410, publicado pelo Governo de São Paulo, prevê o fim de mais de 5.280 cargos ligados a institutos públicos de pesquisa nas áreas de agricultura, meio ambiente e saúde, incluindo funções de apoio à pesquisa, técnico de laboratório, engenheiro e médico veterinário. A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) afirma que a medida representa um ataque ao serviço público, destacando a extinção de cargos como Agente e Técnico de apoio agropecuário, entre outros. A área de agricultura é a mais afetada, com 2.808 vagas cortadas em institutos como IAC, IB, IEA, IP, Ital, IZ e APTA Regional. O governo estadual descreve a ação como parte da reforma administrativa São Paulo na Direção Certa, que visa tornar o Estado mais ágil e sustentável; a Secretaria de Agricultura informou que 33.477 cargos já estavam vagos e que não haverá exonerações de servidores em exercício, apenas extinções futuras conforme vacância. Também foi anunciada a reestruturação de carreiras de Pesquisadores Científicos e Especialistas Agropecuários, com perspectiva de reorganizar as carreiras de apoio ligadas à Pesquisa, Extensão Rural e Defesa Agropecuária.
Resumo: Entre 16 e 18 de março, em Campinas (Expo Dom Pedro), a Feira Nacional de Máquinas e Tecnologias da Agricultura Familiar reunirá Embrapa, MDA e parceiros para apresentar estratégias de mecanização adaptadas à agricultura familiar, com exposição de máquinas, protótipos e debates. O objetivo é ampliar o acesso a tecnologias de pequeno porte compatíveis com diferentes realidades produtivas, aumentando a produtividade, reduzindo custos e fortalecendo a autonomia dos agricultores familiares. No Plano Safra 2025/2026, o Pronaf registrou 9,2 bilhões de reais em crédito para máquinas e implementos nos primeiros sete meses da safra, com 256 mil operações (alta de 39% em relação à safra anterior), incluindo crescimento de 153% para equipamentos de cultivo protegido. A programação traz o Seminário Nacional de Máquinas, celebração aos 30 anos do Pronaf e entregas estratégicas, como protótipos financiados (investimento de 2 milhões), a Plataforma Mecaniza e o Concurso de Inventores com premiação de 200 mil reais para 20 protótipos. Destacam-se tecnologias adaptadas à agricultura familiar, como motocultivadores, microtratores e implementos, que articulam políticas públicas, crédito, pesquisa e setor produtivo.

As ondas de calor no Brasil estão mais frequentes, mais longas e mais intensas — e os impactos já são mensuráveis sobre a agricultura, especialmente nas regiões que concentram grande parte da produção nacional. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que o número médio de dias com ocorrência de ondas de calor no país saltou de 7 dias (entre 1961 e 1990) para 52 dias (entre 2011 e 2020).

O bom desempenho da agropecuária foi decisivo para o resultado da economia brasileira em 2025. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta terça-feira (03), mostram que o setor avançou 11,7% no ano, tornando-se o principal motor da alta de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Resumo: O Irã é um dos principais parceiros do Brasil na agricultura, comprando milho (cerca de 9 milhões de toneladas no último ano), além de soja e açúcar, e é fornecedor relevante de ureia, fertilizante para milho. O conflito recente pode impactar esses fluxos comerciais, mas ainda é cedo para medir os reflexos, segundo Paulo Bertolini, da Abramilho. No campo logístico, há preocupações com restrições no Estreito de Ormuz, o que afeta o transporte internacional; o Oriente Médio foi destino de cerca de 30% das exportações brasileiras de carne de frango em 2024 (1,579 milhão de toneladas), com parte destinada aos Emirados Árabes e à Arábia Saudita. O aumento do petróleo pode elevar custos de produção (diesel) e influenciar o câmbio indireto para commodities, conforme Carlos Cogo, ressaltando que os impactos dependem da duração e intensidade do conflito. No Rio Grande do Sul, o setor acompanha os desdobramentos com cautela, sem atrasos confirmados até o momento. (Com informações do Correio do Povo.)