
Safra 2025/26 avança no Brasil, mas agronegócio encara tarifas, clima adverso e incerteza geopolítica
Sumário: Em 2026, a safra brasileira permanece robusta, com Mato Grosso já tendo 78,34% da área de soja plantada e milho de segunda safra em 81,93%, enquanto a colheita nacional de soja opera entre os ritmos mais lentos dos últimos anos; a Conab aponta 353,4 milhões de toneladas de grãos. O cenário externo traz tarifas dos EUA (10%), volatilidade cambial e riscos geopolíticos que elevam incertezas e custos logísticos. O Brasil amplia mercados (Mercosul–UE e China) e avança na abertura de frigoríficos para exportação (42 plantas). Na ciência, GCCRC destaca portos seguros genômicos para inserção sítio-específica de transgenes em milho, prometendo maior velocidade e previsibilidade para milho tolerante à seca. No front de preços, o mercado interno da soja permanece estável, com oscilações em Chicago e revisão de safra para 178 Mt devido à estiagem no RS.
Safra 2025/26 avança, mas agronegócio brasileiro enfrenta pressão de tarifas, clima extremo e risco geopolítico
Global Saúde — A colheita de grãos acelera em diferentes regiões do país e reforça o potencial produtivo da safra 2025/26. Ainda assim, o agronegócio brasileiro inicia o ano sob um conjunto de incertezas que combinam instabilidade climática, mudanças no cenário comercial internacional e aumento do risco geopolítico — fatores que podem influenciar preços, custos de produção, logística e, indiretamente, a segurança alimentar.
Levantamentos regionais indicam que Mato Grosso, principal estado produtor de soja do país, mantém ritmo acima da média histórica. Até o fim de fevereiro, a colheita de soja alcançou 78,34% da área plantada, com avanço semanal superior a 12 pontos percentuais. O plantio do milho de segunda safra também progrediu e chegou a 81,93% da área prevista no estado.
Em escala nacional, porém, o andamento é mais lento do que o esperado. Estimativas privadas apontam que a colheita da soja estava em torno de 39% da área brasileira, um dos ritmos mais baixos dos últimos anos. Parte desse atraso é atribuída às chuvas em áreas do Centro-Oeste e de outros polos de produção, que dificultam o acesso às lavouras, elevam perdas de qualidade e criam gargalos na movimentação da safra.
Produção recorde segue no radar, mas gestão de risco vira prioridade
Apesar dos desafios pontuais, a projeção oficial para o total de grãos permanece robusta. A estimativa consolidada indica 353,4 milhões de toneladas, com leve alta sobre o ciclo anterior e perspectiva de novo recorde. O número reforça o Brasil como um dos principais fornecedores globais de soja e milho, além de potência na exportação de proteínas animais.
“O campo está entregando produtividade. A safra se confirma forte, mesmo com desafios pontuais de clima. O problema hoje não é capacidade de produzir, é administrar risco.”
Na prática, o bom desempenho agronômico convive com um ambiente de negócios mais complexo, com margens pressionadas por custos elevados e maior volatilidade externa. Para o setor, a palavra-chave do momento é previsibilidade — seja para vender, transportar, armazenar ou planejar compras de insumos.
Tarifas internacionais adicionam incerteza ao comércio
No cenário externo, uma decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa global de 10% sobre produtos não cobertos por isenção adicionou um novo componente ao tabuleiro comercial. Para o agronegócio brasileiro, ficaram isentos itens considerados estratégicos, como carne bovina, laranja, suco de laranja e fertilizantes.
Dados oficiais sobre o conjunto das exportações brasileiras indicam que:
Situação tarifária Participação Isentos 46% Taxados em 10% 25% Tarifas anteriores mantidas 29%
Especialistas do setor avaliam que o efeito final dependerá da reação de importadores, de ajustes em contratos e da dinâmica cambial. Em um ambiente de custos altos, qualquer alteração indireta no preço final pode reduzir o espaço para absorção de perdas ao longo da cadeia, do produtor à indústria.
Clima extremo: do excesso de chuva à variabilidade permanente
O clima segue como um dos principais fatores de risco em 2026. O verão foi marcado por chuvas intensas, com registros de transtornos em áreas urbanas e rurais. A persistência desse padrão aumenta a chance de impactos sobre logística, armazenagem e qualidade dos grãos, além de elevar custos com colheita, secagem e transporte.
No contexto global, eventos climáticos severos em diferentes regiões reforçam a tendência de extremos meteorológicos. Para o agro, isso significa que a variabilidade deixa de ser exceção e passa a compor o planejamento como um fator contínuo de gestão.
Em foco: a combinação de umidade elevada e janelas curtas de colheita pode aumentar perdas e comprometer padrões de entrega, com reflexos sobre preços e ritmo de exportação.
Diversificação de mercados avança, com novas habilitações e acordos
Mesmo com incertezas, o Brasil segue ampliando frentes comerciais. O avanço de negociações entre Mercosul e União Europeia e a abertura do mercado chinês para o sorgo brasileiro indicam esforços para diversificar destinos e reduzir dependência de poucos compradores.
No início de 2026, novas plantas frigoríficas foram habilitadas para exportação, incluindo mercados reconhecidos por alta exigência técnica e sanitária, o que tende a fortalecer a competitividade da proteína animal brasileira no médio prazo.
Risco geopolítico pode elevar custos e aumentar volatilidade
O cenário geopolítico adiciona uma camada extra de imprevisibilidade ao setor. A escalada de conflitos no Oriente Médio, envolvendo o Irã, é vista como um fator capaz de impactar diretamente o agronegócio brasileiro, tanto no custo de produção quanto na dinâmica de preços e logística internacional.
Entre os principais canais de impacto, o mercado destaca:
Alta do petróleo, com reflexos em fretes e insumos; ao mesmo tempo, potencial estímulo a cadeias como etanol e açúcar;
Pressão sobre fertilizantes, considerando a relevância do Irã como fornecedor em algumas cadeias;
Oscilações cambiais, que afetam formação de preços, custo de importados e decisões de venda;
Risco logístico, com possibilidade de encarecimento e maior incerteza no transporte marítimo e aéreo.
Com isso, produtores e indústrias têm sido pressionados a reforçar estratégias de proteção, como melhor planejamento de compras, gestão financeira, diversificação de canais e acompanhamento mais próximo de mercado e clima.
Perspectiva para 2026: fundamentos sólidos, mas previsibilidade vira ativo estratégico
Com uma safra robusta no radar e sinais de expansão comercial, o agronegócio brasileiro entra em 2026 com fundamentos positivos. Porém, o conjunto de fatores externos — tarifas, clima e geopolítica — reforça que produzir bem pode não ser suficiente em um ambiente de volatilidade.
Para o setor, previsibilidade comercial, regulatória e logística tende a se tornar tão estratégica quanto a produtividade no campo, influenciando decisões que vão da venda do grão ao planejamento de safra, do custo de insumos à estabilidade do abastecimento.




